Cinco séculos de Bahia, por Antonio Risério

Tratar da história de Salvador é passear pela história do Brasil. O antropólogo, poeta e ensaísta Antonio Risério queria escrever cinco volumes para dar conta dos acontecimentos da Cidade da Bahia ? um para cada século que atravessou nos mais de 450 anos passados desde a sua fundação ?, mas está bastante contente com um só. As 400 páginas de Uma História da Cidade da Bahia, fartamente ilustradas, não estão à venda. O livro, editado pelo governo da Bahia com patrocínio da Copene, está sendo distribuído pelo Estado e pela companhia petroquímica. O governo, de qualquer forma, não quis se comprometer com as idéias nele defendidas. Na página em que dá os créditos da edição, registrou: ?As opiniões emitidas neste livro não correspondem, necessariamente, ao pensamento do Governo do Estado da Bahia ou da sua Secretaria da Cultura e Turismo.?Talvez até por isso, Risério afirma não ter se sentido, em nenhum momento, constrangido ou pressionado a adotar qualquer visão histórica. ?Minha opção era fazer ou não fazer; procurei percorrer o caminho do possível, como defendia o padre Antônio Vieira.? Ele pretende publicar o texto do livro junto com outros ensaios ainda no final deste ano ou no começo do ano que vem, numa edição menos vistosa.Nessa trilha que seguiu, o autor teve de se adaptar tanto à escassez documental ? que dificulta, por exemplo, o entendimento da vida nos quilombos ? quanto aos segredos do poder. Durante a última eleição para governador, em 1998, interrompeu a produção do capítulo sobre o século 20 por achar que não adiantaria pedir ajuda nem aos amigos do PFL nem aos do PT, porque, envolvidos na disputa, não diriam a verdade. ?Não busquei ser original nem tratar de um tema só; quis organizar de um modo claro, para que as pessoas pudessem ter uma noção do processo de formação da cidade ao percorrê-lo?, afirma Risério.A limitação orçamentária a um volume também não incomodou o autor. Em vez de escrever um livro para cada século, destinou um grande capítulo a cada cem anos. Assim, o Brasil do século 16, a recém-descoberta terra dominada pelos tupinambás, está recontado em Da Aldeia ao Engenho. Risério, que começou o projeto pensando em estudar a vida de Caramuru, procura descrever a vida dos índios no período pré-descobrimento, com sua máquina guerreira, e registra a dificuldade imposta não apenas pelo fato de eles não possuírem à época uma língua escrita, mas também por não terem incorporado a européia. ?Além disso?, escreve Risério, ?seus filhos mestiços que conseguiram se alfabetizar não se dedicaram ao cultivo das criações culturais da parte ameríndia de seus antepassados. Resultado: não temos uma documentação indígena (nem mameluca) acerca de sua própria vida, ou sobre o encontro e as relações daquelas aldeias com os navegantes e conquistadores que vinham da Europa?. Sem negar história aos índios, ele observa que os europeus que aqui estiveram não estavam preocupados em recontar os processos históricos dos nativos, mas em retratar suas condutas e crenças. O século 17 é O Século Barroco, que dá origem a grandes nomes da cultura baiana e que viveu a ocupação holandesa ? numa época em que Portugal, e por conseqüência, também o Brasil, estavam subordinados ao reino espanhol (1580-1640). ?O século 17 foi, para a Cidade da Bahia e seu Recôncavo, um tempo de fortes contrastes. Tempo de fome, de peste, de riqueza. Tempo das invasões holandesas, da parenética do padre Antonio Vieira, dos cantos do poeta-músico Gregório de Mattos, do açúcar cristalizando em divisas. Saqueada, invadida, incendiada, a região se manteve?, escreve Risério na introdução ao capítulo. Se o século 17 foi o do açúcar, o 18 foi o do ouro, embora o principal produto de exportação do País continuasse a ser extraído da cana-de-açúcar. A Bahia, À Margem da Margem, perde importância econômica e, conseqüentemente, política: ?Assim como Portugal foi deslocado do centro das decisões européias, a Cidade da Bahia e seu Recôncavo vão conhecer, ao longo do século 18, um progressivo processo de marginalização, que será oficializado em 1763, com a transferência da capital colonial para o Rio de Janeiro.? Não apenas isso, o período foi marcado por uma irradiação e aprofundamento da rebeldia negra, ?como se os escravos estivessem ensaiando quase que sem descanso, em pontos vários da Bahia de Todos os Santos e de seu Recôncavo, a armação das grandes cenas rebelionárias que tomariam conta das primeiras décadas do século seguinte?.Assim, o quarto capítulo, dedicado ao século 19, chama-se Sangue, Suor e Cultura, relembrando eventos extremos como a Sabinada e a Revolta do Malês. ?Tempo de decadência da economia açucareira, da grande epidemia de cólera, da projeção de mulatos e bacharéis, da Guerra do Paraguai, da Abolição da Escravidão e da Proclamação da República. Época em que se configurou, de forma plena, o complexo antropológico a que chamamos ?cultura baiana??, escreve Risério.Economia e história ? ?Queria escrever um livro que um jovem estudante pudesse ler, sem ser simplificador, porque ser complexo não é o mesmo que ser complicado?, argumenta o autor. Desse modo, a Cidade da Bahia, cuja primeira referência de existência é uma carta assinada pelo jesuíta Manuel da Nóbrega, em 10 de agosto de 1549, ?deste porto e cidade do Salvador?, ganhou uma história calcada não apenas em fatos econômicos e políticos, como também culturais.Ilustram o livro, por exemplo, um manto tupinambá (aliás bem mais vistoso do que o trazido para a mostra do Redescobrimento), uma árvore genealógica que remonta a Diogo Alvares, o Caramuru, e à índia Catarina Paraguaçu, azulejaria portuguesa em igrejas da cidade, cartelas de cigarro, um cartaz de Terra em Transe (que, aliás, é também o título do quinto capítulo) e capas de discos tropicalistas de Caetano Veloso e Gilberto Gil.?Para onde meu interesse é atraído, vou?, explica Risério, sobre seus diferentes estudos, que já o levaram à história cultural da avant garde baiana, à antropologia e à arte. O mesmo vale para esse livro: para onde o autor é atraído, vai, e a sua história de Salvador passa da vida pública para a vida privada, da produção agrícola para a artística, e, se preciso for, recorre a ferramentas como a demografia e a música de Caymmi ? afinal, ?a Bahia tem um jeito/ que nenhuma terra tem?.

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