Cidadania que vem dos EUA

O thriller Fair Game, de Doug Liman, traz embutida na história de ação, uma outra, de reflexão sobre o país

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL, CANNES, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

Vamos logo dizendo que o concorrente norte-americano, Fair Game, de Doug Liman, foi boa surpresa. Naomi Watts está ótima, como sempre, e Sean Penn nunca foi tão bom ator, nem quando ganhou o Oscar por Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood. Mas cabe, aqui, uma pequena digressão. Diretor artístico do Festival de Cannes, Thierry Frémaux é o responsável pela seleção oficial. Ele deu uma entrevista interessante sobre o significado de sua função. É imune a pressões políticas, mas diz que as pressões amigáveis - ou sentimentais - são mais difíceis de gerenciar.

Este ano, 1.700 filmes passaram pelos comitês de seleção - 1.650 vezes ele teve de dizer "não". Frémaux lamenta os erros de seleção? Ele diz que ela reflete sempre o que é a oferta do ano. O que lamenta é descobrir tardiamente que filmes selecionados para a competição teriam melhor chance na mostra Um Certain Regard, e vice-versa.

Por que esta conversa inicial? O melhor, mais impactante e inovador filme da competição, até agora - o ucraniano My Joy, de Sergei Loznitsa -, recebeu cotações baixas nas duas publicações que têm edições diárias no festival, Le Film Français e Screen International. Críticos nem sempre estão à altura do que se espera deles. A acolhida mediana a Fair Game serve como exemplo. No fim da sessão, ontem pela manhã, o tom dominante das avaliações era "OK". O filme de Liman é mais do que isso.

A paternidade tem sido um tema recorrente neste festival. Filmes como o de Takeshi Kitano, Outrage, e My Joy transformam suas abordagens da violência - irracional e explosiva - em espelhos do caos social, no Japão como na Ucrânia. O filme de Loznitsa é muito melhor, como o público brasileiro poderá comprovar, mas a questão, em ambos, é como reagir a este caos. Ken Loach cansou-se da pregação política e, em Route Irish, seu personagem é um mercenário que vira terrorista e soluciona o problema da corrupção política e institucional jogando uma bomba.

Doug Liman prefere a via institucional. Seu filme se baseia no livro de Valerie Plame Wilson. Agente da CIA, ela teve sua identidade revelada pelo próprio governo quando seu marido, um ex-embaixador, colocou em xeque as justificativas da presidência de George W. Bush para invadir o Iraque. Liman formatou a série Bourne, com Matt Damon, e dirigiu Sr. e Sra. Smith, com o casal Brad Pitt/Angelina Jolie. Fair Game é um thriller feito por quem entende do assunto, mas, embutida na história de ação, existe outra, de reflexão.

Bush faz seu famoso discurso da União pregando a guerra contra o Iraque e ele é visto da TV, num aeroporto, enquanto passageiros sonolentos esperam seu voo. O valor simbólico das imagens das pessoas letárgicas é imenso. Tudo se dirige para a montagem paralela que dá sentido ao filme - Naomi depõe no Congresso dos EUA (e aparecem as imagens da Valerie real), enquanto seu marido fala para estudantes sobre o funcionamento da República. Uma lição de democracia, de cidadania. Mesmo que você, às vezes, não aprove a seleção de Cannes, ela não é aleatória. As coisas fazem sentido.

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