Paul DeGeorge
Paul DeGeorge

Cidadania de fãs: como grupos de amantes da cultura pop podem influenciar uma eleição

Estratégias de campanha deveriam incluir um novo grupo em suas listas de público-alvo: os fãs de cultura pop; Confira entrevista com Ashley Hinck, pesquisadora americana autora de livro sobre participação de fãs na política

Carla Menezes, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 11h00

Em agosto, quando Kamala Harris discursou na convenção democrata e oficialmente aceitou ser candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, ela se despediu do público ao som da música Work That, da cantora americana Mary J. Blige. A escolha da música não foi aleatória. Work That é uma das músicas mais utilizadas pelos fãs - sim, fãs! - de Kamala na hora de produzir fancams da senadora. As fancams são popularmente conhecidas entre os fãs de cultura pop, que editam vídeos com os melhores momentos do artista ou personagem favorito, inserem uma música de fundo e disseminam essas compilações quase como spam em comentários nas redes sociais. As intenções são as mais diversas - promover uma música ou clipe novo, um filme, ou apenas exaltar o artista. Nesse caso, o vídeo não é de um cantor ou ator, é de uma candidata à vice-presidência dos Estados Unidos. 

A senadora tem um fandom - grupo de fãs que se unem por compartilhar o amor e o interesse por um determinado produto da cultura pop, o KHive. O nome é inspirado no fandom da cantora Beyoncé, o Beyhive. As comparações não param por aí. Da mesma forma que os fãs de uma artista como Beyoncé dedicam tempo e trabalho para divulgar a cantora, os membros do KHive se dedicam à Kamala. 

Mas nem sempre o político tem apoio de um fandom próprio. Na maioria das vezes, grandes fandoms como os de Harry Potter, por exemplo, se identificam com um candidato que demonstra ter os mesmos valores que aquele grupo de fãs e decidem apoiá-lo, independentemente de filiações partidárias. Foi o que aconteceu em 2008 e 2012, quando um grupo de fãs da saga de J.K. Rowling se reuniu para apoiar o então candidato Barack Obama.

O Nerds for Obama produzia camisetas, casacos e outros itens típicos de merchandising para fãs - uma indústria que movimenta milhões por ano em todo o mundo - com desenhos e frases que ligavam Barack Obama aos universos de Harry Potter, Game of Thrones e Doctor Who. Inicialmente, o slogan era “Bruxos por Obama”. Nas eleições de 2016, o site ganhou o nome Nerds for Her (Nerds por Ela, em tradução livre) para apoiar Hillary Clinton

O músico Paul DeGeorge, fundador do movimento, diz que a iniciativa foi uma extensão de outra organização, a Harry Potter Alliance, organização sem fins lucrativos que conecta fãs da saga a causas sociais. “O trabalho consistiu em estampar várias camisetas, criar adesivos, montar uma loja online e passar os dois meses antes das eleições enviando os produtos para pessoas de todo o país.” 

Um dos exemplos mais antigos de apoio dos fãs a um candidato é o do marido de Hillary, Bill Clinton, que durante a campanha de 1992 conquistou os votos do fandom de Elvis Presley ao tocar Heartbreak Hotel no saxofone em um programa de TV. A apresentação é considerada um dos momentos mais importantes da campanha de Clinton.

O poder de organização de um fandom não pode ser subestimado. A Internet permitiu que esses grupos se transformassem em verdadeiras comunidades globais que se reúnem em fóruns, aplicativos de mensagem e, principalmente, nas redes sociais. Por serem muitos, conseguem facilmente colocar uma hashtag nos Trending Topics do Twitter e gerar atenção em torno de determinado assunto, por exemplo. 

Essa dedicação é extremamente valiosa quando o voto não é obrigatório e os candidatos, além de precisarem convencer os eleitores de que são a melhor opção para governar o país, precisam também convencê-los a votar. “Os millennials e a geração Z estão se tornando grande parte da base de eleitores. Esses jovens, as identidades deles são ligadas ao fandom. Os compromissos políticos deles são ligados ao fandom. Não estamos falando de pessoas que estão em sindicatos ou igrejas, onde costumávamos nos organizar politicamente. Onde eles estão? Nos fandoms”, diz em entrevista ao Estadão a pesquisadora americana Ashley Hinck, autora do livro Política pelo Amor do Fandom: Cidadania de Fãs em um Mundo Digital (em tradução livre), publicado em 2019. 

Cidadania de fãs é um termo cunhado por Hinck que descreve qualquer envolvimento cívico que tem como base e motivação o fato de ser fã. No livro, ela descreve como fãs de cultura pop se unem para arrecadar dinheiro para instituições beneficentes com as quais se identificam, para boicotar empresas ou, mais recentemente, com o Black Lives Matter, para participar de protestos. “Estes são cidadãos se envolvendo nessas ações por serem fãs, não por serem membros de um determinado partido, e sim porque são fãs de algum universo da cultura pop: Jogos Vorazes, Harry Potter, o que seja. Essas duas coisas são conectadas”. 

