Cidades pedem soluções simples, sugere mostra

8ª Bienal Internacional de Arquitetura começa no sábado, no Ibirapuera, com o tema Ecos Urbanos

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo,

30 de outubro de 2009 | 16h07

 

SÃO PAULO - A sustentabilidade é o tema principal da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura (BIA) de São Paulo, que será inaugurada neste sábado, 31, no Ibirapuera. Evento que reúne 106 projetos e obras de arquitetos do Brasil, Holanda, Alemanha, Itália, EUA, França e Hong Kong e 50 de estudantes brasileiros, a 8ª BIA foi realizada graças a esforço do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) de São Paulo, que se valeu de patrocínios - sem uso de leis de incentivo - e de apoios dos governos estadual e municipal e da Fundação Bienal de São Paulo, que cedeu seu prédio no Parque do Ibirapuera. O orçamento da edição, segundo a arquiteta Liane Makowski Almeida, do conselho superior do IAB-SP e integrante da curadoria executiva geral da mostra, é de R$ 2 milhões. "É uma situação brasileira, de terceiro mundo, não fazer as coisas com tranquilidade", diz.

 

Veja também: 

linkProjetos verdes na Bienal de Arquitetura

linkPor dentro da cabeça dos arquitetos paulistanos

link Aflalo & Gasperini - Os senhores dos grandes prédios

link Botti e Rubin - Um casamento de meio século

link Isay Weinfeld - O bicho curioso da arquitetura

link Roberto Loeb - Causas que vão além da prancheta

link Paulo Mendes da Rocha - Premiadíssimo, consagrado - e quase inacessível

linkDo Masp ao Minhocão: São Paulo

especial O melhor e o pior da arquitetura em São Paulo

 Confira vídeos com os arquitetos selecionados e mapa com as obras

blog Blog da Garoa: Histórias sobre São Paulo 

 

O tema da mostra, Ecos Urbanos, no sentido de "encontrar novos caminhos com qualidade de vida e ecologia", "buscar soluções simples", foi definido pelo curador geral Bruno Roberto Padovano no início de 2008, mas foi preciso um esforço intenso para concretizar a exposição. "Não é uma Bienal cara, o próprio governo do Estado poderia pagar por ela inteira", afirma Liane. A palavra Ecos, do título, no sentido também de "vibração", se desmembrou em seções que tratam das questões de Espacialidade, Conectividade, Originalidade e Sustentabilidade por todos os andares do prédio da Bienal - cada um deles é identificado por uma cor (azul, vermelho, amarelo, verde), que na cenografia da exposição se traduz pelo uso de estruturas de tecidos que percorrem os andares do edifício.

 

Aproveitando também um tema do momento, a 8ª BIA dedica um segmento no terceiro andar usando como mote a Copa de 2014, a ser realizada no Brasil. O impacto do megaevento no País é tratado por meio da apresentação dos projetos de estádios e de melhoria para cada uma das 12 cidades que abrigarão a Copa - Brasília, Natal, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Manaus, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Recife, Cuiabá e São Paulo. Ainda, ocorrerão até dezembro workshops sobre a questão em "escritório" com paredes de vidro montado no espaço expositivo. "Nosso objetivo é apresentar o que se está pensando e até o não pensado para o evento", afirma Liane. Uma pequena arena, com uma arquibancada e piso que se refere a um gramado sintético, foi montada no local para se fazerem debates. "Existe insatisfação dos arquitetos sobre os projetos de arena por causa da falta de licitação pública", diz a curadora. "O foco das discussões será a qualificação das cidades para o evento ou se ele vai se tornar uma grande roubada." A ideia dos organizadores da 8ª BIA é transformar também o material produzido no workshop sobre cada uma das cidades-sede da Copa 2014 em uma publicação. "Podem até surgir novas soluções."

 

 

A 8ª BIA é uma mostra limpa, que não dedica salas especiais para homenagear isoladamente os trabalhos de arquitetos renomados - Oscar Niemeyer, de 101 anos, aparece como presidente de honra da edição, mas não tem obras exibidas. Para diferenciar a edição, a curadoria incluiu a "arte", mas de forma insípida, por meio de quatro painéis feitos por grafiteiros, da instalação Arquitetura da Alma, da artista Marina Inoue, da realização de performances, do projeto Arquimobile (esse mais consistente), do grupo Bijari e apresentação de fotografias e obras da coleção da Pirelli (patrocinadora).

 

O destaque da edição são os debates (programação no www.bienalinternacionaldearquitetura.com), que ocorrerão no auditório do Museu de Arte Contemporânea da USP no prédio da Bienal (entre os arquitetos participantes, o suíço Jacques Herzog, do escritório Herzog & de Meuron, responsável pelo polêmico projeto do Teatro de Dança em São Paulo, da Secretaria de Estado da Cultura - há um espaço na mostra dedicado às obras públicas culturais do governo estadual -, fala no dia 2 de dezembro). A 8ª BIA, também, promove projeto educativo de maquetaria, feito em parceria com o Instituto Tomie Ohtake.

 

 

Dois artistas

 

Camila Sposati esteve entre julho e setembro em Londres no departamento de química da University College of London e na Loughborough University desenvolvendo a segunda etapa de sua pesquisa, iniciada em 2007 e feita a partir dos cristais. "O cristal é o produto mais organizado da natureza, o mais sólido, simétrico", diz a artista, que inaugura hoje na Casa Triângulo a mostra Nucleação, formada por fotografias, desenhos e projeção, criados a partir de seu trabalho "mais filosófico que conceitual", a partir do processo das etapas de crescimento do material.

 

Uma das vencedoras do 8º Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia (leia no quadro), Camila se diz mais vinculada à ciência - em Nucleação, a relação da química - do que com os recursos tecnológicos, usados apenas como ferramenta e não linguagem. "O cristal é um sal inorgânico, com crescimento que não se dá por vida, mas por energia, esculpido pelo tempo", diz ela. Há sete tipos possíveis de cristais (com formas e cores) e Camila mesma conseguiu fazer "crescer" alguns deles.

 

Em Nucleação, de certa forma, é uma questão de método que prevalece. Ao tratar do mote de acúmulo de energia para a construção de algo ("Estamos buscando-a nos lugares certos?", indaga Camila), a artista coloca questões como a pureza (o sal e reação química mais pura formam cristais mais perfeitos) e de formação do mundo (algumas das fotografias remetem às pirâmides, tratando do início da civilização). Camila também participa da 7ª Bienal do Mercosul com o ramo de sua pesquisa sobre a fumaça, "oposto" dos cristais - seu crescimento é desorganizado dada a efemeridade da natureza do produto.

 

A Casa Triângulo ainda inaugura hoje em seu mezanino a exposição Arquitetura da Memória, de Felippe Segall. Neto do pintor Lasar Segall, o artista, tomado pela experiência de ter seu apartamento "da infância" sendo esvaziado porque tinha sido vendido, fez em 2007 trabalho fotográfico e performático a partir de sua relação com aquele espaço. O resultado são fotografias, coloridas e em preto e branco, de forte caráter geométrico, trabalhadas e compostas desde aquele ano e que reforçam uma dupla condição, como escreve o crítico Paulo Reis: "ser operação e representação em simultâneo".

 

Serviço. 8.ª Bienal Internacional de Arquitetura. Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, Parque do Ibirapuera. 12h/ 22h (sáb. e dom. 10h/ 22h; fecha 2.ª). R$12. Até 6/12. Abertura no sábado, 31

Tudo o que sabemos sobre:
Arquitetura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.