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Cidadão delivery

Essa vida delivery só é possível graças aos bravos heróis que não arredaram os pés (e as motos e bikes) das ruas: os entregadores

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 03h00

Sou um dos poucos que não aprenderam a fazer pão durante o isolamento social. Não sei cozinhar. Não tenho fogão. Uso muito o micro-ondas e, principalmente, o celular. Sou um cidadão delivery.

Perto da hora do almoço (horário em que escrevo este texto), começo um ritual primitivo que consiste em dançar ao redor dos mais variados aplicativos. Pressiono os ícones na tela do meu celular, caçando cupons de desconto e promoções. 

Em dias de semana, quase sempre, caio em marmitas ou pratos executivos de R$ 20. É sempre o mesmo bife ou frango atropelado – com arroz, feijão e batatas fritas mais murchas do que a bola do meu Corinthians.

No jantar, o canto da sereia fast-food me atrai com seus smash burguers, esfihas abertas, pokes e sushis de R$ 1. Minha falta de disciplina alimentar é exemplar. Minha cintura é um legado pandêmico – em que já é possível circum-navegar em direção ao “porto-umbigo”.

Em isolamento, virei uma ilha.

Não consigo fazer mais nada enquanto espero minha comida. Perco a concentração para qualquer outra atividade. Fico inutilizado até o interfone tocar ou o aplicativo avisar que meu pedido está chegando. 

Mas essa vida delivery só é possível graças aos bravos heróis que não arredaram os pés (e as motos e bikes) das ruas: os entregadores.

Não sei se a sociedade já deu o devido valor à categoria. Pense no que seria da sua vida em isolamento sem eles.

A mesma covid que pode te pegar (e me pegar), também assombra os entregadores. Nosso direito ao isolamento social não deveria sobrepor-se ao direito de quem trabalha com entrega. Portanto, faça o mínimo, seja educado. 

O mundo está cheio de malas, de gente chata e sem noção. Gente que não se dá o trabalho de descer na portaria do prédio com a presteza necessária para não deixar o entregador esperando. Gente que não sabe a pronúncia correta da palavra “obrigado” ou possui alguma doença rara em que a simples menção a um agradecimento pode provocar arritmia cardíaca ou impotência sexual. 

Entregadores de delivery merecem caixinhas, estátuas e nomes de praça. No futuro, talvez, se organizem melhor como classe. Organizados, podem pôr o pé na política com mais força e representatividade. Um dia, quem sabe, teremos um presidente orgulhoso do seu passado como entregador de delivery. Acho justo. 

Minha vida delivery não seria a mesma sem eles. 

Depois da entrega e após a refeição, bate um vazio. Faço o meu cafezinho. Assisto um pouco de TV. Leio duas ou três mensagens no WhatsApp. Não respondo a todas.

Vai ser lindo quando, do meu aplicativo, eu puder pedir um delivery de vacina. Sim, com todas as opções possíveis e imagináveis.

Com um menu abrangente e desafiador, com a vacina chinesa, russa, inglesa, jamaicana, brasileira e outras. 

Por enquanto, continuo com minhas batatas murchas. Mas não preciso de delivery para sonhar.

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