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Chuva de empadas

Empadas. O cronista não imaginava tanta gente fissurada neste transcendental assunto

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2017 | 02h00

Duas graves questões, nos últimos dias, ocuparam os já sobrecarregados neurônios deste cronista. 

Uma delas deu trabalho, também, bem-vindo trabalho, a suas veteranas papilas gustativas, as quais se acham em atividade há um número já um tanto exagerado de anos. Têm sido, as mesmas, ininterruptamente exigidas desde o momento em que a seu dono, recém-expulso de uma exclusiva piscininha de líquido amniótico, foi dado sorver, na fonte, uma porção inaugural de leite materno. 

De lá para cá, ditas papilas vêm refinando a lista de suas predileções e abominações. Entre as últimas figuram, para começar, os miúdos de todo e qualquer animal, sejam eles nobres, como o coração, ou obscuros, como o baço, exceção feita à untuosa víscera a partir da qual, mormente em terras de França, se prepara o paté de foie gras. Além dos miúdos, certos bichos servidos inteiros, nenhum deles mais repulsivo que uns gafanhotos caramelizados que o escriba viu serem degustados num restaurante japonês de Copacabana. 

Quanto às predileções, fiquemos, aqui, com um clássico dos salgadinhos: a empadinha, relevante assunto ao qual o cronista, em mais de uma ocasião, já dedicou palmos de prosa, e que, nos últimos dias, estando ele no litoral carioca, uma vez mais veio requerer seus cuidados, sob a forma de uma imperiosa indagação: onde, senhoras e senhores, se pode encontrar a melhor empada de camarão do Rio de Janeiro? 

Lançada na conversa com amigos e no Facebook, a consulta desencadeou uma profusão de indicações que o cronista, não tendo, ainda, tido tempo de conferir todas elas, por ora se limita a listá-las - sem com isso, porém, esconder seu entusiasmo por determinada epifania gastronômica que recente peregrinação lhe proporcionou, como adiante se verá.

Vamos à apuração do que já veio nas redes do cronista. Sabendo-o mineiro, sua coestaduana Denise recomendou simplesmente pegar um voo para Belo Horizonte - o que fez também o José Eduardo, para quem não há, naquela cidade, empada melhor que a do exclamativo Kidelícia. A conferir. Já se contou aqui que em algum momento dos anos 80 a empadinha campeã na capital mineira estava, não em restaurante ou lanchonete, mas na cantina de um hospital, o Mater Dei. Com direito, acrescentou certa má língua, a internação para tratar eventuais distúrbios gástricos subsequentes. 

Mas o foco da enquete em curso, não custa lembrar, limita-se ao Rio de Janeiro, onde a Celina, a Ercília e a Valéria não hesitaram em votar na empada do Talho Capixaba, aninhada num receptáculo de madeira. A mesma Valéria, numa elogiável poligamia empadônica, sufragou também o salgadinho do abençoado Mosteiro, aonde suas papilas gustativas vão amiúde em romaria. Já o Léo votou no que se serve no Bar Urca - em cujo cardápio a Conceição, por sua vez, destaca não a empada, que ainda não provou, mas o pastel de camarão.

Outro que prestou a todos um favor ao fugir ao tema foi o Mario, ao indicar, enfático, as pataniscas de bacalhau do Pavão Azul. À empadinha da Casa do Alemão, sua preferida, o Antonio acrescentou o croquete, “o melhor do sistema”, servido no mesmo endereço - escolha que o Sérgio e a Semíramis encamparam no ato.

Na empada de camarão do Bracarense votaram o Cristiano, a Isa e o Felipe. Já a Olívia, a Alice, o Gerson e o Paulo cravaram voto & dentes na que serve a Salete, na Tijuca. Dois Joões, um deles também Pedro, sufragaram a Dona Empada X, de Botafogo. A Annamaria não titubeou: o Chico e Alaíde! O Belmonte, disse a Mariana sem titubear. A Valéria e a Olívia, que já haviam declarado suas preferências, permitiram-se um segundo voto, não menos entusiástico, no Jobi. O Antonio Carlos ainda não se pronunciou, mas não será surpresa se eleger, senão empada de camarão, alguma iguaria igualmente apetitosa do cardápio de famoso chá que às quintas-feiras se realiza, para uns poucos, em luzidio endereço da Avenida Presidente Wilson, no centro do Rio de Janeiro.

Mais votada do que qualquer outra até o momento em que encerrávamos esta edição, a empada de camarão do Caranguejo tem entre seus fiéis a Ana Maria, o Nelson, o Diogo, a Suzana e o Gerson. Dela se pode dizer o que disse Pedro Nava daquelas que saboreava, nos anos 20, no finado Trianon, de Belo Horizonte: “Eram pulverulentas apesar de gordurosas, tostadas na tampa, moles do seu recheio farto de galinha ou camarão. Desfaziam-se na boca. Difundiam-se no sangue”.

Estavam as apurações nesse pé quando três amigos cariocas passaram para recolher o cronista, com a promessa de conduzi-lo a mesa sem erro - a qual resultou ser exatamente o citado Caranguejo, boteco numa esquina de Copacabana, de pronto convertido pelo neófito em endereço obrigatório, sem prejuízo, naturalmente, dos já citados e de quantos mais lhe venham a ser recomendados por outros devotos da empada. 

Epa... Lá primeiras linhas se anunciou papo sobre duas graves questões, e eis que a primeira abocanhou o espaço inteiro. O objeto da segunda não contém recheio, e muito menos é de se comer, mas nem por isso deve ser considerada menos relevante que o da primeira, assunto do cronista na semana passada: a proliferação, Brasil afora, de estátuas que, por não repousarem em pedestais, e sim ao rés do chão, o cronista qualificou de “pedestres”. Não é que a conversa rendeu? Pode ter mais na semana que vem. 

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