Cinco romances reunidos em uma só narrativa

2666 foi o último projeto do escritor chileno Roberto Bolaño antes de sua morte, ocorrida em 15 de julho de 2003, quando tinha apenas 50 anos. Bolaño sabia que ia morrer e conseguiu concluir seu romance, mas não chegou a vê-lo impresso. Ele saiu postumamente, em sua primeira edição em espanhol, em 2006.

GRÍNOR ROJO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

2666 é um romance ambicioso, é muito possível que seja o mais ambicioso que já se escreveu na América Latina. Bolaño impôs-se a construção deste edifício de mais de mil páginas quando sua reputação de escritor já se havia consolidado depois de publicar uma dezena de livros importantes e de haver conquistado prêmios respeitáveis (o Herralde, na Espanha, o Rómulo Gallegos, na Venezuela), fazendo alarde, a essas alturas, como teria dito Pablo Neruda, de seus "plenos poderes". Poder-se-ia especular que Bolaño escreveu 2666 para dar adeus a este mundo, deixando-nos um testamento magistral sobre o que foi, em seu juízo, o século 20 e estava começando a ser o 21.

Constituído por cinco histórias, que são muito diferentes entre si e que, por isso, poderiam dar origem a cinco romances distintos, em 2666 tocam-se em aspectos essenciais da realidade planetária dos últimos 50 ou mais anos, tais como a 2ª Guerra , a globalização da arte literária e de seu conhecimento ou as redes do narcotráfico. Por outro lado e de novo fazendo Bolaño alarde de seus dotes de narrador experiente, essas histórias são narradas em estruturas diversas e com estéticas também diversas, desde a Künstlerroman ao romance negro e a reportagem jornalística, e da comicidade paródico-satírica à tragédia descarnada e feroz.

Cinco romances, mas que são, que acabarão sendo, um único. Vista em seu conjunto e de uma certa distância, a organização do material narrativo de 2666 nos revela um desenho em círculos concêntricos, ou melhor, ao modo de uma espiral invertida, segundo o modelo de A Divina Comédia, o romancista afundando a mão um pouco mais em cada uma de suas voltas de parafuso: o espaço metropolitano europeu, América Latina, México e a cidade de Santa Teresa, que é uma ficcionalização por parte de Bolaño de Ciudad Juárez, o inferno urbano na fronteira do México com os EUA e onde até hoje assassinam mulheres. Mas há também aí um último círculo, que é onde a espiral se fecha. Bolaño situa esse círculo no centro geográfico de Santa Teresa. Refiro-me ao terreno baldio onde costumam aparecer os cadáveres das mulheres assassinadas, cadáveres despedaçados, com marcas de estupro e mutilações atrozes. Esse local se chama "Chile".

Bolaño confidenciou que no subterrâneo de 2666 havia um "centro oculto". Há quem pense que ele reside no título enigmático do romance. Mas creio que ele está no terreno baldio de Santa Teresa. Se Santa Teresa é o centro do romance, o terreno baldio chamado Chile é o centro desse centro.

Sabemos que sua família tirou Bolaño do Chile recém-entrado na adolescência, em 1968, e que ele, por conta própria, regressou cinco anos depois, na época de Allende, segundo contou a seus amigos para "fazer a revolução". Sabemos também que, por causa do golpe de Estado pinochetista, ele ficou preso em algum cárcere do sul do Chile, e que o soltaram depois de algumas semanas. Mas o jovem que regressou ao México depois de viver essa experiência já não era o mesmo que saíra dali alguns meses antes.

O rapaz confiante e otimista que abandonou o Distrito Federal para fazer a revolução, havia sido a essa altura substituído por um homem duro e descrente, com o sarcasmo à flor dos lábios e na ponta do lápis, mas também profundamente melancólico.

Em Caracas, em 2 de agosto de 1999, quando recebeu o prêmio Rómulo Gallegos, falou: "Tudo o que escrevi é uma carta de amor ou de despedida de minha própria geração, nós que nascemos na década de 50 e que escolhemos em um dado momento o exercício da milícia, neste caso seria mais correto dizer a militância, e entregamos o pouco que tínhamos, que era nossa juventude, a uma causa que acreditamos a mais generosa das causas do mundo e que, de certa forma, o era, mas que na realidade não era. Nem é preciso dizer que lutamos com grande empenho, que tivemos chefes corruptos, líderes covardes, um aparelho de propaganda que era pior que um leprosário, lutamos por partidos que se houvessem vencido nos teriam enviado de imediato a um campo de trabalhos forçados, lutamos e pusemos toda nossa generosidade num ideal que havia mais de 50 anos estava morto, e alguns o sabíamos, e como não iríamos saber se havíamos lido Trotski ou éramos trotskistas, mas mesmo assim o fizemos, porque fomos estúpidos e generosos, como são os jovens, que entregam tudo e não pedem nada em troca, e agora desses jovens já não resta nada, os que morreram na Bolívia, morreram na Argentina ou no Peru, e os que sobreviveram foram morrer no Chile ou no México, e aos que não mataram ali serão mortos depois na Nicarágua, na Colômbia, em El Salvador. Toda América Latina está semeada com os ossos desses jovens esquecidos."

Foi no Chile, não no atual mas no que se instalou com o golpe de Estado de Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973, e depois de haver passado sua temporada pessoal nesse inferno, suspeito de ser um "terrorista mexicano", que as coisas mudaram para o escritor Roberto Bolaño. Esse Chile ditatorial e genocida foi seu turning point. E Chile é como se chama, precisamente, o terreno baldio onde desembocam todos os horrores de 2666. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

GRÍNOR ROJO, ENSAÍSTA, FOI PROFESSOR DE INSTITUIÇÕES COMO AS UNIVERSIDADES DA CALIFÓRNIA E SALAMANCA. DIRIGE O PROGRAMA DE GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LATINO-AMERICANOS DA UNIVERSIDADE DE SANTIAGO

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