Chiquitos e a música

Os primeiros jesuítas que chegaram a esta distante região oriental da Bolívia viram que as moradias dos indígenas tinham portas tão pequenas que batizaram toda aquela área de Chiquitos.

MARIO VARGAS LLOSA,

09 de fevereiro de 2014 | 02h12

O padre José de Arce e o irmão Antonio de Rivas pisaram pela primeira vez nesse local selvagem em fins de 1691. Em vez de armas, traziam consigo instrumentos musicais; suas experiências no Peru e Paraguai haviam ensinado que a linguagem das flautas, dos violinos ou das cítaras facilitavam a comunicação com os nativos do novo mundo. Mas aqueles primeiros missionários nunca imaginaram a maneira como os chiquitanos se apropriaram daqueles instrumentos e da música que lhes foi trazida da Europa, incorporando-os e adaptando-os à sua própria cultura. A tal ponto que quatro séculos depois podemos dizer que a Chiquitania é uma das regiões mais melomaníacas do mundo, onde a música barroca persiste tão viva e atual como no século 18, com matizes e cores com sabor local, um trabalho de comunidades cuja idiossincrasia concilia, de maneira admirável, o tradicional e o moderno, o artístico e o prático, o espanhol e a língua aborígine.

O que mais me surpreendeu nesta viagem de poucos dias pela vasta região que separa a cidade de Santa Cruz da fronteira brasileira foi descobrir que, ali, diferente de outros lugares da América Latina onde floresceram importantes culturas aborígines, os 76 anos de evangelização - até 1767, com a expulsão dos jesuítas -, deixaram uma marca muito profunda, que continuou fecundando de maneira visível aquelas comunidades que os antigos missionários ajudaram a se integrar, a se defender das incursões dos bandeirantes paulistas que vinham caçar escravos e a modernizar e enriquecer, com aportes ocidentais, seus costumes, suas crenças, sua arte e, sobretudo, sua música.

A partir de 1972, teve início a reabilitação dos templos de Concepción, San Javier, San Ignacio, Santa Ana, Santiago e San José (que visitei, mas sei que há outros), com seus preciosos retábulos barrocos, seus belos campanários, seus entalhes, afrescos e enormes colunas de madeira, seus órgãos e seus púlpitos exuberantes. O trabalho realizado pelo arquiteto suíço Hans Roth, que dedicou 30 anos ano de vida a essa tarefa, e seus colaboradores, foi extraordinário. As igrejas, belas, simples e elegantes, não são museus, testemunhos de um passado separado para sempre do presente, mas provas palpáveis de que, na Chiquitania, a história antiga continua estimulando o presente.

Não só a música que veio do outro lado dos rios e mares impregnou e passou a ser parte indivisível da cultura da região; também o cristianismo passou a constituir a essência de uma espiritualidade que em todos estes séculos se conservou e foi o principal aglutinador de algumas comunidades que manifestam sua fé dedicando-se a todos os ofícios, com seus caciques, comunidades e "mães" à frente, dançando, cantando (às vezes em Latim) e cuidando dos lugares e objetos de culto com um zelo incansável. Contrariamente ao que ocorre no resto da América Latina e do mundo, onde a religião parece ocupar cada vez menos a vida das pessoas e o laicismo avança desenfreadamente, em Chiquitos é a vida que comanda e, como na Europa Medieval, o meio ambiente em que os seres humanos nascem, vivem e morrem. Mas seria injusto pensar que isto manteve os chiquitanos parados no tempo; a modernidade também está presente nessas aldeias, por todos os lados: nos colégios, nas oficinas, nos artesanatos, nas técnicas para trabalhar a terra, no rádio, na televisão, nos celulares, na internet. E principalmente na destreza com que crianças e jovens aprendem nas escolas de música locais a tocar o contrabaixo, a guitarra ou o violino, como também o tambor e a flauta tradicionais.

