Cinco talentos do teatro para menores

1. O diretor e autor: pelas diferenças

Dib Carneiro Neto, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

Cachorro Morto, além do público adulto que gosta de teatro, tem atraído a plateia jovem de forma incrivelmente bem-sucedida. Qual o segredo?

Essa resposta tão bem-sucedida do público jovem tem sido uma surpresa maravilhosa, porque o espetáculo nunca foi pensado para um público ou uma faixa etária específica. Não sei qual é o segredo, mas tenho a impressão que Cachorro Morto tem um apelo juvenil forte porque há uma narrativa linear clara, uma história envolvente sendo contada, mas de forma múltipla e dinâmica. Conversando com o público adulto, percebo que há um envolvimento com a trajetória da personagem, com o drama familiar. Já com o público jovem, há um envolvimento com a estrutura do espetáculo, com a multiplicação dos personagens pelos cinco atores e o humor dos diálogos. Há outro fato determinante também: um dos livros que inspirou a peça foi lançado simultaneamente para adultos e pré-adolescentes (em duas edições, apenas com capas e divulgações diferentes). Isso faz com que a linguagem da peça seja ao mesmo tempo concisa (já que é estruturada a partir do ponto de vista de um autista) e profunda. Acredito que a identificação dos jovens com a peça acontece tanto por uma camada linear - a história contada - como por uma camada múltipla e que corresponde ao ritmo de acesso a informações a que está acostumado.

Por que você escolheu a temática das diferenças?

Atualmente, esse é o tema que mais me atrai e intriga. Até mesmo o nome da companhia que formei com os atores de Cachorro Morto remete a isso: Hiato. Porque é exatamente o que eu me pergunto o tempo inteiro: qual a distância entre o que eu digo e o que você entende/quer entender do que eu disse? Qual o tamanho da lacuna que existe entre a minha experiência e a linguagem? O que eu consigo expressar da minha experiência? E, para responder a essas perguntas, eu tenho que considerar que existem outras formas de perceber o mundo além da minha. E isso me faz voltar ainda mais e perguntar: como percepções de mundo, comportamentos, formas de pensamento podem ser consideradas adequadas ou inadequadas, se elas são únicas? Acredito que transformar isso em espetáculos é uma forma de, mais do que responder, compartilhar essas perguntas. No caso de Cachorro Morto, o espetáculo partiu da minha experiência pessoal, da minha "inadequação", a minha "diferença" durante a infância e pré-adolescência e de como isso determinou a minha forma de perceber o mundo. E esse tema volta agora, dessa vez direcionado às crianças, num espetáculo infantil que estamos criando (e que deve estrear no segundo semestre): Gente e Monstro.

Conte alguma reação da plateia que o tenha marcado durante a temporada da peça.

Como o espetáculo está há quase dois anos em cartaz, em locais diferentes, viajando pelo interior, tivemos respostas muito diferentes. A primeira apresentação que fizemos foi para um grupo de autistas e seus familiares (que tinham contribuído com nossa pesquisa). Enquanto os pais estavam emocionados com o espetáculo, as crianças tinham um envolvimento muito diferente. Há uma cena em que um dos atores diz "eu tenho um mapa". Nesse momento, um menino com Síndrome de Asperger na plateia grita: "Mãe, cadê meu mapa? Mãe, cadê meu mapa?" e permanece assim até que a mãe lhe entregue o mapa. Em outra apresentação, havia um jovem que, a cada diálogo da peça, repetia "nossa!" Uma vez, um senhor veio conversar conosco, dizendo ter se emocionado muito porque recentemente (aos quase 50 anos) tinha descoberto ser Asperger. É muito curioso que é possível perceber um movimento diferente na plateia quando há familiares e pessoas envolvidas indiretamente com a síndrome: os familiares se emocionam muito e frequentemente vêm conversar conosco, compartilhar suas experiências.

QUEM É

LEONARDO MOREIRA

DIRETOR E DRAMATURGO

CV: Tem 27 anos e nasceu em Areado-MG. Formou-se em Artes Cênicas pela USP. Em 2007, junto a um grupo de jovens atores, criou a Companhia Hiato. Por Cachorro Morto, foi apontado como um dos novos autores em destaque da cena paulista. Atualmente, além de dirigir um espetáculo em Buenos Aires, trabalha na criação de roteiros para a televisão.

