Frederico Rozario/Estadão
Frederico Rozario/Estadão

Cia. Alvin Ailey trouxe dançarinos impecáveis, mas faz apresentação sem nuances

Companhia americana impressiona pela qualidade do que faz e pelo cuidado com os acabamentos

Helena Katz - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2013 | 21h58

Foi no dia 30 de março de 1958 que tudo começou. Alvin Ailey (1931-1989) reuniu um grupo de jovens dançarinos negros e estreou a sua companhia, decidido a criar uma dança capaz de ser reconhecida como afro-americana. Dois anos depois, coreografou Revelations, obra que o projetou internacionalmente e se tornou a marca registrada do seu projeto artístico. Até hoje presente no repertório, ajuda a traçar não somente o arco que desenha a construção de um “corpo Alvin Ailey”, mas sobretudo a sua transformação em um bem-sucedido produto.

Ailey foi tecendo um padrão que se impôs mercadologicamente. Sua mistura de técnicas modernas de dança com o rigor das linhas do balé e a estetização de movimentos da tradição afro caiu no gosto do público que consumia dança. O resultado estético, temperado na medida exata por corpos lindos e tecnicamente impecáveis não pedia grande esforço para a sua aceitação e cumpria um importante papel social: pespegava nas suas plateias a confortável sensação de engajamento na luta contra o racismo que se fazia cada vez mais indispensável.

O programa estreado em São Paulo espelha o eixo estruturante que a fórmula assinada por Ailey tem na sua continuidade. As obras do jamaicano Garth Fagan (From Before, de 1978), de Robert Battle, o diretor artístico da companhia desde 2011 (Takademe, de 1999) e de Ronald K. Brown (Grace, de 1999), mesmo assinadas por diferentes coreógrafos, apontam para a consagração de um mesmo entendimento de gramática e de vocabulário que dá forma a este modelo de “dança moderna afro-americana”.

O elenco impressiona pela qualidade do que faz, pelo cuidado com os acabamentos, pela precisão dos tempos e controle das dinâmicas. Mas, pelo meio desse caminho de 55 anos, algo sucedeu com a musicalidade, que deu lugar a uma execução sem as nuances que temperam os passos quando a audição se expande para além do acompanhamento rítmico. A possibilidade de reconhecer assinaturas próprias nas interpretações também desapareceu. Nada disso sobreviveu à máquina de eficiência em que a companhia se tornou.

Sua apresentação em um local tão antidança quanto o Credicard Hall também deve ser computada. Sem a possibilidade de fazer do palco um convocador de foco, pois dele tudo escapa, os bailarinos não conseguiram fechar aquele circuito mágico que envolve a plateia no que estão fazendo.

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