Cidades vistas do alto, como maquetes

Projeto do italiano Olivo Barbieri nasceu do medo de voar provocado pelo 11 de Setembro

Simonetta Persichetti, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 00h00

Olivo Barbieri queria ser cineasta. Estudou pedagogia e comunicação e acabou se tornando fotógrafo. Na década de 1970 se interessava mais pela fotografia antropológica, mas depois passou a explorar arquitetura, meio ambiente e a relação do homem com a cidade, experimentando sempre diversas técnicas fotográficas. Em 1978 começou a expor no mundo todo, participou três vezes da Bienal de Veneza e é considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea italiana. Depois dos ataques do 11 de Setembro, iniciou a série Site Specific, em que fotografou do alto várias cidades do mundo usando uma lente de foco seletivo (tilt-shift), que faz com que as cidades pareçam cenários de brinquedo. Barbieri também vem a Paraty em Foco. De Milão, onde vive, falou ao Estado por telefone.

O que apresentará em Paraty?

A minha série Site Specific, realizada em várias partes do mundo. Iniciei o projeto em 2003 e continuo até hoje. São vistas aéreas de cidades realizadas com lente de foco seletivo que faz as cidades parecerem maquetes.

Essa série começou após o 11 de Setembro. Por quê?

Após os atentados, parece que os aviões ou "objetos voadores" passaram a ser vistos como uma ameaça. Tentei entender o que estava acontecendo e procurei registrar o mundo do alto a partir do ponto de vista do próprio objeto voador...

O efeito do tilt-shift, usado até pela publicidade, não traz ao risco de banalizar o trabalho, de tornar o truque tecnológico mais importante que o conceito?

É verdade. Corre-se este risco onde o efeito se torna mais importante. Mas isso vale também para a pintura. Você tem razão, e agora, embora continue fotografando do alto, estou mudando minha estética e a forma de fazer esse registro.

Você queira ser cineasta, mas em várias entrevista afirmou que prefere a solidão do trabalho de um fotógrafo. Por que é importante trabalhar sozinho?

Para mim é uma forma de liberdade, assim como a escrita. Para ser escritor, em tese, basta uma caneta e um pedaço de papel. A fotografia oferece as mesmas possibilidades, você sai por aí e vai escolhendo o que e como fotografar. No início, estava interessado em cinema e ainda gosto. Me assustava, porém, a ideia de ter de interagir com várias pessoas. Além disso, os tempos do cinema são muito longos, a fotografia é mais imediata.

Mas seu trabalho requer uma equipe e suas imagens lembram cenários construídos, assim como no cinema...

Isso é bem verdade, a produção é muito próxima do cinema e, neste projeto, também filmei muita coisa. As duas linguagens continuam juntas. Ainda mais nos dias de hoje, com as câmeras fotográficas que filmam com alta qualidade.

Como vê a fotografia contemporânea, inserida em galerias e no mercado de arte internacional, muitas vezes negando ser fotografia e tentando ser pintura?

Hoje a fotografia virou "moda". Todos se interessam pela fotografia, museus, galerias. Obviamente, acabam por entrar em circulação projetos ou produtos nem sempre interessantes. A tecnologia favoreceu esse interesse e a produção de coisas não tão boas. Parece que não existe mais um controle de qualidade. Podemos até dizer que este é um processo mais democrático e com menos pessoas a dizerem o que devemos ou não ver. Mas quando falamos de arte, é claro que tivemos uma decadência. Até porque a fotografia é pouco ensinada nas escolas e nas faculdades, portanto falta essa cultura.

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