Cidadção Hoover

O próprio Leonardo DiCaprio se ofereceu para viver o lendário diretor do FBI no novo filme de Clint Eastwood

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2012 | 03h09

J. Edgar Hoover foi um personagem controverso na história dos Estados Unidos. Construindo e presidindo o FBI durante 40 anos, até fazer do "Bureau" a potência que é hoje, Hoover (1895-1972) tornou-se um dos homens mais poderosos do país ao longo de décadas. Anticomunista de carteirinha, não tinha escrúpulos em acumular provas contra adversários e usá-las na hora adequada. Se não havia fatos, ele os forjava. Detestado pelos Kennedys, tentou intimidar até mesmo o reverendo Martin Luther King. Nixon não podia vê-lo pela frente. Mas, em especial durante a Guerra Fria, fez boa parte da opinião pública americana comprar a ideia de que o preço da liberdade era não apenas a eterna vigilância, mas também o combate sem trégua contra o inimigo interno. Esse é justamente o difícil personagem retratado por Clint Eastwood em J. Edgar, seu novo filme.

Quem encarna o personagem, sob maquiagem pesada, é Leonardo DiCaprio, ator que, aos 37 anos, já provou ser mais que um rosto bonito. Leo gosta de experiências de risco e de personagens difíceis, como quando viveu o excêntrico milionário Howard Hughes em O Aviador, de Scorsese.

De certa, forma, colocar-se na pele de Hughes funcionou para DiCaprio como laboratório para viver Hoover. São imersões no que o ser humano poderoso pode ter de estranho. Ele próprio se ofereceu, quando soube que Clint estava pensando em retratar na tela a vida do chefão do FBI. O diretor não hesitou em aceitá-lo para o papel. Acertou em cheio. O DiCaprio que se vê no cinema parece talhado para interpretar um tipo sombrio, complicado, cheio de nuances.

Como saiu esse retrato de Hoover pintado por Clint e encarnado por DiCaprio? Como o de alguém traumatizado pelos atentados de Washington, de 1919, fascinado pela mãe (em grande atuação de Judi Dench) e incapaz de assumir a homossexualidade. Alguém com mania de pesquisa e catalogação, que começa por instituir um eficiente sistema para localizar livros em uma biblioteca e termina por montar um arquivo de pessoas abrangendo toda a nação. Isso num tempo em que o computador era apenas uma fantasia da ficção científica.

Essa obsessão por controle parece um dos pontos-chave para compreender o personagem proposto por Clint. Se a sua vida pessoal e amorosa é um caos, Hoover tenta impor ao país uma ordem absoluta, sem espaço para dissidências ou surpresas. Claro, a segurança total não passa de um delírio no qual as pessoas acreditam. Hábil manipulador do medo, Hoover manteve-se no poder até a morte. Dirigiu o FBI entre 1924 a 1972. Mas não foi feliz. É, pelo menos, o que sustenta o notável filme de Clint Eastwood.

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