Cidade Negra, inéditas no Rio, após cinco anos

Quando Toni Garrido decidiu deixar o Cidade Negra, no início de 2008, para cantar sozinho, Da Gama (guitarra), Lazão (bateria) e Bino (baixo) chegaram a cogitar montar um concurso no Caldeirão do Huck, na TV Globo, para encontrar novo vocalista. Cinco meses depois de Toni, foi Da Gama quem anunciou sua partida para tocar solo. Depois de algumas audições, Lazão e Bino optaram então por um jovem de Belo Horizonte, que além de cantor, é guitarrista. Alexandre Massau faz sua estreia na banda com Que Assim Seja, CD independente que o grupo lança com show no Viradão Carioca, hoje, na Praça 15. É o primeiro de inéditas desde 2005.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Os requisitos da vaga eram: cantar bem, ser compositor, tocar guitarra, conhecer a história do reggae e do Cidade Negra. Com passagens pelo grupos mineiros Berimbrown e Preto Massa, Massau, que por falta de dinheiro e oportunidade nunca havia assistido a um show do Cidade Negra, passou no teste com louvor. "Cheguei, o Da Gama resolveu sair, e pensei: será que os caras vão ficar? Será que não vai sair mais alguém? Mas Lazão e Bino me deram certeza de que iriam continuar essa história", conta Massau, de 31 anos, mais novo do que os companheiros (Lazão tem 46 e Bino, 40).

Um trio pela primeira vez desde a formação, em 1986, na cidade da Baixada Fluminense Belford Roxo (com Ras Bernardo como vocalista), o Cidade foi para o estúdio, começou a compor e logo deu-se a liga, conta Lazão. "Quando você conhece alguém, sente logo qual é a verdadeira energia da pessoa. Musicalmente, nos demos muito bem. Ele chegou falando uma letra no violão e eu já fui continuando...", lembra o baterista. Um dos criadores do grupo, ele nunca acreditou na sua dissolução: "O Cidade Negra foi uma porta que Deus me abriu. Em hipótese nenhuma pensamos em parar porque há milhares de cantores e guitarristas bons. Não estamos começando agora."

Em comum com Lazão e Bino está o passado de Massau na periferia. Seu contato com o universo musical começou quando passou a frequentar, com apoio da mãe, um projeto social que ensinava música a jovens pobres. "Eu morava em outro bairro, mas eles começaram a tocar nas ruas e um dia vi 80 tambores juntos, fiquei deslumbrado", lembra Massau, que ficou cinco anos no Projeto Sócio-Cultural Bloco Afro Porto de Minas, quando descobriu Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff e Max Priest.

Todas as 12 composições são assinadas pelo trio. Elas têm o DNA sonoro do Cidade, que está "mergulhado nas profundezas do reggae", segundo conta Lazão. As mudanças fizeram bem à banda, avaliza o produtor do CD, Nilo Romero. "Acontece com todas as bandas: após muito tempo junto, fica-se um pouco acomodado. Quando dá uma mexida, a necessidade faz com que a criatividade aflore. Poderia ter dado tudo errado, mas deu muito certo."

Temática. O CD foi feito de forma acelerada: era preciso mostrar que o Cidade está aí, e para o que der e vier, como já dizia a letra de Falar a Verdade, o primeiro sucesso da banda, de 1990. As letras mantêm as temáticas caras à banda: crítica social, espiritualidade e amor. Em Porta da Favela, "PC, PT, Comando Vermelho, ADA, Terceiro Comando, PCC, PMDB", mais do que uma sopa de letrinhas, trata da bandidagem na política.

Em algumas canções, o timbre de Massau se revela semelhante ao de Toni Garrido. Mas só às vezes. "Sempre quis ter uma banda de reggae. Não me vejo substituindo o Toni. Temos as mesmas bases, a mesma escola, mas o que vejo é uma oportunidade que me deixa muito orgulhoso."

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