Cia. Fraternal apresenta peça poética e desconcertante

No saguão do Teatro Fábrica, o ator Edgar Campos vem recepcionar o público antes do início de A Memória das Coisas, o novo espetáculo da companhia Fraternal , como os anteriores dirigido por Ednaldo Freire com texto de Luís Alberto de Abreu, que estréia sábado. "Por favor, um pouco de vossa atenção", pede. "Fui indicado pela companhia para tentar explicar a vocês como é que vai transcorrer esta representação. Como vocês já devem começar a desconfiar, uma peça que precisa de explicação..." O ator reclama de seu papel de ´condutor´ do público até o subsolo do Fábrica: "Dizem que o teatro contemporâneo exige espaço pouco convencional, mais sensorial, um espaço de relações novas entre público e espetáculo, onde o público, vocês, sejam sacudidos da relação estável e passiva do espetáculo comum! Uma interação mais efetiva entre o palco e a platéia, entendem? Se entendem, me expliquem, porque eu não atino com a necessidade." O prólogo não engana. O humor está presente e também a linguagem contemporânea. Não há uma história linear, apenas fios de memória puxados por personagens, num texto desconcertante de exuberante qualidade poética, que torna um prazer a simples audição das palavras. Quem acompanha o trabalho da Fraternal sabe que eles há muito vêm explorando duas vertentes presentes nesse espetáculo: a memória coletiva e a narrativa épica - os atores falam diretamente com o público e tecem comentários sobre a trama e os personagens. "Na criação desse espetáculo, pensamos em partir de um objeto qualquer da cidade, uma tampa de bueiro, por exemplo, e fazer uma arqueologia humana, descolar o tanto de história que poderia estar impregnada ali", conta Freire. Mas chamou a atenção do grupo um arco de pedra que existe na Avenida Tiradentes. O que será isso? Pesquisando, descobriram que era o antigo portão do Presídio Tiradentes, que durante a ditadura militar abrigou presos políticos. "Impressionante como a memória se perde, a gente não se lembrava mais disso", observa Freire. Não é a história do presídio que está em cena. Tudo começa porque um homem (Aiman Hammoud) passa por esse arco e, pirandellianamente, é cercado por personagens, por ele não reconhecidos, que tentam contar sua história. Abreu ressalta como elemento importante da peça a trajetória desse homem de 50 anos que esqueceu suas memórias. "Há uma geração assim. Quando jovens, queriam interferir sobre o mundo, agora que têm poder, não o usam, fingem que não têm. Antes eram só jovens, hoje são delegados, pais, gerentes, parlamentares. Têm poder, e não usam como deveriam." A síntese dessa idéia está na figura de dois palhaços, um cínico e um tolo, vividos por Mirtes Nogueira e Luti Angelelli. "Um homem de 50 anos preocupado apenas consigo mesmo ou é tolo ou é cínico." Memória das Coisas. Teatro Fábrica São Paulo - Subsolo 1 (100 lug.). R. da Consolação, 1.623, Consolação, 3255-5922, metrô Consolação. Sáb., 19 h; dom., 18 h. R$ 20. Até 1/10

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