Cidade mágica, aparece, desaparece

Viagens de infância. Depois de Jundiaí vinha Botujuru, estação de nome esquisito, e, enfim, o túnel, aguardado com ansiedade. Na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí não havia o perigo das fagulhas, a locomotiva era elétrica, de modo que muitos passageiros punham a cabeça para fora, sentindo o vento. Meu irmão e eu não podíamos abrir a janela para olhar a chegada do túnel, minha mãe tinha pavor de que um trem vindo na direção contrária nos decapitasse. Ficava aquela espera. De repente, o trem mergulhava na montanha e as luzes do vagão eram acesas. Parecia um longo trajeto, curtíamos a escuridão de fora, sendo dia. O túnel era um milagre, sensação inesquecível. E se o trem desaparecesse dentro da montanha? De quando em quando, lâmpadas amarelas penduradas nas paredes úmidas transmitiam sensações fantasmagóricas. Almas penadas, dizia Luiz, meu irmão. Outro dia, conversando com Ayrton Camargo, da CPTM, tive uma decepção. O túnel tem 590 metros e um trem a 90 por hora leva apenas 30 segundos para atravessá-lo. Mesmo naquele tempo, imaginando que corresse a 50 por hora, seria um minuto. Por que para nós o tempo esticava, desaparecia no túnel?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Sentado junto à janela, posição que cedo apenas para meus netos, pensava nessas coisas quando o Expresso Turístico deixou a Estação da Luz rumo a Paranapiacaba, na sexta-feira passada. Lembrando que vindo de Araraquara baldeávamos em Jundiaí e entrávamos no trem que desceria a serra apoiado no sistema de cremalheiras. Meu pai ferroviário explicava que eram máquinas gigantescas que seguravam a composição na descida e puxavam na subida. Era moderno e grandioso aquilo. Passávamos pela Luz e seguíamos. Paranapiacaba era diferente de tudo. Parece a Inglaterra, dizia meu pai, mostrando o formato da estação, das casas, os pontilhões, os postes de ferro rendilhado, a torre do relógio apelidada Big Ben e a neblina que cobria tudo e me conduzia aos filmes de mistério.

Agora, de repente, infância e juventude foram revividas num trem curto, uma locomotiva diesel e dois vagões de passageiros de primeira classe. Conheço estes vagões, pensei. Devo mesmo ter viajado neles, foram da antiga EFA, era o trem prateado. Recuperados, farão a cada 15 dias a subida da serra. A janela é uma televisão em HD. Saindo da Luz, imagens familiares do Tamanduateí, da zona cerealista, prédios abandonados, matagal, na Mooca a velha cervejaria Antarctica abandonada vai se desmanchando, mais à frente, parte do império das indústrias Matarazzo em ruínas. Pensar que o conde foi um dos homens mais ricos do mundo. A modernidade e as cores se espelham na nova Estação de Tamanduateí, sensação espacial, design audacioso. Esta pequena viagem atravessa trechos da história e do urbanismo de uma São Paulo que vai indo e uma nova que está chegando.

Música clássica, agradável no interior do vagão. Entre a Luz e o alto da serra são 48 quilômetros e 14 estações. Então, a neblina começou a surgir, tímida, cresceu e quando chegamos a Paranapiacaba havia coberto tudo, mal se viam a plataforma, as ruas da vila. Sensação de mistério. Queria ver logo a cidade que ganhou vida em 1977 no filme Doramundo, de João Batista de Andrade, baseado no romance de Geraldo Galvão Ferraz, com Antonio Fagundes, Irene Ravache, Celso Frateschi. Wladimir Herzog, apaixonado por cinema, colaborou no roteiro. Recomendo a leitura do livro e uma olhada no filme, antes da viagem. A história da ferrovia brasileira está ligada à EFSJ (antiga São Paulo Railway), ela escoava todo o café do Estado, levando ao porto. Cruzamos com imensas composições da MRS que levam carga para Santos, intermináveis, com 70 ou 80 vagões. Criança, eu adorava ficar na beira da linha contando vagões. Quando chegava a 20, exultava, nunca tinha visto um trem tão comprido. Imaginem agora! Um acordo com a MRS permitiu a criação deste trem. Hoje são três os Expressos Turísticos. O que vai a Jundiaí, o de Paranapiacaba e o de Mogi das Cruzes. Outros virão. Assim, os trens voltam a circular em pequenos trechos, o suficiente para formar uma mentalidade, fazer tomar gosto, recuperar trajetos desaparecidos, cada vez mais longos. Estes trens nos levam a uma reflexão, porque, enquanto nostálgicos para nós, no resto do mundo são avanço, revolução. Pela nostalgia, aqui, a denúncia: por que paramos no passado, destruímos um patrimônio centenário? E o grito: iniciemos a retomada.

Ao chegar a Paranapiacaba busquei a torre do relógio, que na verdade lembra mais o relógio da Estação da Luz. Aqui, a chamada Vila Inglesa foi das mais importantes da história ferroviária do Brasil. As plantas das casas vieram da Inglaterra. Passei pela igreja anglicana, construída em pinho-de-riga, num tempo em que a lei brasileira obrigava as igrejas não católicas a parecerem casas "normais", sem torre, sem vitrais. Pequenos bares, passeios a pé, uma pousada simpática com boa comida, o turismo pode fazer a cidade renascer.

Acompanhei o pessoal da CPTM até a casa de dona Francisca Cavalcanti de Araújo, senhora de 78 anos, que lutou para que o trem voltasse à cidade, "para termos vida novamente. Não quero morrer sem ver o trem apitar na estação". Extrovertida, sorridente, dona de uma pequena loja de artesanato, no dia em que o primeiro trem chegou ela estava indisposta, não fez a viagem. O recanto dela é imperdível. Olhando objetos, numa parede dei com um poema emoldurado que ela escreveu sobre sua Paranapiacaba.

Aqui é a vila mágica/ A vila aparece/ E desaparece/ Tem horas que você vê o morro/ Tem dias que você não vê nada/ Parece o grande caldeirão/ Que você põe para esquentar/ E a fumaça vem para a vila apagar/ Tem bruxa no pedaço/ Com sua vara de condão/ E põe fogo no chão/ A fumaça aparece/ E a vila desaparece/ Como passe de mágica/ O morro a sumir/ E a fumaça a perseguir/ O dia não passa/ Nem as horas/ Só fica a fumaça/ Na cidade mágica.

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