Chopin & Schumann, as faces de um mesmo romantismo

Os dois se admiravam. Schumann chegou a fazer de Chopin um personagem de seu famoso Carnaval. Neste ano comemoramos o bicentenário do nascimento de Fryderyck Franciszek Chopin, em Zelazowa Wola, Polônia, e Robert Alexander Schumann, em Zwickau, Alemanha. As faces pop e cult de um mesmo romantismo musical.

Gilberto Mendes, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

Schumann, mais intimista, literário, para pequenos grupos intelectualizados. Chopin é a música para milhões, como já mostrou o cinema americano. Carismático, pede devoções fervorosas, romarias aos lugares por onde andou, viveu, amou. A ilha Maiorca e George Sand, la femme fatale !

Lembro-me de Viena, no Festival da Juventude, 1959, um concerto maravilhoso do grupo Mazowsze, no mitológico Konzerthaus, as músicas folclóricas da terra que Chopin tanto amou! E depois a volta para o acampamento, por sorte no mesmo ônibus que os poloneses, cantando as mesmas músicas. Inesquecível a presença de Chopin! Ah, as mazurkas, sobretudo a opus 17, n.º 4, sua mórbida melancolia, quase já um expressionismo musical, que Bergman soube tão bem usar em Gritos e Sussurros.

Varsóvia, vindos de Moscou, via Smolensky. No primeiro dia pelas ruas, alguém bate a mão em meu ombro e pergunta se sou brasileiro. Como adivinhou? A velha máquina fotográfica Kapsa, brasileira, que eu levava nas mãos. O surpreendente cidadão vivera alguns anos no Brasil, trabalhando numa loja de fotografias. Foi o meu guia durante os dias que passei em Varsóvia, ainda destruída pela guerra. Mas deu para ele me mostrar um café frequentado pelo jovem Chopin e, mais impressionante, a parede onde está seu coração, numa velha igreja. Contou-me que Chopin tinha medo de ser enterrado vivo e pedira para perfurarem seu coração, depois de sua morte. Assim, a França ficou com o corpo e a Polônia com o coração. As duas pátrias de Chopin.

E em Paris, nova romaria, agora ao seu túmulo no cemitério Père-Lachaise e à Place Vendôme, para derramar algumas lágrimas debaixo da janela do quarto onde morreu. Sem esquecer uma visitinha ao Louvre, para ver seu belo retrato pintado por Delacroix.

Mas não se iludam com esse turismo e a imensa popularidade de Chopin. Sem dúvida, ele tem todo esse lado pop, mas no fundo é um compositor para eleitos, por excelência. Tem aquela leitura popular, que só procura nele certo caramelado melódico, a harmonia já piano-bar. Mas, de um outro ponto de escuta, vamos verificar que ele é um dos pilares do desenvolvimento da linguagem musical ocidental. Seus Prelúdios e Estudos equivalem ao Cravo Bem Temperado de Bach. Chopin é o pai da harmonia moderna, desenvolvida posteriormente por Debussy. Sem os dois, não existiria a bossa nem o jazz de um Bill Evans.

Bem menos turismo com Schumann, mas não deixei de pensar muito nele enquanto andava pelas ruas de Leipzig, onde ele morou. E de me comover em Chicago, 30 anos atrás, ouvindo seu concerto para piano e orquestra com o grande Pollini, e agora mesmo, em Santos, minha cidade, o mesmo concerto com a magnífica Dana Radu.

Basta-me dizer, de Schumann, que ele foi minha primeira grande paixão musical, logo que comecei a estudar piano, aos 19 anos. Ah, seu Jugend-Album! Depois veio a paixão pelo Warum, uma das suas Phantasiestucke, por aquele acorde arpejado no compasso 13, o mesmo que Chopin usou no comecinho de seu Estudo n.º 1 op. 25. O mesmo, ainda, a motivar meu Warum Blues, que compus a pedido do pianista holandês Marcel Worms, para um CD de blues erudito que ele gravou em Amsterdã. Eu sentira em Schumann, na sequência em seguida a esse acorde, uma curiosa relação com certa característica passagem harmônica do velho jazz. Relação que desenvolvi! Estranha, sedutora, muita tentação para resistir!!

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR,CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE UMA

ODISSEIA MUSICAL (EDUSP)

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