2. O figurinista: paixão pela moda

Como surgiu seu interesse pela criação de figurinos?

Desde a infância, meu interesse pelas artes plásticas era muito evidente. Desenhar e pintar eram parte da minha rotina. Vendi meu primeiro quadro aos 12 anos para um casal de colecionadores de arte, amigos de meus pais. O vestuário era como uma extensão das pessoas e parte do universo que eu tentava ilustrar. Tinha um grande interesse pela moda e não só por aquilo que eu mesmo poderia vir ou não a usar, mas também pelo vestuário das pessoas que me circundavam. Como era costume no interior de Minas daquela época contratar costureiras para irem em casa fazer as roupas da família, eu mesmo acabava escolhendo o tecido e criava o modelo das roupas que seriam feitas para mim. O que eu vestia tinha sempre algo que saía do óbvio.

Como você resume suas intenções artísticas ao transformar as histórias de Oscar Wilde em roupas (O Poeta e as Andorinhas)?

Eu considerava as histórias de Wilde, embora voltadas para o público infanto-juvenil, um tanto duras na sua incisiva observação das nossas imperfeições. Assim, pensei inicialmente em tentar compensar essa crueldade criando algum tipo de alento para o jovem espectador. Como o J.C. Serroni já havia adiantado que seus cenários tenderiam mais para o sombrio e para o árido, achei que os figurinos poderiam servir de oásis para alguns olhares perplexos e, possivelmente, inexperientes. Parti, como sempre acabo fazendo, em busca da combinação das cores ideais. A criação dessa harmonia é sempre o que inicialmente me move. Começo com as cores e só então parto para as formas e para a escolha dos materiais. Uma outra coisa que me ocupou bastante foi o trabalho com as texturas dos figurinos e dos adereços. Queria, através da estimulação visual, aguçar também uma percepção tátil na plateia. Às vezes, eu acho uma pena que a distância entre o palco tradicional e o público, principalmente o infantil, seja tão grande. Uma das maiores recompensas que tive com o trabalho foi escutar de um espectador que ele havia passado o tempo inteiro do espetáculo com vontade de tocar os figurinos.

Quem são seus mestres na área de figurinos/estilistas?

Por coincidência (ou não!), gosto muito de duas figurinistas japonesas: Emi Wada e Eiko Ishioka. A Emi já contribuiu com algumas obras-primas para o cinema de Kurosawa e Peter Greenaway, por exemplo, e pode ser apreciada também no mais recente O Clã das Adagas Voadoras e na ópera de Tan Dun O Último Imperador. Fico pasmo com a extraordinária e precisa escolha das cores e com a riqueza das texturas que ela utiliza. Já a Eiko faz de tudo: eventos, publicidade, teatro, cinema, Cirque du Soleil, ópera. O que me fascina nela é aquela sensação de que, para a sua imaginação, não parece haver limites. No Brasil, sou um devoto do trabalho de figurinista do diretor teatral Gabriel Villela. Seus figurinos têm uma beleza - nada vulgar! - e uma singeleza tão raras que só me resta ficar comovido. Para ficar apenas com um exemplo, o seu trabalho para o recente Vestido de Noiva é digno de qualquer prêmio. O uso do plástico bolha é nada menos do que genial. E não é apenas uma questão de gerar o mero encantamento visual - como muito se vê por aí. Suas personagens trajam sempre alguma coisa que está a serviço de algo maior, de uma transcendência, a serviço do teatro. Criar assim é para poucos. Na área da moda, as recentes e trágicas circunstâncias acabaram por me aproximar mais de Alexander McQueen. Seu trabalho seria um ótimo parâmetro para alguém que tivesse a incumbência de discernir o que é pura tendência daquilo que seria a verdadeira criação artística. Essa moda-arte ou arte-moda me fascina demais. E são muitos os gênios dessa área, principalmente da haute couture, que, a meu ver, fazem do seu trabalho verdadeiras obras de arte. Christian Lacroix, Gaultier...

