Cia. Fraternal apresenta peça Memória das Coisas

O teatro dentro do teatro é uma marca de nascimento da Companhia de Artes e Malas-Artes. Desde seus primeiros espetáculos, há mais de uma década, esse grupo estável que tem o privilégio de contar com um excelente dramaturgo-residente, vem explorando a vertente derivada do romanceiro popular. Personagens fixos, máscaras cômicas de antiquíssima tradição, protagonizam narrativas que, de um modo geral, se inspiram nas proezas do homem comum cumprindo a epopéia gloriosa da sobrevivência.No bem-sucedido currículo do grupo intercala-se, no entanto, um trabalho cuja fonte, mais abstrata, é o estudo teórico da tradição cômica. Em Mastedê, peça encenada em 2001, a fronteira indistinta entre os gêneros, os dilemas da criação e uma inquietação nervosa que contemplava o leque infinito das opções estéticas contemporâneas apareceram pela primeira vez como assunto nuclear. Este grupo que, até então, se definia estilisticamente pela exuberância cômica e pela nitidez épica enfrentou pela primeira vez um texto que exigia semitons. Os trabalhos posteriores - em especial o plangente Borandá - se beneficiaram muito do veio aberto experimentalmente em Mastedê.O mesmo tipo de inquietação em relação às fontes da invenção teatral reaparece em Memórias das Coisas. Desta vez, porém, não são temas relativos à formalização que ocupam o centro da peça de Luís Alberto de Abreu. Contornados pela moldura cômica de um apresentador aflito pela recompensa que a arte promete ao público, os assuntos que desfilam neste espetáculo são, de modo direto ou indireto, relacionados com o psiquismo da criação.Não se assustem por isso os fiéis espectadores desse grupo porque nada indica uma inclinação tardia para o drama psicológico. Bem ao contrário, o intuito narrativo e a vocação instrutiva estão bem nítidos. O prólogo brincalhão e as artimanhas do condutor do jogo teatral procurando organizar a cena constituem comentário paródico a algumas poéticas contemporâneas e nessa graça ferina se incluem os autores do espetáculo. Representando em chave entusiástica, contra todo o pedantismo e com algum pudor em exibir-se de modo sério, a Malas-Artes conduz o seu público a um território novo. O psiquismo a que se refere esta peça é coletivo, um fenômeno que o espetáculo discute no plano conceitual e além da esfera do sujeito.Em vez de um indivíduo dotado de pré-história e emoções vinculadas a essas experiências singulares, há um protagonista, homem no meio do caminho da vida, cuja memória é ativada por um marco arquitetônico. A partir dessa informação, a seqüência de impulsos mnemônicos se desliga progressivamente do indivíduo. O homem apresentado como protagonista se torna logo narrador das experiências de um outro, "aquele homem". Desdobra-se. Outros personagens rememorados se tornam ponto de origem de narrativas estranhas à experiência de quem as relata. Ou seja, a partir de um marco histórico todos podem lembrar porque há nas pedras e nas substâncias sensíveis uma memória histórica retida, impregnando moléculas aparentemente em repouso.Criando uma figura espiralada a partir de um núcleo duro - o pórtico de uma prisão onde padeceram escravos, sentenciados comuns e prisioneiros políticos -, o espetáculo vai agregando imagens mais ou menos próximas do significado histórico do monumento. De modo indireto, todas as lembranças têm algo a ver com o arco de pedra que as põe em movimento. Por analogia ou de modo literal, prisões de pedra, prisões emocionais e outras formas de aprisionamento se mesclam no território fluido da memória. Em resumo, as coisas que compõem a fisionomia de uma cidade dizem respeito a todos e amalgamam passado e futuro, vida pessoal e experiência histórica.Ednaldo Freire imprime ao espetáculo a forma de um friso. Depois do prólogo liderado pelo gracioso, as cenas, na sua maior parte, se acomodam em suportes laterais contornando o espaço da platéia. O tom das interpretações é comedido para que os relatos soem como uma construção gradual da memória que procura palavras para se expressar. São ótimas resoluções, sobretudo para os episódios de extrema crueldade. No teatro, um torturador manso e "racional" sempre inspira muito mais terror do que um psicopata estertorando.Talvez haja alguma explicação para justificar figurinos matéricos, cheios de buracos ou sobras de pano que não enfeitam e tampouco se relacionam de modo claro com um repertório de informações históricas. O terrível e o grotesco nem sempre se apresentam sob a mesma forma e a roupagem deste espetáculo, com ênfase na distorção, não trata com o mesmo cuidado a lembrança das pequenas catástrofes cotidianas que também cimentam o pórtico de pedra deste espetáculo. Memória das Coisas. 100 min. 14 anos. (100 lug.). Teatro Fábrica São Paulo - Subsolo 1. Rua da Consolação, 1.623, 3255-5922, Sáb., 19 h; dom., 18 h. R$ 20. Até 1/10

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