Cildo Meireles abre no Rio sua antologia

Cildo Meireles inaugura amanhã no Rio de Janeiro sua maior e mais completa exposição. Ocupando o Museu de Arte Moderna, lugar que foi berço dos artistas de sua geração, Cildo faz um recorte amplo em sua trajetória. Ele define esta mostra com uma antologia, que vai de 1965 a 1999. Nova York e São Paulo já viram o mesmo material, mas é no Rio que a exposição poderá ser contemplada por inteiro. Desvio para o Vermelho será mostrada em sua versão integral. Ku Kka Ka Kkaestá no Brasil pela primeira vez. Glove Trotter e Para Pedro, que Cildo fez para seus dois filhos, só agora estão reunidas num mesmo espaço. Cildo Meireles ficará no MAM do Rio um tempo proporcional ao tamanho da exposição, que só termina no dia 3 de dezembro. Como quase todos os artistas brasileiros de sua época, Cildo Meireles associou a arte a muito mais que o prazer estético. Ele, Carlos Vergara, Antonio Manuel, Carlos Zílio e vários outros, nasceram para a atividade artística em meio à confusão política que tomava conta do mundo no fim dos anos 60. Recebiam a herança estética da chamada arte construtiva, polarizada no eixo São Paulo-Rio pelo Concretismo e Neo-concretismo, respectivamente. Cildo morava no Rio, e assim foi influenciado por Lygia Clark, Helio Oiticica e Lygia Pape, que, ele faz questão de ressaltar, "já tinham uma obra consolidada quando eu estava apenas começando". Neste contexto, Cildo Meireles faz sua opção pela arte questionadora, o que não diferia em nada da direção tomada por seus colegas de geração. É assim que sua trajetória de artista inclui feitos socialmente relevantes. Inserções nos Circuitos Ideológicos é exemplo de suas preocupações, assim como de sua linguagem. Cildo inscrevia mensagens em garrafas de Coca-Cola que só podiam ser vistas com a garrafa cheia. Também imprimia notas de Cruzeiro e Dólar com o valor de zero estampado. Tanto as garrafas como as notas circulavam pelo mundo levando palavras de ordem como Yankees Go Home, ou Uncle Sam Wants You. "A idéia é usar o grande para dar voz ao pequeno", diz Cildo, "mas acho que quando se expõe um trabalho assim ele só funciona de exemplo para outros fazerem a mesma coisa". O sentido de liberdade absoluta que Cildo Meireles vê na arte explica porque ele evoluiu para o conceito de instalação, hoje regular e normal. Nos anos 70, entretanto, Cildo foi dos primeiros a conceber um processo artístico desobrigado com o suporte. Quando perguntado se seu trabalho necessita de explicação, não diz nem que sim, nem que não, consciente de que ambas as respostas acusariam seu trabalho de fechado e complicado. "Escolhi fazer artes plásticas por que não queria explicar nada para ninguém", diz ele. "No princípio era o verbo, e se no fim for o verbo também eu fico mal", sentencia. Mas Cildo faz uma ressalva quando o assunto é o entendimento do público: "até hoje tem sido positivo, até nas obras mais interativas", garantindo que suas instalações nunca têm condições ideais de exposição. "Não posso controlar, mas o ideal seria que não entrasse mais de uma pessoa por peça".Antologia - Ao todo estão expostos 24 anos de produção artística. Entre 1965 e 99, Cildo diz não ter passado um dia sem pelo menos ter pensado sobre o seu trabalho. "Não sei se isso é bom", reflete, deixando claro que o público estará diante da versão mais completa de seu trabalho até hoje exposta. Realmente, Ku Kka Ka Kka foi terminada no ano passado, a tempo para uma grande mostra sua no New Museum of Contemporary Art de Nova York, que lhe rendeu a capa e oito páginas da revista Art in America em julho deste ano. Ku Kka Ka Kka é feita de dois compartimentos similares a estufas de plantas. Num deles, flores artificiais, fezes naturais e fragrância de rosas pelo ar. No segundo, flores naturais, fezes artificiais e mau cheiro, num agressivo combinado de essências e aparências. Polêmica, Ku Kka Ka Kka pode gerar preconceitos, mas foi encomendada a Cildo pelo Kiasma Museum of Contemporary Art de Helsinque. Cildo sai em defesa de sua liberdade. "Houve um tempo em que a