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Ciclo de peças de diretor argentino discute relações e convenções sociais

Quatro produções de Claudio Tolcachir ocupam, a partir desta quinta, o Sesc Belenzinho

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2014 | 20h00

Amores sem limites. Pessoas capazes de transgredir todas as regras e convenções sociais para viver plenamente seus afetos. Nos espetáculos que o diretor argentino Claudio Tolcachir criou ao lado do grupo Timbre 4, os enredos são diferentes. Mas os sentimentos extremos são uma constante. "Como seria não reconhecer limites nem legais, nem morais, nem mesmo um mínimo de respeito? Tudo isso por amor", questiona Tolcachir. "Nesta vida sem limites, os personagens experimentam um sofrimento sem-fim. Mas me parecem também vidas muito excitantes, divertidas e comoventes."

Será a primeira vez que São Paulo receberá quatro espetáculos da cia. criada em Buenos Aires em 1999 e até hoje uma das referências da cena local. No Sesc Belenzinho, a mostra Ocupação Mirada reúne os espetáculos Emília, O Vento num Violino, Terceiro Corpo e A Omissão da Família Coleman.

Foi com esse último, a história de um clã que se desintegra quando a avó fica doente, que o encenador conquistou fama internacional e viu as portas se abrirem para seus trabalhos seguintes. Títulos nos quais se confundem o drama, o riso, a política e a intimidade.

A saga tragicômica dos Colemans passou pelos mais importantes festivais do mundo. Surpreendeu seu olhar sobre a família conflituosa, mas também a maneira como o autor fazia surgir, como subtexto, a profunda crise econômica que seu país atravessava nos anos 2000.

Certo e errado são conceitos que não se aplicam aos personagens de Claudio Tolcachir. Nos dramas desse dramaturgo e diretor argentino, o público acompanha histórias de quem é capaz de se desvencilhar de qualquer amarra para viver em plenitude aquilo que sente.

É assim em Um Vento num Violino, um dos quatro espetáculos que o encenador traz a São Paulo. Nesse título, um casal formado por duas mulheres tenta desesperadamente engravidar. Há ainda mães que querem, em vão, proteger seus filhos de todos os perigos do mundo. "Na peça, ações equivocadas se justificam por uma razão emocional absolutamente respeitável", comentou Tolcachir em entrevista ao Estado.

Um Vento fecha uma trilogia da companhia Timbre 4 - uma das mais importantes da cena independente de seu país - iniciada com A Omissão da Família Coleman e Terceiro Corpo. Na primeira, uma família de classe média, em meio a dificuldades econômicas, vê seus frágeis alicerces ruírem quando a avó precisa ser internada. Incapazes de enxergar as necessidades uns dos outros, os netos decidem mudar para o hospital em busca da harmonia que não encontram mais em casa.

Terceiro Corpo sai do ambiente estritamente familiar para vislumbrar cenários distintos: um apartamento, um escritório, um bar. Há tempos e espaços que se confundem. Cruzam-se as trajetórias de cinco personagens. Todos solitários e desejosos de encontros.

Sua peça mais recente, Emília mira o episódio de um homem que, após anos de separação, revê sua antiga babá. Mesmo trafegando pelo mesmo universo temático, o título abre uma nova vereda na obra do artista. Modera-se o humor que costuma temperar seus diálogos. Seus protagonistas são igualmente desamparados. Mas, desta vez, parecem ter plena consciência de sua condição.

Ao longo da sua trajetória, percebemos que as relações familiares tumultuosas lhe servem constantemente como inspiração. O que essas relações trazem para a sua dramaturgia?

Tenho interesse pelas histórias dos vínculos, a vontade de se encontrar que move as pessoas. Temos mães e filhos, temos casais, existem as lutas por poder e as frustrações que por alguns momentos se transformam em violência. Mas, sobretudo, o que percebo é a existência desse desejo desesperado de construir uma vida, um destino. Nesse sentido, a família é apenas uma parte de todo esse universo.

Na peça O Vento num Violino você está tratando não apenas de amores, mas de amores sem limites, de gente capaz de tomar medidas desesperadas pelo que sente. Por que tratar desse tipo de sentimento extremo?

O que quero é instaurar situações contraditórias na hora de criar uma história. Para mim, escrever é, de certa maneira, um meio de libertar os fantasmas que existem de forma muito controlada em minha fantasia e deixá-los existir. Como seria não reconhecer limites nem legais, nem morais, nem mesmo um mínimo de respeito? Tudo isso por amor. Simplesmente por querer, por amor, alcançar os nossos sonhos. Nesta vida sem limites, os personagens experimentam um sofrimento sem-fim. Mas essas me parecem também vidas muito excitantes, divertidas e comoventes.

Suas criações se debruçam sobre universos privados. Mas, de alguma maneira, existe um sentido social e político que atravessa e transparece nessas obras. Como você avalia esses aspecto do seu trabalho?

Se conseguirmos, como espectadores, nos identificar com essas histórias, com a dor dos outros, o teatro pode ser um potente catalisador da doença das sociedades. Se puder fazer com que nos conheçamos, mesmo que seja apenas um pouco mais, e nos tornemos menos preconceituosos, o teatro terá uma missão poderosa. Quando algo me perturba, eu escrevo e trato de compartilhar essa angústia e ver se ela toca alguém. Nem sempre funciona, mas essa vontade de se comunicar é o meu motor.

Outro aspecto que chama atenção na sua obra é a presença do humor, sua capacidade de combinar o riso ao drama. Isso é algo que acontece deliberadamente? Qual a função do cômico nas suas criações?

Creio que essa seja minha própria maneira de ver o mundo. É pelo lado patético que nos identificamos com esses personagens. Também temos presenciado reações completamente diferentes nos espectadores, entre o riso e o pranto, entre o incômodo e a identificação. Rir é uma maneira de compartilharmos uma experiência e não nos sentirmos tão sós. Rir com os outros é como dizer: estamos sentindo o mesmo em um mesmo instante. O humor nas minhas obras é uma forma de respirar no meio de tanta dor.

Você se tornou conhecido não apenas por seu trabalho como dramaturgo, mas também pelo seu talento na direção de atores. Como é a sua relação com seus intérpretes e em que medida ela influi na sua escrita?

Eles são, essencialmente, meus companheiros de jogo. Me instigam seus corpos, suas histórias, a maneira como são quando não estão atuando. Essa espécie de verdade infinita que seus corpos transmite. Eu me divirto muito incitando-os a jogar. Descubro e componho com eles como será cada espetáculo.

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