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Chorar

Há o pranto gritado das crianças e o chororô dos corruptos, que não comove ninguém

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 05h51

Chora-se de pena ou dó e, paradoxalmente, de rir. Choramos muito de saudade, por amor e até de raiva. Impossível viver neste “vale de lágrimas” sem chorar, sem comover-se com o choro como uma expressão permanente e essencial da vida e das relações humanas num mundo cujas circunstâncias não controlamos plenamente.

Existem muitos modos e maneiras de chorar. Tantos que, no Brasil, eles formam até um singular gênero musical: o chorinho no qual se soluça alegre e com ritmo. O choro é um dos mais sublimes dos obrigatórios sentimentos humanos, conforme ensina o grande antropólogo Marcel Mauss. Todo ser humano chora, mas em todo lugar ele pranteia editado e constrangido pelo estilo de choro de sua cultura, língua, idade, gênero, país, casa, família e segmento social. A prova cabal disso é que não verter lágrima em certas situações é mais do que um sinal de frieza; é revelação de distância e desumanidade. Em certas situações, o choro é tão obrigatório quanto elogiar uma comida ou um novo (e horrendo) penteado da esposa. Se você observa o choro em outras sociedades, descobre um inesperado elo entre o pranto dolorido, mas sempre ritmado e melodioso, e a música. 

Não deve ser, portanto, por acaso que muitas melodias sejam uma manifestação de lamento e nos levem à comoção cujo clímax é o soluço. Os compositores russos sempre me comovem e, eventualmente, fazem meus olhos molhados de velho lacrimejarem. Seja de admiração pela beleza dos sons que se harmonizam – a música é uma arte que se faz sem materiais de fora, como ensina Schopenhauer – seja pela capacidade de proporcionar o milagre de ser invadido por uma inexcedível pureza sentimental. Ademais, há melodias que fazem rememorar e há as que assombram pela inovação. 

O fato é que a música, como o incenso, nos penetra e envolve. São mediadores privilegiados entre o céu e a terra e entre os apaixonados. Na forma de hino e palavra de ordem, são máquinas de criação de identidade e coesão grupal. Podemos desviar os olhos de uma tela ou escultura para focar nos seus detalhes, mas com a música (tal como com um perfume) não há como fechar janelas e portas, pois a melodia e a essência nos perseguem como um bom pensamento ou uma assombração.

Quantos tipos de choro você conhece?

Há o pranto gritado das crianças, que cessa quando elas ganham o peito cheio de leite materno; e há o “chororô” dos corruptos que diante da lei vertem lágrimas de vergonha e arrependimento sem, como os crocodilos, comover ninguém. Há também o choro dos sofredores e dos injustiçados, testemunho cabal de sinceridade. A lágrima é uma prova tão forte quanto uma mala de dinheiro, justamente porque desarma os indecisos e os incrédulos.

Existem choradeiras públicas – “choros para fora” como os prantos dos funerais de celebridades. Neles, cada qual mostra sua afeição chorando competitivamente mais forte e mais alto do que o outro. Ao lado desse lamento para fora, porém, há prantos para dentro – o soluço solitário, sem testemunho, no qual você é obrigado a consolar-se e perdoar-se. Chora-se assim por um ente querido, cuja morte súbita nos tira a ilusão do controle das nossas vidas. Nesses casos, curvamo-nos sobre nós mesmos e nos conectamos com aqueles que amamos na forma mais pura de rezar. Tal como os sinos que, na poesia de John Donne, dobram para todos, choramos igualmente por todos e cada um e nós.

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