Cibele Forjaz e as muitas vozes de Dostoiévski

Cibele Forjaz e as muitas vozes de Dostoiévski

Diretora encena o romance O Idiota, para muitos a obra-prima do escritor

Guilherme Conte, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2010 | 00h00

É a ária das Variações Goldberg, de J. S. Bach, que embala o público no início de uma viagem a uma São Petersburgo de outros tempos. Uma certa atmosfera de ritual paira sobre o galpão do Sesc Pompeia durante o ensaio acompanhado pela reportagem do Estado, quando os atores se despem de suas roupas para vestir os figurinos dos personagens que passam a encarnar. Está começando O Idiota - Uma Novela Teatral, ambiciosa aventura que estreia hoje, sob a batuta de Cibele Forjaz.

Para transpor o extenso romance de Fiódor Dostoiévski, de 1869, ao palco - em um trabalho que levou dois anos, envolvendo diferentes projetos, programas de incentivo e oficinas -, os 50 capítulos originais foram condensados em 12 e divididos em três partes, apresentadas em dias alternados (parte I às terças e sextas, II às quartas e sábados e III às quintas e domingos).

As escolhas da adaptação, assinada por Aury Porto (que vive o príncipe Míchkin) em parceria com Luah Guimarãez e Vadim Nikitin, oferecem uma chave de compreensão para a obra. A grande "teatralização" talvez resida no que Cibele definiu como "fendas", em que as digressões do narrador onisciente e onipresente do romance viram, em cena, imersões na interioridade dos personagens. "Essas travessias passam por toda uma concepção espacial que radicaliza as interrupções do fluxo narrativo", explica a diretora.

Outra opção dramatúrgica com implicações determinantes para o espetáculo foi sublinhar os momentos do livro em que as tensões se deixam transparecer, mais ou menos explosivas. "Interessou-nos, sempre, o embate de subjetividades, com os personagens vivendo e falando por si", diz Cibele.

Ela ressalta que a pluralidade dessas subjetividades em choque é uma das características fundamentais da obra de Dostoiévski; uma pista para tentar explicar a profusão de adaptações de seus livros para o palco - a primeira ocorreu há exatos cem anos, quando Vladimir Nemiróvitch-Dantchênko encenou Os Irmãos Kamarazov. "Essa noção de polifonia, que está em muitos comentadores, sobretudo em Bakhtin, foi fundamental para nós."

Este foi o alicerce que serviu de base para a trupe acompanhar a viagem de Míchkin, um príncipe sem dinheiro que regressa à Rússia para procurar uma parente distante após uma temporada na Suíça para tratar de sua epilepsia. No trem que o leva a São Petersburgo, seu destino se cruza com o do impetuoso Ragôjan, um homem bruto recém-enriquecido, apaixonado pela sedutora Nastássia Filípovna. A ideia de "novela" recupera um ar de folhetim do romance, originalmente publicado em capítulos. "E também conversa com um admirador confesso de Dostoiévski: Nelson Rodrigues", diz Cibele.

Um elenco jovem e vigoroso, formado por integrantes de diferentes grupos da cena teatral paulistana (Mundana Companhia, Teatro Oficina, Teatro da Vertigem, Cia. Livre e Cia. da Mentira), dá vida às paisagens literárias de Dostoiévski. A aposta em "atores-criadores" é uma constante no trabalho de Cibele desde Arena Conta Danton.

O público é levado a um trem, a uma festa de aniversário ou a uma modesta casa por meio de uma encenação que joga diretamente com a imaginação de cada um. Uma poesia visual generosa costurada com esmero, mostrando que literatura e teatro são irmãos que se querem muito bem.

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