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Fábio Porchat
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Cigarro

Sônia era fumante. Fumante inveterada. Três maços por dia era o exigido pelo corpo. Menos que isso e lá vinham as dores de cabeça, o mau humor e a impaciência. Dizia a todos que amava os filhos e o marido, mas que o cigarro era sua razão de viver. A família não apoiava, aliás, recriminava, e muito. Mas de nada adiantavam as reclamações. Os três a conheceram fumante e, no fim, era melhor ela feliz com do que irritada sem. Porque Sônia irritada era do tipo que magoava o próximo. Uns diziam que ela só entraria no céu com um cigarro aceso na mão, senão ia sobrar até pra Deus.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h14

Certo dia, saindo do trabalho, ia caminhando pela calçada até o ponto de ônibus quando, de repente, um gol preto, cuspindo três pessoas encapuzadas, para em sua frente. Os três gritam: "Sequestro, sequestro".

Desesperada, obedeceu as ordens e entrou no carro. Tentou falar alguma coisa, mas foi interrompida pelos gritos de "cala a boca" dos sequestradores. Encapuzada, depois de algum tempo com o carro em movimento, engoliu o choro e pensou: "Meu Deus do céu, preciso de um cigarro. Não de um celular, não da policia, não da porra do Batman, mas de um cigarro." E, pior ainda, quanto tempo duraria essa confusão toda? Não, mesmo que durasse meses, sequestrador que é sequestrador fuma. No cinema, todo mundo que é mau fuma. Ficou mais tranquila. Na certa, chegando no cativeiro, dariam a ela comida, que facilmente poderia ser trocada por cigarro, como naqueles filmes americanos de cadeia.

Começou a imaginar todo o mercado negro de cigarros que iniciaria com os sequestradores. Por alguns momentos chegou a pensar até na venda do corpo, mas esse pensamento logo sumiu. Muito cedo para se pensar nessa possibilidade. Pensou, então, na família. No primeiro contato, avisaria que estava bem e que pagassem logo o resgate. Mas foi nesse momento que a ficha caiu e alguns pensamentos ruins tomaram conta de sua mente. E se eles a torturassem? Imaginou um poço, e ela lá embaixo, implorando por um cigarro, até que uma alma caridosa lhe atirasse um cigarro... Mas apagado. "Socorro, me tirem daqui!" Podia ouvir até o barulhinho das pedras batendo e ela, de cócoras, tentando fazer fogo sobre o cigarro.

O carro parou. Sônia ia dar um grito de desespero quando ouviu a voz do marido.

- Sônia, isso vai ser rápido. Só alguns dias.

- Jonas? - Falou, titubeante.

O capuz foi retirado. Conseguiu, então, ver os filhos e o marido fantasiados de sequestradores, já sem os capuzes. A luz do sol machucou seus olhos, mas não o suficiente para impedi-la de ver o que dizia a placa em frente a uma casa simples, com aparência de casa no campo:

"CASA DE RECUPERAÇÃO PARA FUMANTES"

- Nãããããããããããããooooooo!!!!!!

Preferia ter sido sequestrada.

***

Está em cartaz, nos cinemas, o meu filme Meu Passado me Condena, uma comédia romântica muito divertida! Estão todos convidados. * E-MAIL: fabio.porchat@estadao.com

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