Ciência das cinzas

É curioso como a maioria das pessoas se comporta anticientificamente, por assim dizer, no dia a dia. Mesmo em assuntos como o aquecimento global, que de fato ocorre, segundo a medição de um painel que reuniu centenas de cientistas, um banzo espiritualista - ou aquilo que Freud chamou de "sentimento oceânico" - é recorrente. Sua característica é fazer associações emocionais entre fatos semelhantes na aparência, mas não necessariamente ligados de forma comprovada ou comprovável. É por isso que diante de uma série de eventos cataclísmicos, como terremotos e a erupção do vulcão islandês, que lançou uma grande, bela e terrível nuvem de cinzas por sobre a Europa, muita gente reage na base do "a natureza está em revolta". Ou, a cada enchente metropolitana ou seca rural, "o tempo está louco".

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

É o pecado do conhecimento, alegorizado no mito grego de Pandora ou na parábola cristã do Paraíso: a humanidade há de pagar por interferir tanto na natureza, por se meter a decifrá-la e dominá-la. Nem mesmo a modernidade se livrou dessa culpa, como se vê nos movimentos romântico e expressionista, no pensamento de Nietzsche ou Heidegger, nos filmes de Hollywood, Disney ou James Bond que sempre fazem do vilão um pervertido pela tecnologia, nas crônicas nostálgicas da literatura brasileira, etc. Eis o que está por trás da exaltação da "sabedoria dos povos da floresta", tão comum nesta Era Digital. Por certo, a experiência deles com plantas medicinais, por exemplo, não pode ser menosprezada. Mas pergunto: se são tão sábios, por que não inventaram o soro antiofídico?

Comentei no blog outro dia que o experimento do LHC, o acelerador de partículas na fronteira franco-suíça, do qual se esperam informações sobre o que seria a chamada matéria escura do universo, mal foi comentado por sua engenhosidade e beleza; causou antes medo ou arrogância. A natureza é tão intrincada e capciosa, tão complexa, que não precisa de crenças em forças "mágicas" para ter validade, para inspirar e ensinar. O mesmo vale para programas de TV como esse Vida, do Discovery (ou Nosso Planeta, Nossa Casa, que vi no GNT, mais pelas imagens aéreas do que pela abordagem "tudo está ligado", como se nenhuma espécie pudesse ser extinta), e livros recentes como os de Marcelo Gleiser e Fernando Reinach. Já há ali entusiasmo suficiente para não se enfadar da existência.

Conservadores, no momento preocupados em ressalvar o papa dos escândalos de pedofilia ou lotando as salas de cinema para ver a história de Chico Xavier, costumam dizer que sem religião o homem perde grandeza, se amesquinha em valores utilitários. São os mesmos que não toleram que a Teoria da Evolução de Darwin implique conclusões diferentes sobre o funcionamento e a história da natureza, porque acham que elas ofendem a humanidade, quando em realidade a põem na trama natural como nenhum dogma consegue. E tampouco entendem que o agnóstico (aquele que não crê em nada sobrenatural, nem milagres nem forças ocultas) ou o ateu (que não crê em Deus, o que não precisa significar que tenha certeza de que Ele não existe) possam querer e fazer o bem. Com as guerras tecnológicas do século 20, a demonização do sujeito "materialista" - a qual não via que nazismo e comunismo tinham fortes componentes religiosos na fixidez dos valores e na pretensão salvacionista - se reinstalou na cultura moderna.

Pode-se dizer que ler o horóscopo, por exemplo, seja inofensivo; pode-se lembrar que a maioria das pessoas acredita em religiões e nem por isso deixa de usar pílula ou camisinha para se prevenir; pode-se pensar em argumentos como os de um Jonathan Swift, Edmund Burke ou T.S. Eliot, para citar três gênios do conservadorismo, sobre o peso depositado no indivíduo, como se ele fosse tão racional assim. Mas o que não se pode é ignorar que a boa ciência é investigativa, não doutrinária, e que dela se podem extrair focos de luz insubstituíveis, como brasas nas cinzas.

DE LA MUSIQUE.

Se meu iPod tivesse apenas 50 canções, quais seriam? Ensaiei uma lista básica, para convidar os mais jovens:

Love for Sale, de Cole Porter (com Billie Holiday)

Night and Day, de Cole Porter (com Frank Sinatra)

Cheek to Cheek, de Irving Berlin (com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong)

He Loves and She Loves, de Gershwin (com Fred Astaire)

Summertime, de Gershwin (com Janis Joplin)

My Funny Valentine, de Rodgers & Hart (com Chet Baker)

Mack the Knife, de Weill e Brecht (com Lotte Lenya)

La Vie en Rose, de Edith Piaf

O Bem do Mar, de Dorival Caymmi

Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa

Feitiço da Vila, de Noel Rosa

Carinhoso, de Pixinguinha (com Orlando Silva)

Luz Negra, de Nelson Cavaquinho

Luar do Sertão, de Luis Gonzaga

As Rosas Não Falam, de Cartola

Mano a Mano, de Carlos Gardel

Always on My Mind (com Elvis Presley)

Stand By Me, de Ben E. King (com John Lennon)

Georgia, de Ray Charles

Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria (com João Gilberto)

Águas de Março, de Tom Jobim (com Tom e Elis)

Retrato em Branco e Preto, de Tom e Chico Buarque (com João)

Joana Francesa, de Chico Buarque

Beatriz, de Chico e Edu Lobo (com Milton Nascimento)

Sinal Fechado, de Paulinho da Viola

Nas Curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos

Coração Vagabundo, de Caetano Veloso

Mas Que Nada, de Jorge Ben

Você, de Tim Maia

Veinte Años, de Maria Teresa Vera (com Omara Portuondo)

Maria, de Stephen Sondheim e Leonard Bernstein

A Day in the Life, dos Beatles

Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones

Like a Rolling Stone, de Bob Dylan

Heart of Gold, de Neil Young

Space Oddity, de David Bowie

Take a Walk on the Wild Side, de Lou Reed

Let"s Get It On, de Marvin Gaye

How Can I Mend a Broken Heart, de Al Green

Bille Jean, Michael Jackson

I Wish you Were Here, do Pink Floyd

Bohemian Rhapsody, do Queen

Stairway to Heaven, do Led Zeppelin

Psycho Killer, dos Talking Heads

Hallelujah, Leonard Cohen

Alice, de Tom Waits

This House is Empty Now, de Burt Bacharach e Elvis Costello

Creep, do Radiohead

Crazy, de Gnarls Barkley

You Know I"m No Good, de Amy Winehouse

Aforismo sem juízo

Passam a infância imitando o que os adultos fazem. Adultos, não veem a hora de se livrar do que têm a fazer.

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