Marcos D'Paula/Estadão (9/1/2007)
Marcos D'Paula/Estadão (9/1/2007)

Ciclo de peças e debates festeja legado de Augusto Boal

'Pompeia Conta Boal', a partir desta terça-feira, 13, tem a intenção de trazer para o ordem do dia ideias e conceitos formulados pelo diretor e dramaturgo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

13 Novembro 2012 | 02h11

Reconhecido internacionalmente, Augusto Boal ocupa um lugar único no teatro nacional. Em 1960, revolucionou a cena ao dirigir o Teatro de Arena, mudou as feições da nossa dramaturgia e concebeu uma metodologia de trabalho, o Teatro do Oprimido, que ainda hoje corre o mundo. Por tudo isso, o diretor e teórico merece todas as honras e homenagens. Mas não é propriamente como um festejo que foi concebida a programação que o Sesc Pompeia abre nesta terça-feira, 13.

Com curadoria do diretor Sérgio de Carvalho e da psicanalista Cecília Boal, viúva do artista, o evento Pompeia Conta Boal tem a intenção de trazer para a ordem do dia ideias e conceitos formulados por Boal. "Mais do que homenagear, o objetivo era trazer o trabalho do Boal para ser utilizado como uma ferramenta de trabalho para os artistas de hoje", diz Carvalho. "Os encontros também foram concebidos pensando em aproximar diferentes gerações."

Em uma série de palestras, leituras e debates, antigos parceiros do diretor - morto em 2009 - estarão misturados a jovens criadores, novos representantes do teatro político que se pratica hoje no País. Será dessa maneira que nomes como Lauro César Muniz, Benedito Ruy Barbosa e Lima Duarte poderão conviver e trocar experiências com Georgette Fadel, Isabel Teixeira e Marco Antonio Rodrigues. "Boal sempre esteve interessado no que as outras gerações estavam fazendo. Até o fim, permaneceu aberto e curioso", observa Cecília.

Durante o ciclo, que se estende até 13 de dezembro, as obras mais marcantes de Augusto Boal estarão contempladas. Não faltarão, porém, descobertas recentes feitas dentro do arquivo do artista, hoje sob a guarda da UFRJ. Depois de quase deixar o País, a coleção agora abrigada no Rio está sendo catalogada, e deve ser submetida, em breve, a trabalhos de digitalização e organização.

Para abrir a extensa agenda, há nesta terça-feira, 13, às 21 h, uma leitura cênica de Revolução na América do Sul. Inovador, o texto marcou época ao sinalizar a aproximação de Boal com o teatro épico de Bertolt Brecht. Também surpreendia por sugerir uma apropriação das formas do teatro popular brasileiro, como as revistas musicais. Quem conduz a leitura é o curador Sérgio de Carvalho, que elencou para a tarefa o seu grupo, a Cia. d o Latão, o coletivo de cultura do MST, além de convidados especiais, como João Pedro Stédile e Nelson Xavier.

Ao colocar na mesma situação atores e não atores, o procedimento evoca o sistema do Teatro do Oprimido, criado apenas nos 1970. E ajuda a comprovar a tese de Carvalho: de que o percurso de Boal não se divide em períodos estanques e indissociados. "Muitas das ideias que ele formalizou no período do exílio já estavam sendo gestadas nos laboratórios que ele realizava dentro do Arena."

A presença de Boal no Arena foi determinante para a virada que as artes cênicas viveriam nos anos 1960. A estreia de Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, em 1959, já dava sinais da direção vigorosa, distante dos cânones do realismo, que ele imprimiria à cena. Outro espetáculo marcante desse período foi Arena Conta Zumbi, musical que o público poderá conhecer em nova montagem assinada pelo veterano diretor João das Neves.

Escrito por Boal em parceria com Gianfrancesco Guarnieri, Arena Conta Zumbi revisitava, em plena ditadura militar, o episódio histórico do Quilombo dos Palmares. A peça carregava em seu bojo a experiência que Boal acumulou ao dirigir o mítico show Opinião, com Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão, depois substituída por Maria Bethânia. Além disso, o trabalho possuía dois traços inovadores: A música, composta por Edu Lobo, que interligava as cenas e aparecia como elemento narrativo. E um sistema de interpretação conhecido como curinga. Zumbi serviu como primeiro experimento para a ideia de que os atores não deveriam ocupar papéis fixos, mas se revezar para fazer todas as personagens.

Foi justamente por conseguir conciliar prática e reflexão que Boal se destaca de maneira tão contundente. "É raro que um artista consiga formular teoricamente os princípios daquilo que faz", observa Cecília. Outro traço que diferencia a trajetória de Boal, acredita Sérgio de Carvalho, era o seu perfil mobilizador, capaz de aglutinar pessoas e de fazer projetos se concretizarem.

POMPEIA CONTA BOAL

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, 3871-7700. De 13/11 a 14/12. R$ 20.

PROGRAMAÇÃO

Revolução na América do Sul

Leitura cênica do texto de Augusto Boal. Direção Sérgio de Carvalho, com João Pedro Stédile e Nelson Xavier. Dia 13, às 21 h

Arena Conta Zumbi

Espetáculo com direção de João das Neves. Estreia dia 16, às 21 h

Teoria e Prática do Seminário de Dramaturgia do Arena

Palestra com os dramaturgos Lauro César Muniz, Chico de Assis e Benedito Ruy Barbosa. Dia 15, às 19 h

Opinião de Boal

Leitura de escritos ficcionais e teóricos. Com Milton Gonçalves, Isabel Teixeira, Cecília Boal, Rodrigo Bolzan e Danilo Grangheia. Direção de Marco Antônio Rodrigues. Dia 17, às 18 h

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