QUEM É

LEONARDO DINIZ

ATOR, CANTOR E FIGURINISTA

CV: Leonardo Diniz, de 38 anos, nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Pelo figurino de O Poeta e as Andorinhas, ganhou os prêmios APCA e Femsa de Teatro Jovem. Como ator, esteve na trilogia de Gabriel Villela da obra teatral de Chico Buarque, entre muitos espetáculos. Como cantor, fez o show-solo Tempo e o recente musical Emoções que o Tempo não Apaga.

3. A atriz: aprender a lidar com a morte

Sua personagem, em O Travesseiro, perdeu o irmãozinho e inventa uma fantasia para (não) lidar com isso. Fale de sua experiência em lidar com a morte em cena, e numa plateia mirim.

Adoro criar tipos, mas esse meu trabalho atual é um drama para crianças, coisa não muito habitual no teatro infantil. Eu tenho pavor da morte, por isso me identifico com os autores, os personagens que falam de morte, que morrem em cena. De maneira catártica, canalizo esse medo na arte, tentando talvez driblá-la (risos). De certa maneira, estou agindo como a menina da peça, a Didi. Para as crianças não há todo esse peso. Não queríamos usar a palavra morte, na boca da Didi, simplesmente para que os pais tivessem o direito de dar vazão aos questionamentos dos filhos, ou não. A maioria das crianças não fala que o Celinho morreu. Fala que ele virou travesseiro. E aí cabe aos pais essa decisão. Mas elas sentem sim, que algum tabu existe ali. Já tivemos pais que durante o espetáculo perguntavam aos filhos se queriam ir embora e as crianças relutavam até o fim. Isso é lindo. O tabu está nos adultos. Talvez se a gente soubesse lidar melhor com a morte como em outras civilizações, essa passagem toda fosse mais tranquila.

Na temporada de O Travesseiro, houve uma reação da plateia, curiosa, engraçada, triste, que sirva para ilustrar esse comportamento do público infantil diante do tema da morte?

Além dessa de os pais ficarem pedindo para o filho para irem embora, temos os casos do menino que me chamou de assassina, na cena em que os pais descobrem que eu matei o passarinho; o menino que, quando eu chego no lugar onde o poeta diz que mora Deus, falou desesperadamente: "Aí é que é o Deus? Fala papai, aí é que é o Deus?"; a menina com paralisia cerebral, que a mãe tentava levá-la em vários espetáculos e não havia jeito de ela se acalmar - a mãe nos escreveu um relato emocionado, dizendo que a filha ficou o espetáculo todo atenta e encantada; e muitos outros.

Recentemente, que atores/atrizes chamaram sua atenção pelo carisma com as crianças?

Jacqueline Obrigon e Maurício de Barros em Assembleia dos Bichos; e Mariana Lima e Renato Linhares em A Mulher Que Matou os Peixes.

QUEM É

VIRGINIA BUCKOWSKI

ATRIZ

CV: Natural de Porto Alegre, 33 anos, formou-se no Indac e, em 1995, ingressou no grupo Círculo dos Comediantes, de Marco Antônio Braz, atuando numa trilogia de Nelson Rodrigues. Depois fundou a Velha Companhia. Por Ay, Carmela!, recebeu o Prêmio Qualidade Brasil 2007. Além de O Travesseiro, está também em cartaz com A Alma Boa de Setsuan.

4. O compositor: ampliar os sentidos

Muita gente diz que peça infantil sem música é um pecado mortal. Você concorda?

Penso a música para a cena - seja teatro infantil ou adulto - como um componente que deva, mais do que manter a atenção do público ou dar "cama" para os atores, ampliar os sentidos da encenação. A música é fundamental para apoiar e fazer subir os degraus da dramaturgia, além de atuar no sensorial e emocional da plateia para além da compreensão do texto e da encenação.

Quando compõe para crianças, sua inspiração vem da sua própria infância ou de onde?

Na verdade, imagino o que faria surpreender as crianças de hoje, tão espertas e estimuladas. Surpreender - no sentido de apresentar timbres que elas ainda não reconheçam e que não estejam nos programas que assistem na televisão. E geralmente me inspiro no que estou ouvindo no momento da criação.

