Cia. Pia Fraus põe 30 bichos no palco

Tão grave como o real processo de extinção da fauna brasileira é a extinção dessa mesma fauna no imaginário coletivo. Pelo menos essa é a crença de Beto Andretta e Beto Lima, fundadores da Pia Fraus - companhia que vem criando uma linguagem própria a partir de variadas técnicas, entre elas, teatro de bonecos, animação e dança. Ambos os Betos são os criadores, em parceria com Hugo Possolo (Parlapatões), do espetáculo Bichos do Brasil, que estréia sábado no Teatro Cultura Inglesa.Confeccionados com materiais como cabaças, tecidos, plástico e fibras, cerca 30 bichos diferentes sobem ao palco, um total de 150 bonecos, num espetáculo plástico e sensorial de grande beleza. "A extinção dos bichos de nossas florestas começa no imaginário, assim como sua preservação. Atualmente, a fauna africana - leões e elefantes - está mais presente na nossa imaginação do que a brasileira", comenta Possolo.O espetáculo tem censura livre e potencial para encantar espectadores de todas as idades. Micos cheios de ginga, maritacas, tucanos, galinhas d´angola, um terrível, esfomeado e divertidíssimo jacaré, peixes, uma imensa e sinuosa cobra são alguns dos bichos que aparecem nesse espetáculo sem palavras, mas com excelente trilha musical assinada por Gustavo Bernardo, Marco Boaventura, Ricardo Iazzetta e Teo Ponciano.Só para dar um exemplo de sintonia entre trilha e imagens, o urubu dança ao som de um ponto de macumba. Num dos bons momentos do espetáculo, dois micos disputam os galhos de uma árvore com sonoridades diferentes - samba e um instrumental que remete ao jazz - até dançarem juntos ao som da bossa nova. Provoca gargalhadas, ainda, a cena do jacaré que tenta inutilmente saciar sua fome, sempre driblado por sua caça. Até o momento em que descobre um truque "infalível" para atrair suas presas. Antes disso, porém, até mesmo a platéia corre o risco de virar "comida" de jacaré.Com 18 anos de existência, dezenas de prêmios nacionais e até mesmo internacionais no currículo, a Pia Fraus mantém atualmente sete espetáculos em repertório. Beto Lima é também responsável pelo desenho, confecção e manipulação dos bonecos, além de assinar cenário e figurinos. No palco, além dos dois Betos, está a atriz Isabela Graeff."Esse talvez seja o mais abstrato de todos os espetáculos da companhia. Evitamos contar histórinhas. O espetáculo não tem uma estrutura dramática. A idéia é, através de bonecos e imagens plásticas, envolver sensorialmente o público com um universo que ele conhece, mas tem pouco ou nenhum contato direto", afirma Possolo.Para atingir esse envolvimento, a companhia utiliza vários tipos de manipulações diferentes. Em todas essas formas, buscam uma perfeita integração entre atores/manipuladores e bichos. "Não escondemos a manipulação, não procuramos torná-la invisível, valorizando apenas o boneco", diz Andretta. Nesse espetáculo, os atores dançam e até, em alguns momentos, interagem com os bonecos."Tenho três filhos e quando os vejo brincando, percebo que não cresci. No fundo o que a Pia Fraus faz é criar brincadeiras com imagens", diz Andretta. "Nós somos artistas plásticos de formação e por isso a gente se expressa por meio de imagens." Brincadeira, mas nem sempre. O espetáculo que deu projeção nacional à trupe, em 1996, Flor de Obsessão, baseava-se na universo de Nélson Rodrigues. Em Bichos do Brasil, a primeira cena chama atenção pela beleza e apuro de linguagem: figurinos, elementos de cena e coreografia remetem a rituais indígenas, mas também lembram a linguagem codificada do teatro oriental.Serviço - Bichos do Brasil. Sábados e domingos, às 16 horas. R$ 5,00 (estudantes) e R$ 10,00. Teatro Cultura Inglesa ? Pinheiros. Rua Deputado Lacerda Franco, 333, Pinheiros, zona oeste de São Paulo, tel. 3814-0100. Até 28/4. Estréia sábado

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