Segundo a pesquisadora, que também é professora da Universidade Xavier, em Ohio, a Cidadania de fãs vem conquistando nos últimos anos a atenção de organizações políticas. Ela cita como exemplo a Move On, organização progressista que existe desde o início dos anos 2000, que lançou em 2016, durante a campanha presidencial, uma propaganda pró-Hillary que tinha como público-alvo os fãs de Harry Potter. O vídeo faz referências aos livros e personagens e tenta convencer os potterheads a votar em Clinton. 

 

As celebridades americanas, que já têm histórico de apoiar candidatos à presidência,  também começaram a incentivar a participação de seus fãs na política. A cantora Ariana Grande, por exemplo, instalou estações de registro de novos eleitores na entrada de cada um dos shows de sua última turnê nos Estados Unidos. Taylor Swift, criticada por ter mantido silêncio nas eleições de 2016 - alguns acreditavam que ela era apoiadora de Trump, inclusive ele - é considerada agora uma das maiores críticas do atual presidente. 

A discussão sobre ativismo de fãs virou notícia recentemente quando fandoms de grupos de K-pop se organizaram para boicotar um comício de Donald Trump em Tulsa, no Oklahoma, reservando milhares de cadeiras sem a intenção de comparecer ao evento. Em julho, fãs da boyband coreana BTS ganharam destaque por arrecadar mais de 1 milhão de dólares - em apenas 25 horas - em prol do movimento antirracista Black Lives Matter

Fazer parte de um fandom é algo extremamente ligado à identidade dos fãs e aos valores de cada um deles, o que faz com que escolham causas alinhadas a esses valores para defender e apoiar. Essas causas não são apenas ligadas a eleições, vão desde a preservação do meio ambiente à proteção de minorias. 

A defesa desses valores foi o que motivou cinco mulheres, fãs do cantor britânico Harry Styles, a aceitar o convite da Women’s March - movimento americano de defesa dos direitos das mulheres - para criar um projeto que incentivasse o voto nestas eleições. Elas mantêm uma fan account no Twitter, @TheHarryNews, com mais de 320 mil seguidores. Fan accounts são contas mantidas por fãs nas redes sociais para divulgar novidades sobre um determinado artista. 

“A Women’s March entrou em contato apenas para que a gente fizesse um tweet sobre as eleições, mas tivemos a ideia de criar um adesivo de ‘Eu votei’ para agradecer aos fãs por votar. Como muitos de nós não estamos ganhando adesivos porque estamos votando pelo correio, achamos que seria uma boa ideia”, disse uma representante da @TheHarryNews. “Somos muito envolvidas com causas sociais e voluntariado, sempre estamos pensando e desenvolvendo ideias para envolver outros fãs”. 

O design dos adesivos faz uma brincadeira com uma frase que Styles costuma dizer em shows e virou título de uma das músicas de seu álbum mais recente: Treat People With Kindness (Trate as pessoas com gentileza, em tradução livre). Os adesivos que mostram que alguém votou são extremamente populares nos Estados Unidos. 

“Essa eleição é especialmente importante para nós porque a política americana afeta muito mais que apenas os Estados Unidos. Sem contar que muitos dos nossos seguidores são não apenas cidadãos americanos, mas mulheres, pessoas com deficiência e LGBTQ+, então é algo pessoal também.”  Os adesivos, criados pelas administradoras da conta, serão enviados para mais de 1.700 fãs que se cadastraram através de um formulário online. 

“Isso é impressionante, é política no seu melhor”, diz Ashley Hinck. “É marcante a forma com que os fãs falam sobre quais problemas sociais são mais importantes, como estão se educando nesses assuntos, tomando decisões e falando em público sobre esses problemas, tentando intervir.” 

Confira a entrevista com a pesquisadora americana Ashley Hinck

Como podemos definir o que é um fandom?

Eu penso nos fandoms como comunidades online de pessoas que amam alguma coisa, algum produto ou aspecto da cultura pop, de filmes, séries de TV, esportes, livros, quadrinhos e políticos. É definido por esse amor, esse laço emocional. Fãs fazem coisas juntos, traduzem e compartilham notícias, escrevem fanfics (histórias escritas e compartilhadas por fãs que têm como protagonistas personagens já conhecidos), fazem músicas, produzem arte. 

No livro, você menciona momentos históricos da política americana que tiveram participação dos fãs. Quais você destacaria?

Eu suspeito que existam outros, que cientistas políticos e historiadores tenham apenas ignorado essas ações, mas temos dois momentos bastante pesquisados e registrados que gosto de mencionar para mostrar que não é um fenômeno recente dos últimos cinco anos, que não é apenas uma “febre”. Um é de grupos de fãs mulheres que na virada do século 20 usavam os romances que estavam lendo e os filmes que estavam assistindo para imaginar novas realidades políticas para si. Elas eram, em maioria, trabalhadoras imigrantes, com condições de trabalho terríveis. Eventualmente, essa paixão teve um papel importante em unir essas mulheres, fazendo com que se vissem como trabalhadoras que mereciam melhores condições. Outro exemplo é o do fandom de Elvis Presley durante a campanha de Bill Clinton, em 1992. Existem estudos que mostram que Clinton se conectou com esse grupo de fãs, fazendo parte do fandom e garantindo os votos em um momento que realmente precisava. 

