Cine PE consagra Betse de Paula e ignora Nelson Rodrigues

Vendo ou Alugo leva 12 prêmios, incluindo melhor filme e direção; Bonitinha, mas Ordinária fica apenas com ator

LUIZ CARLOS MERTEN , RECIFE, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h11

Betse de Paula agradeceu em nome de Oscarito e Grande Otelo a enxurrada de Calungas que recebeu por Vendo ou Alugo. O filme foi o grande vencedor do 17° Cine PE, que terminou na quinta-feira à noite. "Isso foi a melhor coisa que me aconteceu na vida", acrescente Betse. Seu filme não é apenas uma comédia divertida e irreverente. Como a história de quatro gerações de mulheres numa casa decadente, localizada no limite de uma favela, ela encerra uma reflexão muito interessante sobre o Brasil contemporâneo.

Betse de Paula, pensadora do Brasil? Sim, ela é, e a crítica deu-se conta ao lhe outorgar seu prêmio. Mas 12 Calungas, incluindo melhor filme, direção, roteiro e atriz (Marieta Severo, homenageada deste ano pelo Cine PE), foram excessivos. Havia outro filme que também pensa o País, um drama - Bonitinha, mas Ordinária, que Moacyr Goes adaptou da peça de mesmo nome de Nelson Rodrigues. Até quando quis acertar, o júri errou. Deu o prêmio de melhor ator para João Miguel, quando Leon Goes, irmão do diretor, que faz Peixoto, não foi apenas o melhor de todo o evento como sua interpretação - mesmo como coadjuvante - é uma das melhores de toda a história do cinema brasileiro.

Como não perceber isso? Talvez seja uma questão de preconceito. Betse de Paula também sabe o que é isso. Tudo bem que ela dispôs agora de meios, como nunca teve em sua carreira, mas o talento, a rigor, já estava em O Casamento de Louise. Moacyr Goes pode ter chegado ao Recife meio desacreditado por suas escolhas - filmes de Xuxa e do Padre Marcelo -, mas crítica e júri passaram atestado de incompetência ao não reconhecer o que há de forte e autoral na nova Bonitinha, totalmente diversa da de Braz Chediak, com Lucélia Santos, nos anos 1980. Ao deslocar o eixo da peça para Peixoto, Goes não apenas fez uma leitura inovadora como favoreceu a excepcional performance de seu irmão - ignorada, criminosamente, pelo júri. Como reclamar, quando Hollywood ignora a grande Emmanuelle Riva de Amor, de Michael Haneke, se um dos grandes atores do Brasil também passa batido?

O júri considerou Linear o melhor curta, e a animação de Amir Admoni é boa. Mas se atribuíram prêmios importantes a O Fim do Filme, de André DIb, os jurados praticamente ignoraram Aluga-se, de Marcela Lordy, e totalmente ignoraram Cadê Meu Rango?, de George Damiani. Premiações raramente incitam à unanimidade, mas existem escolhas que provocam clamor. Nada disso impede a constatação - o Festival do Recife teve, este ano, alguns dos melhores debates de sua história. A promessa é de que eles entrem ao vivo, online, no ano que vem. O público de todo o Brasil,do mundo, só terá a ganhar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.