Leonardo Aversa/Divulgação
Leonardo Aversa/Divulgação

Cia. de dança Deborah Colker lança peça inspirada em romance russo

Com Tatyana, coreógrafa e bailarina investe pela primeira vez em espetáculo marcado essencialmente pela narrativa

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2011 | 00h00

Deborah Colker é uma artista incansável. Depois de estabelecer uma gramática para o corpo, que se desenvolveu em trabalhos diversos como Casa, Nó e Cruel, a bailarina e coreógrafa pretende agora contar uma história. Para isso, escolheu uma obra-prima, Eugene Onegin, romance em versos publicado em 1832 por Aleksandr Puchkin (1799-1837), considerado o pai do romance russo. O resultado é Tatyana que, depois de uma temporada no Rio de Janeiro e cidades do Nordeste, estreia amanhã no Teatro Alfa.

"O que me encanta nesse livro é a transformação dos personagens. Por meio deles, decidi falar sobre os sentimentos, mostrar o homem em sua essência", conta Deborah, que tem uma participação especial na montagem vivendo o próprio Puchkin.

A trama é simples: jovem rico, cosmopolita e entediado, Eugene Onegin decide abandonar as diversões da cidade grande para se refugiar em uma propriedade rural herdada do tio. Lá, conhece o jovem poeta Lenski, noivo de Olga Lárina. Onegin é apresentado também à irmã mais velha de Lenski, a contemplativa Tatyana, que se declara para ele. Onegin, no entanto, a rejeita. A narrativa caminha para um duelo fatal entre os amigos e um doloroso reencontro do casal, quando o passar dos anos deixou vestígios definitivos, transformações profundas e decisivas.

"A história é contada em dois atos, com os dançarinos se revezando nos papéis de Eugene e Tatyana", comenta Deborah, que já exercitara o ato de narrar em Ovo, trabalho que desenvolveu para o Cirque du Soleil, atualmente em cartaz em Calgary, no Canadá. "Ali, aprendi a contar uma história pois trabalhei com atores clownescos, algo que também era novo para mim." E, nessa época em que fazia constantes pontes aéreas entre Rio e Montreal, Deborah já flertava com a literatura russa - afinal, Crime e Castigo, de Dostoievski, era seu livro de cabeceira.

A obra de Puchkin já inspirou diversos artistas - desde a célebre ópera de Tchaikovski (1879) passando pelo filme Paixão Proibida (1999), com Ralph Fiennes, até chegar ao balé de John Cranko. Nada disso, porém, interessou Deborah, que se apaixonou mesmo pela história de Eugene Onegin. "Não pretendi fazer um drama histórico, nem entrar no romantismo ou tampouco localizar a narrativa em São Petersburgo", observa. "O que me interessa são aqueles personagens, especialmente Tatyana, que se revela uma subversiva para a época, pois é uma mulher que escolhe o seu amor e não é escolhida."

Deborah, que pediu para todos os dançarinos de sua companhia lerem o romance, dividiu a história em dois atos. O primeiro vai até o duelo entre Eugene e Lenski e cada personagem é vivido por quatro bailarinos. "Como são corpos diferentes, podemos apresentar diferentes facetas, ou seja, um é mais sedutor, outro mais passivo, um terceiro mais animado", explica Deborah. "Só a dança permite essa diferenciação."

No segundo ato, apenas Eugene e Tatyana estão em cena, interpretados por toda a companhia também no revezamento. E, ao longo de toda a montagem, Deborah surge como Puchkin, interagindo com as ações, desejos, pensamentos e modificações dos quatro protagonistas. A atemporalidade marca o cenário, criado por Gringo Cardia, uma grande árvore metálica, em torno da qual e em cujos ramos os personagens desenvolvem seus sonhos e angústias. Finalmente, a trilha sonora, remixada por Berna Ceppas, baseia-se em compositores russos, como Rachmaninov, Tchaikovski e Stravinski.

TATYANA

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, telefone 5693-4000. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40 a R$ 100. Até 18/9.

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