E na história recente?

No meu livro, analiso casos desde 2008 até 2016. Nesse período de quase dez anos, o fandom cresceu bastante em termos de ativismo político. Os fãs estão realmente procurando formas de se conectar a instituições beneficentes, maneiras de se envolver politicamente. Existem vários exemplos. Um é o Nerds for Obama, fãs de Harry Potter que venderam e usaram produtos mostrando apoio a Barack Obama. Também vimos o  Greenpeace tentando unir os fãs de Lego a boicotar a empresa para prevenir mais danos ao Ártico. E um projeto antigo e contínuo chamado Project for Awesome (criado pelos irmãos Hank e John Green, autor do livro A Culpa é das Estrelas, que arrecada, em média, 1 milhão de dólares anualmente para causas que “diminuem o nível de coisas ruins no mundo”) que é um marco na cultura do YouTube. A quantia que eles arrecadam anualmente é impressionante. Todos deveriam prestar atenção em alguém que consegue juntar tanto dinheiro. E é marcante pelas formas com que os fãs falam sobre quais problemas sociais são mais importantes, como estão se educando nesses assuntos, tomando decisões e falando em público sobre esses problemas, tentando intervir. Isso é impressionante, é política no seu melhor. 

O que é uma Cidadania de fãs? 

É qualquer envolvimento cívico que tem como base a experiência ou a identidade de ser fã. Pensamos em atos cívicos comuns, como votar, doar dinheiro para caridade, campanha política, protestos, boicotes. Estes são cidadãos se envolvendo nessas ações por serem fãs, não por serem membros de um determinado partido, de uma entidade sem fins lucrativos, e sim porque são fãs de algum universo da cultura pop: Jogos Vorazes, Harry Potter, o que seja. Essas duas coisas são conectadas.

Você acredita que os fandoms vão continuar se envolvendo na política agora que viram o sucesso que as ações recentes estão tendo? 

Com certeza. Conforme organizações políticas, políticos e ativistas veem mais desses exemplos e os enormes resultados que eles conseguem, acho que eles vão voltar as atenções cada vez mais para os fandoms. É prova excepcional do poder dos fãs. Se você puder capturar o interesse e o comprometimento dos fãs do BTS, por exemplo, você tem um grupo enorme de pessoas dedicadas a qualquer que seja o seu objetivo. Isso é desejável seja você parte da indústria musical, um ativista tentando mudar um problema social. Um grupo enorme de pessoas dispostas a agir, isso é valioso. As pessoas querem isso. Espero que esses exemplos encorajem as pessoas, porque acho que é bom. 

Os políticos estão começando a prestar atenção nos fandoms? 

Acho que é bom os políticos e organizações entenderem os fãs e o poder que eles têm. Não acho que o ativismo de fãs deve ficar na sombra. Vimos isso na campanha de Obama, que estava relutante em reconhecer oficialmente os produtos do Nerds for Obama. Eu adoraria ver uma situação em que um candidato presidencial abraçasse isso, porque essas são pessoas dispostas a dar apoio. Agora parece opcional, engajar ou não os fãs, mas em breve vai se tornar essencial. Certamente os millennials e a geração Z estão se tornando uma grande porção da base de eleitores em vários países, não só nos Estados Unidos. Esses jovens, as identidades deles são ligadas ao fandom. Os compromissos políticos deles são ligados ao fandom. Não estamos falando de pessoas que estão em sindicatos ou igrejas, onde costumávamos nos organizar politicamente. Onde eles estão? Nos fandoms. Então acho que vai se tornar essencial rapidamente. 

Alguns artistas estão encorajando os fãs a se envolverem cada vez mais. Ariana Grande, por exemplo, colocou estações para registro de novos eleitores na entrada dos shows da turnê que fez ano passado. Você acha que eles estão descobrindo agora que precisam se posicionar porque os fãs estão se organizando, protestando e veem que precisam estar lá por eles?

Eu acho que celebridades estão percebendo que os fãs querem mais que o cantor que apenas canta, querem valores, querem política, querem exemplos a seguir. Existe um desejo que a celebridade reflita o que é essencial para o fandom. E acho que também é por isso que é tão doloroso quando uma celebridade não é apenas neutra, mas discorda desses valores, como no caso da JK Rowling (autora de Harry Potter, que fez uma série de declarações transfóbicas recentemente). É frustrante e acho que o fandom de Harry Potter meio que disse ‘isso é o que os livros significam para nós, isso é o que o fandom significa e não vamos aceitar o ponto de vista dela’. Acreditamos que Harry Potter é sobre justiça social, sobre valorizar as diferenças, esse é o nosso posicionamento. 

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