Há instrumentos musicais que caem melhor em trilhas infantis do que em adultas?

Uma das coisas maravilhosas em fazer trilha infantil é que é um lugar infinito para se inventar música. Vale rock, música eletrônica, timbres eruditos como cordas, madeiras e metais, banda de coreto, arranjos vocais, caixinha de música... Realmente vale tudo, tanto com relação a estilo quanto a instrumentos. Eu me desafio a cada trabalho a não repetir os universos de timbres e estilos por onde "já estive".

Qual trilha de sua carreira teve mais repercussão até hoje (mesmo que não seja para teatro infantil)? A que você atribui isso?

As que criei para os espetáculos sob direção de Gabriel Villela: Fausto Zero e Vestido de Noiva (pelas quais fui indicado para o Prêmio Shell), e as trilhas criadas para a Cia. de Dança Palácio das Artes: Coreografia de Cordel e Transtorna. O Gabriel (Villela) é um gênio, que leva todas as partes criativas de um espetáculo para além dos limites; sempre supero as minhas expectativas com relação à criação da música quando sou dirigido por ele. Já com a Cia. de Dança Palácio das Artes, o processo de criação é instigante, são 23 bailarinos criando simultaneamente, mais diretores e coreógrafos. E as trilhas resultam intrincadas com os espetáculos, causando um impacto positivo no público.

5. O cenógrafo: de olho na surpresa

Ao pensar num cenário para peça infantil, você pensa inicialmente no quê?

Em realidade, eu sou cenógrafo de um grupo só, a Pia Fraus. Como meu papel no grupo é o de conceber os espetáculos, as ideias chegam já se completando. O cenário está integrado a toda a ideia da encenação.

Há algo que considere como pecado mortal quando se fala em cenografia para teatro infantil, algo inadmissível e equivocado?

Acho que o tempo de cenários descritivos - reprodução da realidade - já passou. Prefiro os cenários sugestivos, que permitam surpresas.

Em Filhotes da Amazônia, seu cenário prima pela simplicidade e funcionalidade, surpreendendo a todos no final, com a transformação que se revela. Fale um pouco dessa sua criação.

Eu estava em Manaus, no projeto Palco Giratório, e contei o roteiro de Filhotes para o Vinícius, um dos atores, e ele comentou que estava faltando uma estória de tartaruga. Aí me veio a ideia de a tartaruga ser o centro da estória, o invólucro. No mesmo dia, fui visitar um centro cultural em forma de oca e fiz as associações com a tartaruga. Depois, foi só buscar as soluções de criar várias aberturas nessa oca/tartaruga, que dessem a sugestão de conter toda a natureza, como o rio, a floresta. E quando a tartaruga se materializa é prazeroso ver a surpresa nas pessoas, porque ela estava lá e as pessoas só notam no fim.

Você acha que, ainda hoje, as produções infantis têm de pensar em cenários fáceis de montar e desmontar, pensando no pragmatismo de liberar o palco para a peça adulta que virá a seguir?

Talvez eu seja uma voz dissonante, porém eu acho que as produções devem, sim, se adequar à essa realidade de monta/desmonta do cenário. O teatro é um prédio muito complexo e caro, ele deve ser utilizado ao máximo, abrigar várias produções. Eu não vejo como problema, vejo como situação que deve ser enfrentada com criatividade e competência técnica.

De que cenários recentes de teatro infantil você gostou?

Gostei do cenário do Serroni em O Colecionador de Crepúsculos, direção de Vladimir Capela, pela monumentalidade e solução de materiais, todos de custo baixo e grande impacto final.

QUEM É

BETO ANDREETTA

ATOR, DIRETOR E CENÓGRAFO

CV: Há 26 anos na Cia. Pia Fraus, Beto Andreetta, de 48 anos, ganhou o Prêmio APCA de melhor cenografia por Filhotes da Amazônia, entre muitos outros prêmios. Já atuou com os grupos XPTO, Parlapatões e Acrobático Fratelli e ajudou a criar o Circo Roda Brasil. Para adultos, fez recentemente Primeiras Rosas, baseado em contos de Guimarães Rosa.

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