Cidades por escrito

Ótima ideia do Instituto Moreira Salles: um ciclo de palestras sobre sete cidades, tal como foram vivenciadas e apropriadas literariamente por seis escritores e um poeta: a Paris de Gustave Flaubert, o Rio de Janeiro de Machado de Assis, a Praga de Franz Kafka, a Lisboa de Fernando Pessoa, a Buenos Aires de Jorge Luis Borges, a Sevilha de João Cabral de Melo Neto, a Brasília de Clarice Lispector. Sempre às quintas-feiras, no IMS carioca, com palestrantes de alto nível, Cidades por Escrito poderia durar bem mais do que um mês e meio, encadeando, por todo um semestre, outras urbes e outros autores.

Sérgio Augusto s.augusto@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

A Londres de Charles Dickens, por exemplo. E também a Florença de Dante, a Los Angeles de Raymond Chandler, a Berlim de Alfred Döblin, a Chicago de Saul Bellow, a São Paulo de Mário de Andrade. Escolhas mais ou menos óbvias, reconheço, como óbvio seria escalar Jorge Amado para Salvador ou James Joyce para Dublin, dobradinhas que já deram o que tinham que dar, sobretudo a segunda, todo ano celebrada no Bloomsday, 16 de junho.

Porque abundantemente exploradas por escrito, certas metrópoles desafiam o savoir choisir de qualquer um. Através de que autor imergir na alma e no passado de São Francisco? Jack London? Dashiell Hammett? William Saroyan? Jack Kerouac? Pelo olhar de qual russo (Gogol? Dostoievski? Pushkin? Turgenev?) faríamos o melhor tour espiritual de São Petersburgo?

Nesse particular, Paris excede. Sozinha sustentaria todo um ciclo de conferências, aquém e além do Flaubert de A Educação Sentimental, com o que em seus salões, cafés, bulevares e até esgotos ambientaram Victor Hugo, Zola, Balzac, Baudelaire, Henry Miller, Hemingway e tantos outros nativos e forasteiros. Nem sequer Nova York, suspeito, lhe faz sombra, ainda que a Manhattan acrescentem o Brooklyn, ineludível feudo de Paul Auster.

Ao que outrora chamavam de Circuito Helena Rubinstein poderíamos adicionar lugares especialmente atraentes, como Barcelona (recomendo a de Enrique Vila-Matas), Marrakesh (fecho com Elias Canetti), Cracóvia (voto em Adam Zagajewski?), e a Córsega (sim, é uma ilha, mas Manhattan também é), aqui incluída com o único objetivo de promover a singular prosa de G.W. Sebald e sua "poética da extinção".

Já fiz, por conta própria, como turista e jornalista, a Paris da Geração Perdida, a Praga de Kafka, a Londres de Eliot e Bloomsbury. Em Lisboa deixei-me guiar, boa parte do tempo, pela obra mais lisboeta de Eça de Queirós, Os Maias. Facilitado pelo rigoroso apego de Portugal às suas tradições, juntei as Lisboas de Eça e Fernando Pessoa.

Embora Pessoa só tivesse 12 anos de idade quando Eça morreu, em 1900, desfrutaram ambos praticamente a mesma cidade e os mesmos sítios, como lá se diz. Frequentaram a Casa Havanesa, no Chiado, e o restaurante Martinho da Arcada, ao lado do Terreiro do Paço, dois legendários estabelecimentos ainda de pé, como alguns outros dedicados à alimentação da carne e do espírito.

Se, no mesmo ponto, também permanecem o restaurante Tavares, o mais antigo da cidade, e o café Nicola, um dos favoritos de Pessoa, a pastelaria Ferrari, onde se comia o melhor bolo inglês de Portugal, fechou as portas na década passada. Era umas das atrações do Chiado, antes do incêndio que há 22 anos destruiu um trecho do bairro, obrigando a pastelaria a mudar-se da Rua Nova do Almada para as escadinhas de São Francisco. As livrarias Bertrand e Férin continuam na ativa. Se meio quarteirão mais próxima da Ferrari, a Férin também teria sido consumida pelas labaredas.

Era à porta da Havanesa que Fradique Mendes, o satânico poeta inventado por Eça e Ramalho Ortigão, costumava marcar encontros, o Artur de A Capital comprava camélias, e, ao lado do balcão, os personagens de O Crime do Padre Amaro iam ler os telegramas da agência de notícias Havas sobre o levante da Comuna de Paris.

Iniciei minha peregrinação pela Lisboa por escrito na Rua da Fé, onde ficava o casebre do Xavier de A Relíquia e também berço do Conselheiro Acácio, o pitoresco personagem de O Primo Basílio. Para chegar à romântica praça da Alegria (ponto de encontro de Basílio com Luísa e residência do Damião de A Capital), fiz o percurso mais longo e gratificante: subindo até a Praça São Pedro de Alcântara, uma das vistas mais bonitas da cidade, descendo pela Rua Mãe d"Água, como Eça e Pessoa gostavam de fazer.

Partindo do Cais do Sodré, rumo à Praça Duque de Terceira, passei pelo outrora Hotel Central, em cujo peristilo Carlos da Maia viu Maria Eduarda pela primeira vez. Carlos descia até lá pela Rua do Alecrim, mencionada em pelo menos quatro romances de Eça. Paralela à Alecrim sobe a Rua das Flores, palco da famosa tragédia queirosiana. Quase ao lado, uma das vias mais encantadoras da cidade, Vitor Cordón, onde moravam o Jacó Cohen de Os Maias e o Conselheiro Acácio.

No cume do trajeto, próxima ao retorno do elétrico, a Faculdade Livre de Lisboa, há tempos ocupando o espaço em que se erguia o Hotel Bragança. Foi nele, numa luminosa manhã de janeiro, que Carlos e João da Ega se reencontraram para o mais confraternizante almoço de suas vidas, e dali saíram para visitar o Ramalhete, o sombrio casarão de "paredes severas" dos Maias. Na tentativa de localizá-lo, perdi-me no bairro das Janelas Verdes. Era mesmo fatídico o casarão.

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