Eduardo Almeida/Divulgação
Eduardo Almeida/Divulgação

Cia. dos atores, fiel à sua vocação libertária

Em 'Devassa', composições narrativas são inquietantes

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2011 | 00h00

São imprecisas as atribuições dos tradutores e igualmente indefinidos os limites de uma adaptação, mas ambas tarefas só podem ser bem-sucedidas quando a intermediação entre uma língua e outra ou entre o texto e a cena recriam o original. A Cia. dos Atores, fiel antes de tudo à sua vocação libertária de fazer ostensivamente o que quer com aquilo que gosta, cria seu espetáculo a partir de uma das mais célebres personagens da obra de Frank Wedekind. Embora a ficha técnica impressa no programa esbanje créditos de autoria (dois tradutores, adaptação assinada pela direção e pelo elenco), o que vale, ao fim e ao cabo, é a liberdade poética com que um grupo de criadores se aproxima de uma narrativa do século 19. Em resumo, é larga a distância entre o texto de Devassa e as peças que inspiram essa invenção contemporânea.

Infiel à letra, contudo, a adaptação captura o que interessa, ou seja, extrai das peças um sentido que parece importante sem se preocupar com a neutralidade diante do "clássico". Faz parte da identidade desse grupo carioca exibir em cena o modo como se reapropria da herança cultural e o mesmo procedimento orienta a direção de Nehle Franke. Em face de uma personagem renascida em incontáveis avatares nos palcos e nas telas, a ótica privilegiada pela encenação do espetáculo contempla a história dessas sucessivas representações. Por muito tempo, e, em grande parte, devido a um modo de produção teatral que se apoiava nesse foco luminoso de sedução que é o grande intérprete, a Lulu concebida por Wedekind como uma espécie de objeto erótico passivo e amoral transformou-se em musa sedutora e "femme fatale". É mais do que compreensível que essa referência à atração irresistível de uma criatura aparentemente livre tenha prevalecido na imaginação de uma época em que as pessoas comuns viviam sob pesadas interdições sexuais. No palco de outrora, a mulher que atrai à loucura os que a rodeiam merecia ser encarnada por Jeanne Moreau e outras atrizes de porte semelhante. Até a metade do século passado, a caixa de Pandora, uma vez aberta, permitia entrever, em meio a outras coisas, a aura brilhante que cerca toda gratificação proibida.

A essa espécie de mitificação da potência erótica, o espetáculo da Cia. dos Atores contrapõe um centro vazio. Há outro código de conduta sexual em vigência e o inalcançável mudou de forma e conteúdo. Por esse motivo, em vez de uma coleante e enigmática figura feminina, misto de fragilidade e perversidade, há em cena uma Lulu infantiloide, desarticulada na movimentação, quase grotesca ao solucionar de modo rápido e desgracioso as aproximações amorosas e os breves contatos sexuais. As intervenções narrativas das outras personagens - homens e mulher que se deixam seduzir e arruinar - rodeiam esse ponto de referência sem que o espetáculo lhe atribua encantos óbvios. É o olhar do desejo que, no espetáculo, inventa alguma coisa invisível para os observadores de fora do palco. Do modo como o espetáculo apresenta essas personagens reinventadas, o impulso sexual (e também amoroso) só sobrevive na personagem da Condessa, que acompanha até o fim a trajetória decadente de Lulu. Isso também faz sentido no espetáculo porque a Condessa ainda idealiza o que não pode tocar. Desprovidos desse componente afetivo, todos os outros amantes se movem isolados, em meio a ambientes que se desintegram porque são, como as ambições das personagens masculinas, constituídos por fragmentos sem nexo aparente ou solidez. Em sucessão, o artista, o magnata e inclusive o fantasma do passado - signo da infância miserável em que o incesto e o comércio de crianças são ocorrências usuais - sucumbem vitimados por um fatalismo que parece estar aquém das pulsões.

Desenhado como um universo atemporal, sem características espaciais definidas, exibindo através de frestas o fundo obscuro do palco, o espetáculo enfatiza o ilusório da cena. Emoções usualmente associadas ao drama se tornam impossíveis porque as personagens narram a si mesmas, enquanto imitam alguns gestos convencionais do teatro amoroso. Ao todo, o espetáculo dirigido por Nehle Franck e cenografado por Aurora Campos tem a temperatura gélida das obras seriamente meditadas. São também neutros os tons escolhidos por Marcelo Olinto para os figurinos e essa compostura, associada à concepção intelectualizada das personagens em cena, desloca a atenção para a clareza dos discursos. São composições narrativas, esvaziadas da paixão erótica e, por essa razão, estranhas e inquietantes. Há uma força atraindo para a aniquilação, mas, na perspectiva do século 21, não se trata mais da supressão erótica. Ao que parece, o instinto de morte tomou o lugar da força vital e essa suspeita terrível faz com que o espetáculo termine de modo inquisitivo.

DEVASSA

Sesc Consolação. Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 32. Até 1º/5.

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