Cia. Alaya Dança fecha ciclo com apresentação na Sé

Depois de 15 anos matracando, Lenora Lobo e a Cia. Alaya Dança anunciam que fecham um ciclo com a turnê que apresentam em São Paulo até hoje, graças ao Sesc e ao dinheiro público via Lei Rouanet repassado pelos Correios. O Alaya é a mais nova vítima do campo de extermínio aqui instalado pelo binômio Leis de Incentivo à Cultura - ausência de políticas públicas para a dança. Impedida de continuar como companhia por não conseguir pagar salários a seus bailarinos nem tampouco produzir e circular com suas obras, vai se transformar em Núcleo Alaya - uma solução nascida dentro do próprio grupo. Criar oportunidades engajadas com a distribuição de informação tem sido a tônica do percurso destes 15 anos de Lenora Lobo com o Alaya. Preocupada com a formação de seu elenco, Lenora desenvolveu um método próprio de ensino e criação que batizou como Teatro do Movimento e foi transformado em livro. O método funciona, seus bailarinos se tornam também criadores e, assim, para atender à nova necessidade de atuação, nasceu o Núcleo Alaya - espaço dedicado à criação dos bailarinos. Além do Núcleo, inventaram também uma Mostra de Criadores-Intérpretes, que já está na terceira edição. Nela, as produções do núcleo são mostradas ao lado da de outros profissionais convidados e de palestras, debates e workshops. É a mistura de tudo isso que se vê traduzida nos espetáculos do Alaya na forma de uma preocupação em atingir o público leigo. Voltada para tal objetivo, a sua dança buscou sempre um diálogo com a cultura popular e dele fez a sua moldura para investigar formas de relacionamento com o teatro e com a música. O espetáculo que encerra a existência da companhia, não à toa se chama justamente Matracar, pois matracar significa insistir, repetir - verbos perfeitos para descrever o dia-a-dia de quem, no nosso país, teima em fazer da dança o seu trabalho. Nele, encontramos uma bela síntese do sucesso do percurso do Alaya, uma vez que não se trata de um elenco de bailarinos, mas de um conjunto de seis artistas, cada qual com uma habilidade própria, muito bem explorada na obra. E todos eles revelam familiaridade no trânsito entre os dois ambientes (o da dança de palco e o da cultura popular). A conversa entre a tradição e o tempo de agora, presente em Matracar, aponta para um caminho ainda não explorado pelo Alaya. Surgiu um corpo mais percutido, e não somente no uso das matracas (instrumento popular formado por dois retângulos de madeira), mas também percutido pela música e pela fala e, sobretudo, pelo modo de dançar o vocabulário escolhido. As tradições do boi maranhense, do tambor de crioula, do cacuriá e das danças de roda parecem ter sido estudadas para revelar padrões comuns a muitas outras danças - como as umbigadas, os círculos, o sagrado e o profano nas rodas das saias e nos gestos anunciatórios. Sai-se de Matracar imbuído de uma responsabilidade pelo futuro, e não somente pelo futuro do Alaya. O espetáculo anuncia que o futuro depende do meu, do seu, dos nossos passos. O Alaya já deu o seu, transformando-se em núcleo. A nós, cabe darmos os nossos, aqueles passos necessários para que um dia os que desejam viver de dança no nosso país possam fazê-lo, e com a dignidade que merecem.. Matracar. Poupatempo. Praça da Sé. Hoje, 13 horas. Grátis.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.