Claudia Cavalcanti/AE
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Cidadão da internet

Perseguido em seu próprio país, Ai Wei Wei, o mais importante artista chinês da atualidade, tem centenas de imagens e vídeos expostos no MIS

Cláudia Trevisan, correspondente/ Pequim, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2013 | 02h12

Arte e política são indissociáveis na vida de Ai Wei Wei, o mais célebre artista contemporâneo da China, cujo ativismo o colocou em rota de colisão com o Partido Comunista e levou à supressão de seu nome e de sua obra dentro de seu próprio país. "Eles me tornam inexistente", disse ontem em entrevista ao Estado, na qual "eles" se refere quase sempre aos integrantes do governo e de seu extenso aparato de segurança.

Centenas de imagens e vídeos feitos por Ai Wei Wei desde os anos 80 serão apresentados a partir de hoje para convidados, e amanhã para o público, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo na mostra Interlacing, que o artista considera uma das mais representativas de seus trabalhos.

Preso durante 81 dias em 2011, Ai Wei Wei foi condenado a pagar multa de US$ 2,4 milhões no ano passado por suposta evasão fiscal, no que ele vê como uma retaliação às suas críticas ao governo. "O que realmente me transformou no que eu sou hoje foi a internet", afirmou, em relação à plataforma de expressão que descobriu em 2005, mas que a censura o impede de utilizar plenamente. A seguir, trechos da entrevista:

Como sua obra evoluiu desde os anos 80, quando o senhor vivia em Nova York?

AI WEI WEI - Quando eu estava em Nova York, tentava sobreviver e, como jovem artista, aprendi indo a museus e lendo livros. Depois que voltei à China, comecei a promover a cultura local, a editar livros, organizar exibições e me envolvi com arquitetura. Durante muitos anos, eu me dediquei à arquitetura, em pequenos e grandes projetos, como o estádio (Ninho de Pássaro, feito para a Olimpíada de Pequim). Até o momento em que pulei de volta para o barco da arte e fiquei ocupado com grandes exibições. Tudo isso está registrado e o material para essa exibição foi selecionado de meio milhão de imagens.

O que o senhor diria aos brasileiros que verão seus trabalhos pela primeira vez?

AI WEI WEI - Creio que eles verão o envolvimento de um indivíduo com seu entorno e o esforço de estabelecer uma forma de comunicação que não se enquadra perfeitamente nos moldes da arte tradicional, feita para galerias e museus, mas sim feita para a sociedade, no território das possibilidades criado pela internet.

Sua arte pode ser desconectada da política e de questões sociais?

AI WEI WEI - Nunca achei que arte e política pudessem ser separadas, ainda que em muitos casos nós adoraríamos que fossem. É como querer ter um puro romance, o que não é possível, porque ele envolve indivíduos, com vida e morte, passado e futuro.

Qual a influência de Marcel Duchamp em seu trabalho?

AI WEI WEI - Duchamp era um ativista nato. Naquele tempo, as pessoas questionavam se as suas criações eram arte, como o urinol (batizado de 'A Fonte') ou O Grande Vidro. Ele criou uma linguagem artística até então inexistente. A partir dele, surgiu uma nova definição do que é a arte.

Em Fairytale (Conto de Fadas), de 2007, o senhor levou 1.001 chineses à Documenta Kassel, na Alemanha. A maioria deles nunca havia tido um passaporte nem saído da China. Agora é o senhor que está sem passaporte e impedido de deixar o país. Como essa situação o afeta?

AI WEI WEI - Tenho menos liberdade dentro da China, mas possuo uma série de possibilidades. Contanto que eu não esteja na prisão, posso me comunicar. Mas é claro que um Estado como a China deveria respeitar a lei e os direitos humanos mais essenciais de seus cidadãos, como o direito de viajar. É difícil, mas talvez isso me dê possibilidades de criar novas formas de expressão. Mas como me comunicar? É muito difícil construir as pontes de comunicação nesse tipo de sociedade, por causa da censura. E eu mesmo sou completamente barrado na mídia e nas redes sociais chinesas. As pessoas não podem nem me criticar.

O senhor é ignorado?

AI WEI WEI - Sim, eles me tornaram inexistente. Essa é a ideia. Anunciar a si mesmo, dizendo "eu existo", é sempre perigoso. Se eu não anunciar minha existência, estou em paz, ninguém vai me incomodar.

Que episódio desencadeou seu ativismo político?

AI WEI WEI - Cresci em uma sociedade desprovida de humanidade, fortemente controlada pelo Partido, que sacrificou muitos intelectuais. Foi terrível, mas naquele tempo nós não tínhamos internet. O que realmente me transformou no que eu sou hoje foi a internet. Comecei a usar a internet e a escrever no fim de 2005, quando criei meu blog. Em 2008, vieram a Olimpíada e o terremoto de Sichuan, no qual a vida de mais de 5 mil estudantes desapareceu. Fiz uma pergunta muito simples: quem eles eram e o que havia acontecido a cada um deles. Entrevistei centenas de pais e fiz pesquisas para identificar os nomes, que ia colocando em meu blog todos os dias. Às vezes eram 3, outras 20, até o momento em que o governo não tolerou mais e, em 2009, ordenou o fechamento do blog. Depois, eles me impediram de ser testemunha (no julgamento do ativista Tan Zuoren), me espancaram, o que quase custou a minha vida, destruíram meu estúdio em Xangai, me prenderam, cobraram uma imensa multa fiscal da qual ninguém havia ouvido falar antes e me impediram de viajar. Eu me pergunto o que mais eles podem fazer, além de me prender.

AI WEI WEI - INTERLACING   MIS. Av. Europa, 158, Jardim Europa, 2117-4777. 3ª a 6ª, 12h/21h; sáb., dom. e fer., 11h/20h. Grátis. Até 14/4. Abertura hoje, 19h

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