Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Choro e riso com os italianos

Com direção de Clarisse Abujamra e texto do canadense Steve Gallucio, comédia já inspirou filme

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2011 | 00h00

É com uma comédia pincelada de melodrama que São Paulo abre a temporada teatral de 2011. Mambo Italiano, que entra em cartaz a partir de amanhã no Teatro Nair Bello, foi escrita pelo canadense Steve Gallucio e ganhou o mundo depois de arrebatar as plateias de Quebec no início dos anos 2000.

O sucesso amplificou-se em 2003, quando a trama serviu de base para o filme do diretor Émile Gaudreault, com roteiro coassinado pelo próprio dramaturgo e uma inspirada participação de Paul Sorvino, o veterano ator norte-americano, no elenco.

A peça agora chega aqui pelas mãos da atriz Clarisse Abujamra, que assume a tradução e direção do espetáculo, e se revela entusiasta das oscilações entre o registro cômico e o dramático que atravessam o texto de Gallucio. "É fascinante a ideia de fazer o público rir e conseguir emocioná-lo ao mesmo tempo", comenta a diretora. O enredo parte dos conflitos de Ângelo (Luciano Audrey), filho de uma conservadora família de italianos encabeçada por Maria (Claudia Mello) e Gino (Antonio Petrin).

Narrador e herói da história, Ângelo conseguiu a proeza de sair da casa dos pais - o que não parece ser algo trivial já que sua irmã Ana (Lara Córdula), mesmo aos 30 anos, ainda não alcançou o mesmo êxito.

Roteirista de seriados televisivos, o rapaz pena por não ser capaz de ajustar-se ao padrão sonhado pela família e mantém, às escondidas, um relacionamento com Nino (Jarbas Homem de Mello). Os dois se conhecem desde a infância. Vivem um romance feliz. Mas que não ousa insinuar-se para além das paredes do apartamento onde moram juntos.

É a vontade de expor-se por completo que vai desencadear os infortúnios enfrentados por Ângelo. O namorado, que não aceita ser visto como homossexual, resolve trocá-lo por uma "boa moça italiana" e opta por um casamento de fachada. E a relação com a família - mantida, até então, à custa de muitas verdades caladas ao longo dos anos - implode de vez.

Os pais relutam em aceitar a predileção sexual do filho. Ângelo, por sua vez, traz à tona todo o rancor que guarda do passado, sua ojeriza aos costumes que Maria e Gino trouxeram da Itália e fazem questão de manter intactos. "Existe um deslocamento dele com relação a essa família, que trouxe a Itália para dentro de casa", observa Abujamra.

A descrição do mote que move Mambo Italiano talvez suscite dúvidas sobre seu caráter cômico. Não parece, afinal, que imbróglios dessa natureza sirvam bem ao propósito de fazer rir. É aí que cabe destacar a alma napolitana desse clã. "O embate entre Ângelo e Nino é sempre sério. Toda a comédia fica nas mãos da família", diz a diretora.

Para ficar na comparação com outro filme que se utiliza do humor étnico, vale lembrar os tormentos da protagonista de Casamento Grego, Tula. No longa, ela pretende escapar da sina a que parece predestinada - casar, ter filhos e ser uma boa esposa. Mas, para isso, precisa livrar-se do jugo dos parentes. A família de Ângelo não difere muito da grega: é imensa, ruidosa, dada a cafonices sem-fim e a brigas constantes. Confusões regadas sempre, conforme reza a tradição, a muita comida, muito vinho e muito riso.

Minimalista. Para criar os efeitos cômicos da peça, o dramaturgo já declarou ter se inspirado na própria família e também nos seriados a que assistia quando criança. Foi daí também que ele retirou matéria-prima para Ciao Bella, sitcom que escreveu para televisão, no qual explora justamente a natureza hiperbólica dos italianos.

Com uma encenação que define como "minimalista", Clarice Abujamra trata de ressaltar a comicidade inerente ao texto. Centra-se no trabalho dos atores, apoiando-se essencialmente nas interpretações de Antonio Petrin e Claudia Mello - pais do protagonista - e Tania Bondezan, a defender o papel da siciliana Lina, mãe de Nino.

Outro recurso da diretora é aproximar a trama do público. Dessa forma, o que deveria ter como cenário um bairro de imigrantes no Canadá é transferido para a Mooca. Mas não será a imensa colônia de italianos em São Paulo o único fator de identificação com a plateia. "A identificação aconteceria em qualquer lugar. É uma comédia naif, delicada." E com final feliz, entrega a diretora.

MAMBO ITALIANO

Teatro Nair Bello. Rua Frei Caneca, 569, Shopping Frei Caneca, 3472-2414. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 60/R$ 70 (sáb.). Até 27/3.

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