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Ciclo de filmes resgata a trajetória do diretor Douglas Sirk

Com 30 filmes, mostra que começa hoje relembra o trabalho do cineasta admirado por Godard

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

16 de maio de 2012 | 03h09

Seu ideal sempre foi a tragédia grega, em que tudo ocorre em família, e no mesmo lugar. Em 25 anos de carreira, iniciada em 1935, Detlef Sierck, que se tornou conhecido nos EUA como Douglas Sirk, fez filmes de diversos gêneros, mas se tornou conhecido como 'príncipe' do melodrama. Eles ocupam uma parcela reduzida de sua obra. São seis, num total de 20 filmes. E 'príncipe'? Para merecer o título, supõe-se que existiria um rei. Quem seria ele? John M. Stahl, cujos originais - alguns, pelo menos - ele refilmou?

Sirk foi o rei e, em 1960, quando se retirou, no auge do sucesso, é porque antecipou que algo estava se passando no cinema. Sirk morreu em 1987, aos 87 anos. Preferiu parar com o cinema aos 59, no ano de Imitação da Vida. Voltou ao teatro, seu primeiro amor. A Jon Holliday, no livro com a entrevista que lhe concedeu, ele explica que estava cansado dos melodramas, mas também pressentia que, a partir do rock e de movimentos como a nouvelle vague, o cinema iria mudar, e ele não estava certo de querer participar dessa mudança.

Há que desfazer o mito. Sirk não é dinamarquês. Nasceu na Alemanha, filho de pai dinamarquês. Estudou direito, mas logo se interessou pela filosofia e pela arte. Foi ainda como Detlef Sierck que assinou os primeiros filmes, incluindo os dois que fez com Zarah Leander, a grande estrela alemã da época. Fugitivo do nazismo, ganhou a 'América'. Virou Douglas Sirk e teve de começar de novo, porque ninguém o associava a Sierck, de filmes como La Habanera. Em Hollywood, fez thrillers, até mesmo místicos, e westerns, antes de iniciar com Sublime Obsessão a série de suntuosos melodramas com Rock Hudson.

Na Alemanha, ele não queria ser expressionista. Em Hollywood, virou barroco, sem se desligar da influência dos trágicos gregos. Para Holliday, com a clareza de um erudito, Sirk explicou como aplicou a seus melodramas o conceito da catarse. São filmes nos quais se reflete, como num espelho, a conservadora sociedade norte-americana dos anos 1950. É um mundo de aparência tranquila, mas só aparência. Por baixo da superfície, um mundo agita-se. Os filhos de Jane Wyman dão à mãe viúva uma TV em Tudo o Que O Céu Permite, à espera de que a mídia, que engatinhava, aplaque as necessidades afetivas da mãe. Ela se envolve com o jardineiro.

Em Palavras ao Vento, existem dois casais, o mundo é o dos milionários do petróleo, no Texas, e a grande oposição é entre o vacilante Robert Stack e o estável Rock Hudson. Na verdade, talvez fosse o contrário, porque Hudson, impedido de sair do armário pelo estúdio do qual era o maior galã - a Universal -, levava uma vida dupla para dar vazão a seu homossexualismo reprimido. Essa oposição entre personagens estáveis e vacilantes dá o tom do cinema de Sirk, e não raro os coadjuvantes roubam a cena.

Não apenas Dorothy Malone - a Zarah Leander norte-americana de Sirk - ganhou o Oscar de coadjuvante por Palavras ao Vento, como Susan Kohner, a filha negra de Juanita Moore, que se faz passar por branca em Imitação da Vida, garante ao filme sua maior intensidade. Não por acaso, numa certa época o filme foi rebatizado como Odeio Minha Mãe, ao passar na TV. Imitação da Vida é perfeito, até pelo que evoca de crítica no cinema de Sirk. O que ele discute são 'aparências'.

Jean-Luc Godard era louco por Amar e Morrer. Preconceito, drogas, bebida, racismo - aqui, o inimigo do herói sirkiano, e ele não é mais Rock Hudson e sim, John Gavin, é a guerra. Há uma cena de enterro. O carro fúnebre desliza sozinho numa rua deserta por causa de um alerta aéreo. Outro funeral, o de Imitação da Vida, é suntuoso, com direito a gospel (na voz de Mahalia Jackson), e a desespero da filha arrependida. O funeral de Imitação da Vida encerra a obra cinematográfica de Sirk, que abandonou os EUA, voltou à Europa e se dedicou ao teatro, até morrer.

Funerais metaforizam o fim de alguma coisa, de uma época. Neste sentido, a obra de Sirk é única. Ele, conscientemente, a encerrou. Além dos melodramas, a mostra do CCBB, resgatando todo Sirk, vai exibir O Capanga de Hitler, em que o cineasta denuncia a loucura do nazismo, e o western Herança Sagrada, com Rock Hudson na pele de Taza, o filho do lendário Cochise. Na entrevista a Holliday, Sirk conta que ficou amigo de Budd Boetticher. Encontravam-se nos corredores do estúdio. Sirk perguntava - "O que você está fazendo, Budd?" Só um condenado western, era, invariavelmente, a resposta. E você? "Um condenado melodrama", respondia Sirk. Brincavam entre si, mas o 'condenado' não era acidental. Os westerns de um, os melodramas de outro são espelhos de uma sociedade que iria enlouquecer em seguida.

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