Cine Ceará vive uma noite à cubana

Memória Cubana. Precioso documentário de Alice Andrade      

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

 

FORTALEZA

A noite de domingo no Cine Ceará foi inteira dedicada à ilha. O documentário Memória Cubana, de Alice Andrade, traz uma parte da história política do século através dos "noticieros", os cinejornais que passavam nas salas de cinema informando a população do que ia pelo mundo. Já a ficção Lisanka, do diretor cubano Daniel Dias Torres, relembra um episódio marcante da história do século 20 - a crise dos mísseis, quando se esteve mais perto da catástrofe nuclear - através de uma espécie de comédia romântica de sabor caribenho.

É curioso, porque Daniel Diáz Torres, como tantos outros cineastas, também trabalhou nos "noticieros" do Icaic, o instituto de cinema criado pela revolução dos barbudos. "Naqueles tempos achávamos que o cinema podia de fato mudar a realidade e, em certo sentido, aqueles cinejornais ajudavam a mudá-la." Tempos de utopia, reconhece Daniel, e talvez irrepetíveis. De qualquer forma, os "noticieros" viveram do início da revolução até final dos anos 90, quando então foram abandonados.

De qualquer forma, a prática dos "noticieros", que eram semanais e depois viraram mensais, durando cerca de 15 minutos cada um, criou um extraordinário documento daquela época. Em Cuba e no mundo. Foi esse rico acervo que encantou Alice Andrade, que é filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma e Os Inconfidentes. "Havia 1.493 edições de noticieros, cerca de 200 horas editadas", conta Alice, que estudou em Havana e pesquisou no Icaic. Um nome despontava em meio a esses mundos dos "noticieros" - o do documentarista Santiago Álvarez, um mestre reconhecido internacionalmente (há, no Brasil, um ótimo livro escrito por Amir Labaki). São imagens preciosas, dos primeiros anos da revolução, com suas figuras maiores, Fidel, Che, Camilo, Raúl. Mas também gente do povo, no trabalho, em condições de vida difíceis.

Mazelas. Documentários são a favor, não raro panfletários, mas, pouco a pouco, aparecem os "noticieros" críticos, que falam dos problemas da burocracia e de outras mazelas da ilha. Talvez tenha sido por isso que foram postos de lado nos anos 90, "quando não havia muito interesse das autoridades em mantê-los dessa maneira", diz Daniel. Esse aspecto crítico é contemplado no documentário de Alice, cuja maior virtude é a recuperação das imagens, hoje pouco vistas.

Em Lisanka, o histórico aparece sob forma ficcional. A crise dos mísseis, de outubro de 1962, pôs o mundo à beira do holocausto nuclear. Aviões americanos de espionagem descobriram que os soviéticos haviam instalado mísseis nucleares em Cuba, a 100 quilômetros da Flórida. Kennedy deu um ultimato a Kruchev, então premiê soviético, e decretou bloqueio à ilha. Nesse clima de altíssima tensão, há uma tratorista cubana, a tal Lisanka do título, cujo coração balança entre dois cubanos e um soldado russo. "Queria marcar essa história com uma certa ironia, mas nunca com tom de burla, pois foi uma época dramática", diz Daniel.

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