Cinco vezes arte poética

Cinco vezes arte poética

Centro Maria Antonia abre seu 1º ciclo de mostras com destaque para as obras de Regina Silveira e Décio Vieira

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Um único programa, cinco exposições: a fórmula consagrada pelo Centro Universitário Maria Antonia ao longo da última década vem se mostrando ainda vigorosa e capaz de revelar boas e diversas surpresas ao público. O primeiro ciclo de mostras da instituição, que será inaugurado esta noite (com o lançamento hoje da Revista Ars nº 13, da ECA-USP) e fica em cartaz pelos próximos três meses, traz obras inéditas de Regina Silveira e um panorama bastante amplo da obra de Décio Vieira que, surpreendentemente é a primeira individual do mestre construtivo carioca na cidade de São Paulo. Trata-se ainda de oportunidade rara por aqui de ver de perto a obra da também carioca Carla Guagliardi, que reside há 13 anos na Alemanha, as pinturas quase fotográficas de Fábio Flaks e as fotografias sedutoramente pictóricas de Karina Zen.

Apesar de casual, essa expansão dos dois artistas mais jovens para campos que extrapolam sua linguagem de origem acaba por reiterar a inexistência de limites técnicos redutores para a arte contemporânea. Karina é fotógrafa profissional e foi olhando através da máquina que descobriu a plasticidade um tanto perversa dos santos ou o veio compositivo por trás do trabalho do taxidermista que retratou no museu de Brusque, em Santa Catarina. Propositalmente, as imagens (tanto dos santos, que mais parecem homens, como dos animais empalhados) foram ampliadas e emolduradas como se fossem pinturas.

Perfeição técnica. Já as obras de Flaks têm caráter de imediatez, de secura, que se somam a uma temática cotidiana, banal (como fundos de garrafa vazios ou caixas de papelão abertas) e surpreende o espectador exatamente por ser explícita. Planejados e executados com perfeição técnica, seus trabalhos são apenas pinturas. Não há neles "nenhuma verdade oculta, essência escondida ou possibilidade de transcendência", como escreve a curadora Thais Rivitti no texto de apresentação. As três peças escultóricas apresentadas por Carla Guagliardi também são absolutamente explícitas. Os materiais (balões de ar, elásticos, tábuas de madeira..) guardam suas características mais básicas e contrapõem-se num jogo de equilíbrio e tensão bastante instável e sedutor.

A individual de Décio Vieira, que ocupa o salão principal do Centro Universitário, é a face mais histórica desse ciclo de mostras. Ao trazer à luz o trabalho do mestre construtivista (sempre apontado nos textos sobre arte concreta, mas cuja obra é raramente vista, muito menos em conjunto), essa exposição acaba por atingir três importantes objetivos: dar à obra uma merecida visibilidade pública; demonstrar que a história do movimento concreto é mais complexa e ampla do que sua face mais visível dá a entender; e complementar à tradicional abertura do Centro Universitário para a reflexão acerca da arte brasileira dos anos 50 e 60.

Metáforas. Mas as três obras de Regina Silveira, inéditas no País e reunidas sob o título Meialuz, são o chamariz da programação e demonstra o talento da artista em se reinventar. Os elementos trabalhados aí, como o jogo de escalas, o céu, a imagem em movimento, uma cuidadosa sonoplastia (de Rogério Rochlitz) já se fizeram presentes em outras obras expostas pela artista no Brasil ou no exterior. No entanto, eles são recombinados, reinventados de tal forma que nos desvendam o novo ao nos apresentar aquilo que nos é familiar. Como define João Bandeira em seu texto, "reanimam metáforas primordiais".

O QUE VER EM CADA MOSTRA

Regina Silveira

Como um mar felliniano, Meialuz, de Regina Silveira, propõe um mergulho num céu imaginário, artificial e sedutor. Já em Mil e Um Dias, ela coloca o tempo em movimento, faz nuvens andarem e promove sucessão fantasiosa entre o dia e a noite. Brinca ainda com a expansão e contração da imagem e transforma uma calota de madeira num novo planeta.

Décio Vieira

Signatário do Grupo Frente, companheiro de Volpi e Oiticica, Vieira manteve-se à margem dos embates em torno do movimento neoconcreto. Explorou de forma bastante particular e lírica a têmpera e o pastel.

Carla Guagliardi

A obra de Carla Guagliardi é marcada por um jogo de equilíbrio entre elementos opostos. A resistência flácida do balão de ar sustenta a pesada ripa de madeira, da mesma forma que o movimento flexível do elástico permite a barras de ferro flutuarem no espaço.

Karina Zen

Feitos por imigrantes italianos do fim do século 19, os santos retratados por Karina parecem adquirir surpreendente caráter laico e contemporâneo.

Fábio Flaks

Apesar das distinções de forma e tratamento, os três grupos de trabalho apresentados por Flaks (retratando caixas de som, caixas vazias e fundos de garrafa) debruçam-se com precisão e ironia sobre elementos vazios do cotidiano.

1º CICLO DE EXPOSIÇÕES

Centro Maria Antonia. Rua Maria Antonia, 294, telefone 3255-7182.

Das 10 h/21 h (sáb. e dom., até 18 h; fecha 2ª). Grátis. Até 23/5

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.