Cinco vozes revivem Elizeth Cardoso em musical

Espetáculo dirigido por João Falcão traz canções dos grandes mestres brasileiros, de Vinicius a Baden Powell

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

10 de abril de 2008 | 15h44

Elizeth Cardoso nasceu para cantar - com dez anos, ela já conseguia interpretar as canções de Vicente Celestino no tom exato. Aos 16, em sua festa de aniversário, conheceu Jacob do Bandolim que a levou para a Rádio Guanabara. E, até morrer em 1990, pouco antes de completar 70 anos, Elizeth gravou composições dos principais mestres brasileiros, de Vinicius de Morais a Baden Powell. Raríssima intérprete, ela fascinou o diretor João Falcão que, convidado a escrever e dirigir um musical em sua homenagem, concebeu Divina Elizeth, que estréia nesta sexta-feira, 11, no Teatro Shopping Frei Caneca.      Veja também: Ouça a crítica do jornalista Ubiratan Brasil "Ao ouvir suas canções para criar o espetáculo, fui levado a um passeio pela MPB com a voz de Elizeth", conta Falcão que, diante de uma mulher tão versátil (foi balconista, funcionária de uma fábrica de saponáceos e cabeleireira) e de uma artista excepcional (sua voz cantava a tristeza com o tom mais grave e a alegria com o colorido mais brilhante), decidiu dividir o personagem em cinco intérpretes. Assim, a Divina (apelido que ganhou de Haroldo Costa) é vivida em cena por Ana Pessoa, Beatriz Faria, Carol Bezerra, Daniela Fontan e Dhu Moraes. "Cada uma representa uma faceta da cantora", explica o diretor. Conhecido pela forma como quebrou a barreira do tempo (em A Dona da História) e trabalhou com a fábula (A Máquina), João Falcão não se contenta com soluções fáceis. Dessa forma, além de contemplar a amplitude vocal de Elizeth entre o quinteto de atrizes/cantoras (como poucas, ela trafegava do samba à bossa nova, das canções de amor às eruditas), ele não distribuiu os papéis de acordo com a faixa etária, ou seja, as mais novas interpretando Elizeth quando moça e assim por diante - elas vivenciam os sentimentos da Divina, chegando a cenas em que as cinco ‘elizethes’ estão no palco ao mesmo tempo. Assim, determinados objetos servem com ponte entre uma fase e outra da existência da cantora: uma canção começa entoada por uma atriz que recria seus instantes derradeiros e é completada por outra, mais jovem, em ação em outro momento do passado. Em outra cena, um simples espelho de mão é o suficiente para marcar a passagem de tempo. "Elizeth era uma mulher plural, sem preconceitos", comenta Falcão. "Eu também não quis eliminar as características de cada uma das atrizes, permitindo que todas contribuíssem para a recomposição da Divina." A voz da verdadeira Elizeth surge em uma ocasião específica, justamente no encontro entre o Época de Ouro e o Zimbo Trio, em 1968, cuja liga foi conseguida graças à sua peculiar interpretação, em que se destacavam os ‘erres’ fricativos que seriam sua marca registrada - nenhuma outra cantora conseguiu usar aqueles erres de forma tão classuda. Divina Elizeth tem cerca de 40 músicas (algumas clássicas como Canção do Amor Demais, marco inicial da bossa nova), apresentadas na íntegra ou em trechos, todas cantadas e tocadas ao vivo - no fundo do palco, o diretor musical Josimar Carneiro formou uma banda de seis músicos capaz de percorrer da sonoridade dos tradicionais conjuntos regionais à batida mais jazzística. O elenco é completado por Cláudio Galvan e Pedro Lima, atores com experiência em canto, que conduzem a narrativa, contada em forma de fábula sem obedecer a cronologia linear. E, entre as ‘elizethes’, a curiosa presença de Beatriz Faria, filha de Paulinho da Viola, que foi gravado pela primeira vez pela Divina em 1965, no disco Elizeth Sobe o Morro.  Divina Elizeth. 105 min. 12 anos. Teatro Shopping Frei Caneca (600 lugs.). Rua Frei Caneca, 569, 6.º andar, 3472-2226. 6.ª e sáb., 21h; dom., 19 h. R$ 80. Até 1.º/6

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