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Cidadão 70

Obra de Orson Welles forjou sua fama e tradição ao longo do tempo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Rosebud. Essa palavra, todo cinéfilo tem de cor na cabeça, desde que Cidadão Kane tornou-se o ícone mundial do cinema de arte. Não foi uma fama imediata. O mito Kane foi se construindo ao longo do tempo, forjando sua própria tradição e posteridade. Cidadão Kane teve sua première dia 1.º de maio de 1941, em Nova York. Chegou ao Brasil em 16 de junho do mesmo ano, antes da Europa. Compreende-se. A maior parte dos países europeus estava então envolvida na 2.ª Guerra e fechada ao cinema americano. Uma exceção era Portugal - neutro -, que colocou o filme de Welles em cartaz em outubro de 41, com o título de O Mundo a Seus Pés.

Em sua terra, Kane enfrentava percalços. O magnata das comunicações, William Randolph Hearst, reconheceu-se no personagem e boicotou a película. Via em Kane o homem poderoso e, no fundo, vazio, corrupto, destruidor de pessoas que era ele próprio. Havia outra alusão, de ordem sexual. Rosebud (botão de rosa) seria o apelido que Hearst dava à parte íntima da anatomia da amante, Marion Davies. Temeroso do poder de Hearst, Louis B. Mayer, boss da MGM, ofereceu à RKO US$ 800 mil para queimar o negativo. Por sorte, a oferta não foi aceita. No Oscar, Kane não teve melhor sorte. Indicado a nove categorias, ganhou apenas em uma - roteiro, de Herman Mankiewicz, dividindo o crédito com o próprio Welles.

Kane se impôs aos poucos. A cada geração, enaltecido por camadas geológicas de exegeses e críticas favoráveis, foi ganhando a posição de "filme dos filmes". Uma espécie de princípio do cinema moderno, aquele que saía do cisma provocado pela entrada em cena do sonoro nos anos 30, e que subvertera a estética do silencioso. Os anos 20 haviam produzido todo o expressionismo alemão, boa parte da obra de Chaplin, os divisores de água de Eisenstein (Encouraçado Potemkin e Outubro). Com o sonoro, temia-se a regressão a uma estética anterior, colocando toda a força nos diálogos e esvaziando a imagem. Não precisava ser assim, e não foi. Kane não foi o único a demonstrá-lo, mas talvez o tenha feito com ênfase inigualável.

Mesmo após o incrível sucesso crítico alcançado, Kane continuou a levantar polêmicas. Uma delas partiu da norte-americana Pauline Kael que, em seu ensaio Criando Kane, atribui a Mankiewicz a maior parte do mérito pelo sucesso de Kane. De acordo com Kael, é o texto brilhante que faz o filme. Ok, mas mesmo com o melhor dos textos, o que seria da obra sem a mescla de gêneros proposta por Welles, sem a profundidade de campo usada por Gregg Toland, a montagem descontínua de Robert Wise, a música de Bernard Herrmann, o uso criativo da narração radiofônica? Enfim, sem tudo aquilo que faz de Kane um filme (e não um texto) extraordinário, por obra e graça de Welles, o grande regente por trás de todos esses talentos?

Sua influência posterior talvez seja inigualável, pois todo o melhor cinema moderno é seu devedor. Mesmo seu achado - a palavra "rosebud" -, que guia a trama nesse intrincado enigma chamado Charles Foster Kane, mantém sua força. Rever Cidadão Kane, 70 anos depois, ainda é uma experiência sem par. Terminamos o filme sem fôlego, contemplando aquela imagem singela e ao mesmo tempo misteriosa. Todos temos o nosso rosebud pessoal. Foi Kane que nos ensinou essa verdade simples.

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