Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Cida, o tempo e as canções

Em A Dama Indigna, cantora volta aos autores prediletos e ao formato de seu primeiro disco, de 1981

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

Na semana que São Paulo teve Yusef Lateef, Manu Chao, Elomar e Vitor Ramil, Cida Moreira ganhou de todos no quesito intensidade, apenas com sua voz e seu piano. Quem foi ao Auditório Ibirapuera, nos shows de lançamento do CD A Dama Indigna (selo Joia Moderna), confirmou o que já tinha certeza: tudo que ela quer, com sua persona teatral, despudorada, sua metáfora poética de cantora de cabaré, é fazer "estrago" no peito de quem sente e aprecia arte.

Nesse álbum ela volta ao formato e a alguns autores noturnos e inclassificáveis que marcaram sua estreia em disco (Summertime) há 30 anos, pelo selo Lira Paulistana, e sempre a acompanharam: Jards Macalé (Hotel das Estrelas), Chico Buarque (Uma Canção Desnaturada), George Gerswhin (The Man I Love), Kurt Weill (Youkali-Tango).

Nesse que poderia ser o Summertime 2, eles se juntam a Caetano Veloso (O Ciúme e Mãe), Gonzaguinha (Palavras), Toquinho e Guarnieri (Sou Assim), Amy Winehouse (Back to Black), David Bowie (Soul Love), Renato Barros (Maior Que o Meu Amor). Tom Waits (autor que dissecou no antológico show Canções para Cortar os Pulsos, ao lado de André Frateschi) ficou de fora porque as autorizações não chegaram a tempo. Mas Lullaby e Tango Till They"re Sore vão estar na segunda edição do CD, produzido por ela e por Thiago Marques Luiz.

"Acho que sempre vou desejar que quem me ouve corte os pulsos - essa metáfora noturna, tão solitária principalmente... E acho que neste momento estou inclassificável pra mim mesma, buscando ar pra continuar respirando", diz Cida. "A intensidade das canções é que me arrebata. Minha voz tenta seguir a sensação de estar sempre cantando um mundo que se extingue em sua estética e conteúdo, assim como eu me estou extinguindo. Meus autores prediletos são estes e mais os outros deste mesmo universo. Adoro muitos, mas não tenho capacidade de cantá-los assim. O teatro fez e faz em mim uma escolha natural e um pouco difícil, pois pra mim a poesia é o principal."

Entreato. Cantando como nunca/sempre, Cida diz que considera esse disco "um entreato imenso" para ela como artista. Apesar de serem pequenas peças num álbum de curta duração, as canções são carregadas de significado, décadas de história e sentimentos. É curiosa a relação do "tempo das canções" no frescor com que soam em sua voz, com a idade da maioria delas e com o que ainda têm para ser renovadas. Tudo isso tem relação com o mistério desse enigma chamado tempo. Como ela própria diz, as canções são "rigorosamente recortadas pelo tempo" que atua nela e que quer (como diz Chico) "apenas subir ao palco e deixar que esse tempo cante".

Cida diz que o tempo trabalha nela "de forma contundente e extraordinária" e esse enigma do tempo "é o grande élan" sobre o qual sua alma de artista se acomoda. "Trazer isso para o presente é um privilégio da arte. Tudo pode e deve ser atualizado no coração e no exercício de um artista. Particularmente adoro ver artistas nos quais enxergo o tempo nos seus rostos, na voz, e no seu ser. Tom Waits disse certa vez, parafraseando Brecht, que o tempo é a única coisa da qual dispomos, que é nosso verdadeiramente. Estou tentando me reconstruir sempre, amalgamada do meu tempo, que escorre rápido e me traz uma urgência imensa", diz a cantora.

Amadurecer com o tanto que teve desde menina, em Paraguaçu Paulista, convivendo "com o melhor", é fácil: "É só continuar seguindo as primeiras e essenciais lições de vida cotidiana e de estar no mundo com a maior qualidade da qual podemos dispor".

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