Ciclo fechado com magia

Três meses antes de morrer, o saxofonista Stan Getz, ao lado do pianista Kenny Barron, dá seu adeus em People Time

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Ter certeza da morte próxima é apavorante. Mas, ao mesmo tempo, é nestes momentos angustiantes que os grandes músicos parecem experimentar uma forte floração criativa, carregada de emoção. Periodicamente, o jazz é sacudido por este tipo de revelação. Foi emocionante, em 1996, ouvir a caixa de seis CDs do selo Nonesuch Turn Out the Stars: Final Village Vanguard Recordings, do pianista Bill Evans, capturada em junho de 1980, três meses antes de sua morte em setembro (lançada em 1996).

A emoção repete-se agora, com o lançamento internacional da caixa de 7 CDs People Time, que mostra as derradeiras gravações do saxofonista Stan Getz (1927-1991). Ele ficou mundialmente conhecido por sua associação com a bossa nova e a realização de discos, como Jazz Samba (1962) e sobretudo do ótimo The Best of Two Worlds, de 1975, ao lado de João Gilberto e Miúcha. Mas Getz foi também um dos mais importantes saxofonistas do jazz moderno. Daí a importância desse registro integral da microtemporada de quatro noites, em março de 1991 - três meses antes de sua morte por câncer no fígado, em 6 de junho -, em Copenhague, ao lado do pianista Kenny Barron (1942).

Tinha consciência de que eram suas derradeiras performances. E escolheu a dedo o parceiro. De certo modo, com Barron Getz fechava seu ciclo vital retornando às origens. Rei do cool no início dos anos 50, teve problemas com drogas, morou em Estocolmo e retornou aos EUA com uma gravação radicalmente experimental, Focus, suíte de Eddie Saute. Barron tocou no quinteto de Dizzy Gillespie aos 19 anos, e só fez parceria com Getz em 1984; daí em diante, sentiram-se almas gêmeas.

Os muitos dos momentos mágicos, diz Gary Giddins no folheto que acompanha People Time, acontecem quando, após o improviso do piano, eles se encantam mutuamente, tecendo contrapontos extasiantes.

Barron possui versatilidade assustadora e está em plena forma; Getz, ao contrário, vacila em alguns momentos. Apelidado "The Sound" pela robustez de sua sonoridade, ele claudica no fim da jornada. Mas mantém intacta a prodigiosa imaginação ao improvisar de modo magnífico.

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