Cícero Dias e o dia em que choveu "Liberdade"

Está faltando uma obra importantenos necrológios do artista Cícero Dias: a chuva de papel com opoema Liberdade, de Paul Éluard, despejada sobre a Europaocupada por tropas alemãs, em 1943, por aviões de guerraingleses. Essa obra pouco conhecida valeu a monsieur Cicinho, oparisiense dos canaviais de Jundya, no litoral de Pernambuco, acondecoração com a Ordem Nacional do Mérito da França, em 1999.As pernas já lhe doíam quando foi receber a medalha naUnesco. Mas só: Cícero Dias estava ativo, bem-humorado, amemória boa, maravilhado com a internet, atualizado com o Brasile o mundo - e um bom copo. "Que vamos tomar?", perguntava. Ese servia de mais uma dose de uísque.O amplo apartamento em Paris estava inundado do sol daprimavera. Mas C.D., como ele se anunciava no térreo, vestia umcachecol e paletó de lã, a bengala ao alcance da mão. As paredeso expunham em sua fase abstrata, geométrica, ainda colorida dePernambuco - um "colorido insolente" para a amiga e escritoraRachel de Queiroz. A maquete de um museu ideal, no corredor, erao único vestígio da carreira de arquitetura abandonada em 1928,no Rio de Janeiro. Por seus três andares havia preciosasminiaturas feitas especialmente por Picasso, Vasarely, Calder eLéger.Picasso também estava numa pequena foto com Sylvia Dias,de quem foi padrinho, filha única de Cícero e da francesaRaymonde, casados em 1943. Na dedicatória: "A mi filhinha y conum beso." A afilhada tornou-se artista. Ainda havia um Picassoinvisível, embora onipresente: uma natureza-morta que pagou aentrada do apartamento, numa área nobre de Paris. Foi elepróprio quem sugeriu a venda quando Dias reclamou: "Quero oquadro para ver todo o tempo, e não para guardar dentro de umcofre."Eram muito amigos. O telefone de Picasso ficou por 12anos em nome de Dias. Não queria ser incomodado? Sorrisomalicioso, e um comentário: "O homem tinha três, quatromulheres, e estava sempre metido em tremendas brigas com pelomenos duas delas." A amizade rendeu a viagem do célebre painelGuernica para a 2ª Bienal de São Paulo. "Consegui convencê-lodurante um almoço, mas confesso: saí com indigestão."Dias partiu do Rio para Paris em 1937. Com a ocupação daFrança pela Alemanha e a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial,em 1942, ele acabou detido numa cidade alemã, Baden-Baden. Apósseis meses, trocado por prisioneiros nazistas com outrosbrasileiros, como Guimarães Rosa, chegou a Lisboa. E foi de láque partiu para "a missão" da qual tanto se orgulhava, simplese perigosa: voltar à França, pegar um poema do amigo poeta PaulÉluard, que lhe mandou biscoitos enquanto esteve preso, epassá-lo a outro poeta em Londres, o surrealista Roland Penrose,piloto da Royal Air Force, RAF. "Se os alemães me pegassem, pá!, me matavam." Do poema, Dias cortou palavras-chave,principalmente "liberté", logo no título. Depois as reporia.O poema ficou dentro de uma mala na prateleira debagagens vazia de um vagão de trem com refugiados espanhóis eportugueses. E Dias sentou-se distante. Se a revistassem, nãosaberiam a quem pertencia. Veio a Gestapo. Um soldado lhe pediuo passaporte. Gritou para outro, na frente: "Brasilianer!" Maso devolveu. E não revistaram o maleiro. Já na Espanha, um susto:"A polícia queria saber como eu, brasileiro, tinha cruzado afronteira." Não havia o que discutir, só lembrar que "o Brasilnão estava em guerra com a Espanha". Assim ele chegou a Lisboa,de onde a Embaixada britânica despachou o poema diretamente paraPenrose, num avião militar, dispensando-o de ir entregá-lopessoalmente.Alguns dias depois, a arma surpreendente, um dos maisbelos poemas da Resistência francesa, Liberté, cairia doscéus da Europa.Liberdade (também conhecido como Um Só Pensamento)Nos meus cadernos de escolaMinha carteira e nas árvoresNas areias e na neveGravo o teu nomeEm cada página lidaEm cada página em brancoPapel pedra sangue ou cinzaGravo o teu nome(...)Nas maravilhas das noitesOu no pão branco dos diasNas estações em noivadoGravo o teu nomeNos meus farrapos de azulNo charco que é sol mofadoNo lago que é lua vivaGravo o teu nome(...)Nas formas resplandecentesOu no carrilhão das coresNa simples verdade físicaGravo o teu nomeNos atalhos acordadosNas estradas desdobradasOu nas praças transbordantesGravo o teu nome(...)No meu cão guloso e ternoNa sua orelha espetadaNa sua pata sem jeitoGravo o teu nome(...)Na vidraça das surpresasNos lábios que estão atentosMuito acima do silêncioGravo o teu nomeNos meus refúgios destruídosNos meus faróis destroçadosNas paredes do meu tédioGravo o teu nomeNa ausência sem mais desejosNa solidão toda nuaEm cada degrau da morteGravo o teu nomeGraças a uma só palavraRecomeço a minha vidaNasci para conhecer-teE chamar-teLiberdade.(in Poetas de França, Companhia Editora Nacional, 3.ª ed., 1958. Tradução de Guilherme de Almeida)

Agencia Estado,

30 de janeiro de 2003 | 20h30

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.