arte era confundida com a religião e a distância da história nos fez ver o que era arte e o que era religião", explica, "e também já se confundiu a arte com a arquitetura, como na Grécia antiga". Ele traça o raciocínio para dizer que é arriscado fazer juízos de valor sobre a arte contemporânea: "hoje, confunde-se a arte com a percepção visual, e no futuro veremos o que é arte e o que é percepção visual". Outra peça de importância trazida ao MAM do Rio é Volátil, um ambiente escuro em que o público anda descalço sobre talco. A única luz é uma vela acesa e um cheiro de gás domina o espaço, deixando uma sensação de risco em quem passa. Fontes traz seis mil réguas de carpinteiro presas ao teto de um apertado compartimento, em cujas paredes mil relógios estão pendurados. No chão, dezenas de milhares de números de plástico querem parecer caídos dos relógios e das réguas: jogo de artifício com o espaço e o tempo. Cinza traz dois ambientes vazios, um com paredes pretas pintadas com giz branco, o outro com paredes brancas pintadas com carvão. É sua maneira de aludir ao desaparecimento da imagem na arte contemporânea. E Desvio para o Vermelho, que é sua maior celebridade. Três ambientes consecutivos estudam o vermelho. Nos três, um som de água corrente toma conta. Na primeira parte, Impregnação, uma sala de estar é recomposta com objetos vermelhos, desde a poltrona até um peixe vermelho num aquário. Na segunda, uma garrafa que parece transbordar com um líquido vermelho nos introduz à terceira sala, que mostra somente uma pia, de onde flui um filete de líquido vermelho real, continuamente. O sangue, certamente o sangue político dos anos 70 no Brasil, é o líquido vermelho que faz parte até do cotidiano de uma sala de estar.Materiais - "Gosto de materiais que são matéria-prima e símbolo", diz Cildo. Essa soma de referências muito familiar em seu trabalho. "Sou um anti-barroco, acho que a arte tem que ser sintética", comenta, para depois dar tons políticos ao seu discurso: "se eu um dia pretender dizer tudo com a obra, vou estar fazendo uma arte autoritária, que não deixa espaço para a leitura do espectador". Cildo acha que essa é a razão pela qual a maior parte do público ainda vê nas obras de arte algo de sagrado, com as quais não possa interagir. "As pessoas se comportam de modo infantil, querendo receber ordens da arte para obedecer", diz, incitando os espectadores à transgressão. Aproximar a arte da política não é, para Cildo Meireles, obrigatório. Seus diálogos com questões políticas aconteceram, ele reconhece, em função de um clima político instável em que um regime de opressão atingia inclusive os artistas. Cildo percebe, por outro lado, uma relação da estética com a ética, daí ainda haver contato da arte com a sociedade. "Numa sociedade perfeita, a arte seria desnecessária, pois ninguém seria capaz de produzir o feio no cotidiano, mas estamos longe disso", lamenta. "Não me sinto envolvido pela alta tecnologia", Cildo responde se é questionado sobre inovações técnicas no seu trabalho. De modo geral, não é o que se espera de um artista contemporâneo, sempre aberto a novas visões e livre para criar. Mas Cildo Meireles parece estar mais preocupado com o sentido que sua obra pode alcançar, este sim muito atual. Independente dos suportes que utilize, ele não parece constrangido em pedir que seus espectadores tirem os sapatos, entrem em lugares escuros, ponham pedras de gelo na boca, entre outras experências sensoriais que ele quer propor a quem visita sua exposição. "A arte contemporânea faz parte da história da arte", define. "Eu a vejo perfeitamente inserida na seqüência de movimentos artísticos que nos precede", reclama Cildo. No que depender dele, a arte continuará produzindo sentidos que nós, numa primeira vista, talvez não entendamos. Cildo Meireles - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Av. Infante D. Henrique 85, Parque do Flamengo. Tel: 210-2188 De terça a sexta, das 12h às 18h. Sábados e domingos das 12h às 19h. Ingressos: R$ 8,00.

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