Cia. 8 propõe relação corpo e música

O nascimento de mais uma companhia de dança é sempre motivo de júbilo num país sem políticas públicas para a área. Na quarta-feira, estreou no Centro Cultural São Paulo a Cia. 8, o mais novo produto do centro irradiador que é o Estúdio Nova Dança. Generoso na oferta de informação de qualidade, vem despertando também a necessidade de exteriorização dos pensamentos lá engendrados, daí a proliferação saudável de grupos com características próprias de atuação. A Cia. 8 foi criada no ano passado, tem direção de Lu Favoreto e foi selecionada para participar de Rumos Dança do Itaú Cultural. Apesar das dificuldades típicas a esse meio, a Cia. 8 estreou sua primeira obra, "modos de ver" (assim mesmo, em letras minúsculas e haspeadas) e com ela demarcou que pertence ao território habitado pelos que entendem a dança como um lugar para o lançamento de hipóteses e sua discussão e não como uma moldura para a arrumação de passos e poses, por mais inteligente que ela seja. Só isso já seria motivo para uma aclamação de boas-vindas, mas há outro. O fato de "modos de ver" propor o relacionamento entre corpo como estrutura, música e cenografia aparece na busca da natureza de cada um deles porque a palavra-chave dessa criação parece ser mesmo natureza. Não natureza como paisagem, mas natureza como aquilo que nasce com a coisa. Assim, percebe-se a rejeição ao movimento impostado e um claro desejo de inventar um vocabulário não viciado pelas idiossincrasias da improvisação. Evidentemente, a tarefa apenas se inicia, pois se trata de proposta para uma vida inteira. Mas o início já é auspicioso, com frases preciosas. Os sete intérpretes da companhia preservam seus modos particulares de realizar o movimento e, no conjunto, tanto a intervenção musical de Carlos Nascimento como as falas gravadas constróem uma textura diferenciada, em que há uma independência nascida de uma co-dependência. Caminho instigante esse. Ao mesmo tempo é esse mesmo traço que irrompe entre ele, mas embrionário, como seria natural a um primeiro trabalho. Há um desequilíbrio interno no ritmo do fluxo das informações, que faz a obra se esgarçar demais em certos momentos. Mas isso não borra a conquista da Cia. 8, que nasce forte e com propostas fortes. Mais um filho do qual o Estúdio Nova Dança tem motivos de sobra para ser muito coruja. Cia. 8 - De hoje a sábado, às 21h30; domingo e feriado, às 20h30. R$ 8,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 24/6

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