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Cidade vestida de arte

Maior festival do mundo, Edimburgo quer atrair novos públicos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

De modestos, os escoceses não têm nada. É com orgulho que Edimburgo se autoproclama dona do maior festival de artes do planeta. A cidade inteira alardeia seu protagonismo no cenário europeu e internacional. Não é para menos. Difícil imaginar algum outro lugar onde haja tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Durante o mês de agosto, a capital é literalmente invadida por artistas. Juntos, eles somam 25 mil. Gente que vem de 60 países e se reveza em mais de 3 mil shows, peças, concertos e exposições.

Mas não é apenas pelo seu significado para as artes que tais números grandiloquentes interessam à Escócia. A série de festivais que está ocorrendo por aqui, doze no total, tornou-se um imenso e lucrativo negócio para o país. "Encomendamos recentemente um estudo sobre o impacto econômico. Os resultados só confirmaram aquilo que nós já sentíamos na prática", diz Faith Liddell, diretora geral dos Festivais de Edimburgo.

Atualmente, a festa cria 5. 245 empregos diretos. Além de gerar, sozinha, 261 milhões de libras. "Nenhum outro empreendimento cultural tem esse impacto", afirma Faith. "Hoje, nós somos maiores que a indústria do golfe, que movimenta 191 milhões de libras." As pesquisas revelaram também que 83% dos turistas estrangeiros apontam os festivais como motivo principal para vir à Escócia.

Não basta acomodar-se com o lugar conquistado. Para os próximos anos a expectativa é de que o gigantesco evento cresça ainda mais. Eles estão de olho no público dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. E também nos espectadores do Commonwealth Games, que deve ocorrer em Glasgow, em 2014. "Mesmo com a crise, nós não cortamos o orçamento da cultura. Com a Olimpíada, todos vão estar prestando atenção no Reino Unido. E nós queremos ser um palco para o mundo", comenta a Ministra da Cultura e das Relações Exteriores da Escócia, Fiona Hyslop.

É nesse contexto que Edimburgo olha com curiosidade para o Brasil. Neste ano, trouxe pela primeira vez uma delegação brasileira à cidade (leia abaixo). E, conforme o Estado acompanhou com exclusividade, conversou com governantes e produtores culturais para tentar estabelecer parcerias para o futuro.

Pioneirismo. Com mais de 60 anos, os festivais nasceram em 1947, como antídoto para a depressão do pós-guerra. Em um continente devastado, Edimburgo foi uma das poucas cidades a escapar ilesa dos bombardeios. Tornou-se, portanto, o local ideal para reunir os países e reconstruir seus laços de amizade por meio da cultura. Assim surgiu o primeiro dos festivais, o Festival Internacional, seleção de espetáculos de teatro, música e ópera de vários lugares da Europa.

Hoje, essa pioneira parcela da programação continua a ser mais prestigiosa. Porém, a noção do que seja um evento de dimensão internacional mudou um pouco. "Quando eu cheguei aqui, senti que o festival era tão europeu que não era, de fato, internacional. Lidava com uma definição de internacional que remetia a 1947. Mudamos a perspectiva", considera Jonathan Mills, curador do Festival Internacional há quatro anos. Para esta edição, o seu foco é a Ásia. A grade de concertos e espetáculos privilegia produções da China, Coreia, Índia e Vietnã.

Essa é a parcela da programação que acontece dentro dos teatros. É nas ruas, contudo, que se encontra a melhor e mais interessante face dessa festa. Uma praça, repleta de toldos, transforma-se em uma aldeia de literatura. Intervenções de artistas visuais tomam 200 pontos da cidade. Milhares de peças são encenadas nos locais mais improváveis.

Concebida como uma programação paralela do festival, o Fringe está aberto a quem quiser participar. Há espaço para jovens atores testarem seus experimentos, mas também para que espetáculos ambiciosos consigam chamar a atenção de produtores internacionais. "Estar no Fringe não significa necessariamente ser alternativo. Existem grandes nomes que decidem se apresentar aqui", aponta Mark Fisher. Colaborador do Guardian, o crítico está escrevendo um livro sobre o Fringe e explica que, em Edimburgo, qualquer espaço pode se tornar um palco. "Um ônibus, uma loja, uma igreja, uma escola. É possível se apresentar em qualquer lugar. Esse é o espírito do Festival." Transformar uma cidade inteira em obra de arte.

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