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Cidade que amanhece gargalhando

Mercado do humor cresce, se profissionaliza, e público maduro separa as piadas boas das ruins

Divirta-se - O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h00

O paulistano tem a fama de viver (e correr) em função do trabalho, mas a quantidade de espetáculos cômicos na cidade prova que ele também gosta de se divertir. Das 131 atrações em cartaz atualmente, cerca de 40% são dedicadas ao humor. E há opções para todos os gostos, como explica o dramaturgo e estudioso do humor brasileiro Mário Viana."A cidade oferece multiplicidade. Tem stand-up, comédia para levar a vovó e comédia picante", destaca.

Além da variedade, Viana acentua que São Paulo sempre foi um espaço para os novos talentos e uma fonte de inspiração para criação de personagens e piadas. "Como centro urbano que recebia gente de todo canto, São Paulo acabou se tornando um celeiro de tipos que faziam referência às origens de povos e tipos. Tivemos Juó Bananére, Mazzaropi, Cornélio Procópio e Adoniran Barbosa, cujo trabalho começou no rádio", lembra Viana. "Hoje temos grupos tipicamente paulistanos como Parlapatões, La Mínima, Plat du Jour e Pia Fraus."

"O humor das letras, a forma de cantar, o ritmo e os temas dos nossos esquetes são bem urbanos", afirma Laert Sarrumor, líder do grupo Língua de Trapo, formado nas dependências da Faculdade Cásper Líbero em 1979. A banda cria músicas sobre personagens típicos de São Paulo, como a trabalhadora que se vinga da semana sofrida no karaokê ou o homem apaixonado que leva a amada até uma cantina. "Nossa música brinca com a cultura e os personagens dos bairros como o Bexiga e Santo Amaro", conta Sarrumor, que há 27 anos também apresenta o programa Rádio Matraca.

O cotidiano da cidade também é fonte de inspiração para a atriz Grace Gianoukas que, em 2001, criou o espetáculo Terça Insana, que ganhou filhotes como Homens Insanos. "São Paulo é muito cosmopolita. Os textos que abordam moda, trânsito e lei antifumo funcionam também no resto do país", diz Grace.

Público seletivo

A importância da avaliação do espectador para o êxito de uma peça é ressaltada por Hugo Possolo, dos Parlapatões. "O paulistano é habituado a ver humor, não cai em qualquer truque. Ele reconhece piadas recicladas ou repetidas." Por esse motivo o autor, diretor e comediante Marcelo Mansfield prefere testar seus shows antes de apresentá-los na capital. "O roteiro do stand-up é difícil. A cada três linhas tenho de ter uma piada. Procuro testar o show numa cidade como Ribeirão Preto para poder editá-lo."

Para Gianoukas o fato de o público paulistano ser mais seletivo pode reduzir o número de espetáculos. "Hoje qualquer um que diz besteiras no bar acha que está fazendo stand-up, mas o espectador não quer pagar para rir apenas de duas piadas." De opinião contrária, Mansfield não vê uma redução imediata de shows de stand-up. "Está aumentando, na verdade. Há grupos surgindo em outras regiões do país. Eles apenas ainda não conseguiram destaque suficiente para montar os seus shows solos", enfatiza. Possolo acredita que "o humor de personagens vai retomar o seu espaço, deixando de lado a fórmula da TV e do rádio, baseada em estereótipos."

Recordista

A comédia Trair e Coçar É Só Começar completa 26 anos no próximo dia 26 de março. Desde 1986, 13 atrizes interpretaram a personagem principal da trama. A peça esteve três vezes no Livro dos Recordes e teve mais de seis milhões de espectadores. Para o autor da peça, Marcos Caruso, o sucesso se deve entre outras coisas ao fato do brasileiro estar mais afeito ao humor que ao drama.

É proibido proibir

Pioneiros no que hoje é conhecido como stand-up, humoristas brasileiros sofriam com a censura. Na época da ditadura, nem sempre as piadas eram recebidas com bom humor.

Em 1965, Ary Toledo,ganhou destaque e começou a apresentar o espetáculo A criação do mundo segundo Ary Toledo. "Uma noite, eu disse: ‘quem não tem cão, caça com gato; quem não tem gato, caça com Ato’. Fui preso", conta Toledo. Depois da terceira detenção, ele mudou de estilo. "Tive de banir a política do meu show e encontrei na pornografia a uma válvula de escape."

O compositor e músico Juca Chaves ficou conhecido em 1956 por sua sátira musical Presidente Bossa Nova, inspirada em Juscelino Kubitschek. Mais teimoso que Toledo, ele não se intimidou com a censura de 74 das suas sátiras. "Não tinha só a censura política. Musa Infiel foi censurada por ter a palavra olor (aroma) que, segundo eles, lembrava lordo (nádegas)." Em 1983, ele almoçava com o escritor Jorge Amado, quando foi preso. "Descobri que o coronel me prendeu porque eu tinha me negado a dar 18 ingressos para eles."

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