Cidades visíveis de Teju Cole

Escritor nigeriano fala na Flip do romance Cidade Aberta, ambientado em Nova York, e de projeto de livro sobre Lagos, na Nigéria

ANTONIO GONÇALVES FILHO , ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h10

A nova sensação da literatura norte-americana, o nigeriano Teju Cole, revelado para o Brasil há alguns meses pelo Sabático, diz que só foi ler os livros de Roberto Bolaño após o lançamento de Cidade Aberta, mas que sentiu imediata identificação com o escritor chileno. Maior até mesmo que sua reverência a W.G. Sebald, que os críticos apontam como referência máxima do surpreendente e erudito primeiro título de Cole lançado no continente americano. O alemão Sebald, revela Cole, foi mais importante durante a escritura de Everyday Is for the Thief (2007), seu verdadeiro romance de estreia, lançado apenas na Nigéria. À maneira do autor de Austerlitz, Cole, nesse livro, ilustrava com fotos a trajetória de um escritor que volta a Lagos para rever a família e os amigos apenas para atestar que não reconhece mais ninguém. Tampouco a capital, que mudou um bocado.

Cidade Aberta não se passa na Nigéria. Nele, o autor acompanha as andanças de um jovem psiquiatra afro-americano, filho de mãe alemã e pai nigeriano, pelas ruas de Nova York. Na cidade, Julius topa com desconhecidos e velhos amigos nigerianos que esqueceu (ou teria preferido esquecer). Como Cidade Aberta trata de um jogo mimético em que o protagonista se funde com a paisagem que contempla, é recomendável ler o romance com uma bula ao lado: nesse ambiente especular dominado pela semiótica, as referências são tantas que o leitor certamente vai perder algumas.

A pintura de Luc Tuymans é uma delas. Como nas cenas banais do cotidiano, encobertas por uma espessa camada de tinta branca nas telas do belga, as pinceladas de Cole são efetivamente pictóricas, pois as palavras estão invariavelmente a serviço de uma imagem seminal que inspira o autor a escrever. "Por exemplo, guarda-chuvas caindo do céu no Central Park", cita, para logo em seguida se definir, nesta entrevista exclusiva ao Caderno 2, como uma espécie de flâneur, um pouco à maneira de Baudelaire, num mundo em que a paisagem muda tão rapidamente que reprime qualquer inclinação para o realismo. Ser fiel a imagens num planeta que elegeu a realidade virtual seria, afinal, um tanto anacrônico.

No entanto, o que Cidade Aberta tenta fazer é justamente conciliar experiência objetiva e o mundo subjetivo de um "wanderer". Cole, também historiador de arte e fotógrafo de rua, anda, de fato, numa "cidade aberta", pois o invasor, o imigrante, já marcha sobre ela, dominando o ambiente e provocando uma mudança na percepção das relações espaciais.

O olhar estrangeiro, que poderia ser revelador de uma realidade ignorada pelo nativo, pode, contudo, ser enganador. Até mesmo o refinado Julius, que gosta de Mahler, acaba escondendo certa vulgaridade impensável.

"A questão do duplo sempre me interessou e, claro, antes de mim outros autores e até cineastas, como Bergman, já exploraram esse filão", lembra. Animado, cito certa semelhança entre Julius e o doppelgänger de um conto de Poe, William Wilson, a história de um homem morto por seu duplo. Cole diz que não leu e seguimos adiante nessa conversa sobre mortos e sombras caminhantes. O "Ground Zero", marco histórico antes ocupado pelas torres gêmeas, derrubadas por um ato terrorista, é um mausoléu sobre ruínas, tanto quanto a área percorrida por Julius (entre a Duane Strreett e o City Hall Park, onde antigamente havia um cemitério de escravos). Pode-se pensar no terceiro ato de Macbeth, sobre o ator que se entrega no palco para concluir que a vida não é mais que uma sombra que caminha em direção ao nada. Ou em Joseph Conrad. Cole prefere associar seu trabalho literário ao do polonês.

Esse vínculo materialista aproxima Cole de Shakespeare, mas principalmente de Beckett e James Joyce. Julius não vai encontrar a iluminação errando pelas ruas de Nova York, mas talvez encontre o conforto das sombras que se projetam sobre a cidade. Em Paraty, Cole fotografou a sombra de um homem num cavalo, formando uma espécie de um centauro mitológico. Barthes, um dos ídolos do escritor, escreveria centenas de páginas sobre esse resgate da natureza original de um semideus movido pela razão do homem e pelo instinto animal. Já Cole prefere as narrativas breves, que cabem numa mensagem do Twitter.

Nessa rede social ele criou um projeto chamado Small Fates. Seria o equivalente contemporâneo do "faits divers" criado em 1906 pelo francês Felix Feneon, notícias breves não assinadas que ele inseria no jornal Le Matin e que acabaram inspirando outros escritores além de Cole: o francês Pierre Michon, o autor de Vidas Minúsculas, por exemplo. Cole não conhece Michon, mas a meta é a mesma, ou seja, criar pequenas histórias extraordinárias com base em fatos ordinários. "No começo, essas pequenas histórias se baseavam em notícias absurdas impressas nos jornais nigerianos", conta Cole. Como, por exemplo, a de um policial que atirou para o alto para assustar um pichador que, vítima da gravidade, caiu ao chão e morreu. Parece Bolaño? "Sem dúvida, ele tinha uma sensibilidade muito próxima da minha quando se tratava dessas coisas." E um talento tão explosivo quanto o de Cole, que já prepara o terceiro livro. Desta vez, uma obra não ficcional sobre Lagos.

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