Christian Boltanski expõe no Brasil pela primeira vez

Artista francês, referência contemporânea, faz sua primeira individual no País, a mostra 'Chance'

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Por Redação
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Questões como identidade, destino e acaso são a matéria-prima de Christian Boltanski, figura central da arte francesa e referência incontestável da produção contemporânea, que inaugura amanhã, para convidados, no Rio, sua primeira mostra individual no País. Intitulada Chance, a exposição traz quatro obras interconectadas, três das quais ocuparam com destaque o pavilhão da França ano passado na 54.ª Bienal de Veneza. "Uma questão que sempre me perseguiu foi a de por que existo", analisa Boltanski, tentando definir o que constitui a essência de sua investigação desde os anos 60 e que continua sendo o cerne de sua reflexão, plástica e poética. Ao visitar, a partir de sexta, o espaço da Casa França-Brasil, o espectador se verá diante de uma grande engrenagem, que, segundo seu autor, remete às antigas rotativas de jornal, na qual se movimentam retratos anônimos de bebês. De tempos em tempos, uma sirene toca, o sistema para e uma das imagens, aleatoriamente eleita pelo computador, é projetada numa grande tela, expondo metaforicamente o caráter imponderável da existência humana. Roda da Fortuna, como diz o próprio título, propõe uma visão terrivelmente concreta daquilo que se pode chamar de sorte. Ou azar. Complementando essa grande instalação, outros três trabalhos se debruçam sobre a mesma questão. Um deles expõe visualmente - em grande telas de projeção - dados reais sobre o número de nascimentos e mortes no mundo. Podemos ser um pouco otimistas, ele ironiza, já que no mundo de hoje nascem seis pessoas por segundo, enquanto morrem quatro. Ser de Novo é uma espécie de caça-níquel em que milhares de rostos de crianças e velhos se mesclam reafirmando que todos nós somos como quebra-cabeças, uma soma daqueles que nos precederam. Em sua versão veneziana, Ser de Novo premiava o visitante que conseguisse paralisar o mecanismo no momento certo e remontar uma fisionomia completa. Um deles conseguiu a façanha, cuja probabilidade é de uma em 20 mil. E finalmente uma montagem em que vemos o rosto do artista se metamorfosear, da infância aos dias de hoje. Apesar de revisitar a sua infância e a dos outros com frequência, ele recusa aí qualquer relação doce ou nostálgica com essa fase da vida. "Trata-se apenas da primeira parte de nós que morre, sempre", diz. "Não sou um artista intelectual, falo de assuntos que interessam a todo mundo", afirma Boltanski, cuja obra cirúrgica, ao mesmo tempo terrível e esperançosa, pôde ser poucas vezes vista no Brasil, apesar de exercer grande fascínio. Ele se lembra que mostrou seu trabalho na 18.ª Bienal de São Paulo. E indagado o porquê de tão poucas exibições, atribuiu isso à falta de oportunidades. Quanto à repercussão mesmo a distância, afirma que isso é a "beleza da arte": "Falamos da nossa própria aldeia e ao mesmo tempo conseguimos algo coletivo e universal." Dentre as questões mais pungentes tratadas por Boltanski está o Holocausto. Não que tenha jamais tratado o drama como tema. Em sua obra não há referências ou imagens explícitas relacionadas a isso, mas há evidentemente uma ligação traumática que vincula o filho de pai judeu e mãe cristã, nascido em 1944, menos de um mês após a libertação de Paris, à sina das vítimas da Segunda Guerra Mundial. "Da mesma forma que o trauma de Louise Bourgeois foi sua relação com o pai, a minha foi o Holocausto." Boltanski faz questão, no entanto, de pontuar que seu trabalho "não é político, é moral". E que tampouco tem a ver com reducionismos históricos. Segundo ele, não existe progresso em arte. Mudam apenas os nomes e as formas de trabalhar questões recorrentes como a busca de Deus, a morte, sentimentos como amor e inveja... "Sou um artista de hoje e por isso trabalho com os meios de hoje", diz. Para Boltanski, a arte no fundo é apenas "um meio de colocar questões e dar emoções". Meio que pode assumir as mais diferentes formas. Uma das que vem explorando recentemente é curiosa: Boltanski tornou-se um colecionador de batimentos cardíacos, que registra e guarda em uma fundação que criou no Japão. Já são mais de 40 mil arquivos e a ideia é ir ampliando essa coleta sem limites, de forma que se possa ouvir (ou sentir) a vida de quem já se foi, de quem um dia existiu.

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