Nos anos em que o arquiteto Hans Roth trabalhou na restauração das igrejas foram encontradas mais de cinco mil partituras de música barroca que, após a expulsão dos jesuítas, os chiquitanos conservaram em arcas ou caixas que deterioraram em meio às ruínas em que as igrejas se transformaram. Todo esse riquíssimo acervo está hoje classificado, digitalizado e protegido com ar condicionado no Arquivo de Concepción, onde, há muitos anos, um religioso polonês, o padre Piotr Nawrot, os estudou e publicou em volumes cuidadosamente anotados e que constituem um minucioso histórico da maneira como a música barroca criou raízes na cultura dos chiquitos.

As melodias e composições contidas naquelas partituras vindas da profundidade dos séculos são ouvidas hoje em todas as aldeias da região, interpretadas por orquestras e coros de crianças, jovens e adultos que as tocam e entoam com a mesma desenvoltura com que dançam suas danças ancestrais, com uma convicção e uma alegria emocionantes.

Crentes e agnósticos sentem um estranho e intenso arrepio no corpo quando, nas cálidas e estreladas noites da selva, onde ainda há jaguares, pumas, jacarés e serpentes, percebem que Vivaldi, Corelli, Bach, Tchaikovsky, além de italianos, alemães ou russos, também são chiquitanos, pois as grandes criações artísticas não têm nacionalidade, pertencem a quem as ama, as adota e expressa através delas os seus sofrimentos, anseios e alegrias. Vários destes jovens ganharam bolsas e estudam agora em Buenos Aires, Madri, Paris, Viena, Berlim.

Há uma extensa bibliografia sobre as missões jesuítas na Bolívia onde, parece evidente, o esforço missionário foi muito mais profundo e duradouro do que no Paraguai ou Brasil. Para comprovar isto, nada melhor do que o livro de Mariano Baptista Gumucio, Las Misiones Jesuíticas de Moxos y Chiquitos: Una Utopia Cristiana en el Oriente Boliviano. É um resumo bem documentado e muito bem escrito desta extraordinária aventura: como, num canto da América do Sul, o encontro entre europeus e habitantes pré-hispânicos, em vez de se caracterizar pela violência e crueldade, serviu para atenuar a dura servidão que era a vida, para humanizá-la e trazer para aquela cultura frágil ideias, formas, técnicas e crenças que a fortaleceram e ao mesmo tempo modernizaram.

Baptista Gumucio não é ingênuo e assinala com clareza os aspectos discutíveis e intoleráveis do regime imposto pelos jesuítas nas reduções onde a vida quotidiana transcorria dentro de um sistema rígido, em que o indígena era tratado como menor de idade. Mas ele sublinha, com muita razão, que esse sistema, comparado com o que reinava nos Andes, onde índios morriam como moscas nas minas, ou no Brasil, onde eram raptados pelos bandeirantes e vendidos como escravos, era infinitamente menos injusto e pelo menos permitia a sobrevivência dos indivíduos e suas culturas. Uma das regras mais fecundas, nas missões, foi a obrigação imposta aos missionários, de aprenderem as línguas nativas para evangelizar os aborígines. Desta maneira nasceu a língua chiquitana, pois antes as tribos da região falavam dialetos diferentes e mal conseguiam se comunicar entre si.

Nenhum país que abriga em seu seio culturas distintas, uma moderna, poderosa e ocidentalizada e outra ou outras mais primitivas, conseguiu estabelecer um modelo que permita a estas últimas se desenvolverem e se modernizarem sem perder suas características intrínsecas: seus costumes, suas crenças, suas línguas, seus mitos.

Em todos os casos - os mais flagrantes são os dos Estados Unidos, Japão e Índia -, o desenvolvimento significou a absorção, às vezes a extinção, da cultura mais débil pela mais poderosa, a ocidental.

Naturalmente há uma injustiça terrível nestes processos; mas nenhuma sociedade foi capaz até hoje de estabelecer um sistema em que uma cultura pequena e antiga consiga chegar à modernidade sem renunciar a essa soma de fatores materiais e espirituais que a definem e diferenciam das outras. Na América Latina, onde o problema existe em pelo menos meia dezena de países, temos obrigação de encontrar um modelo em que esse ato de justiça seja possível em termos práticos.

Onde buscar exemplos que nos orientem? Nas aldeias chiquitanas, há lições úteis para quem quiser ver e ouvir. As mulheres e os homens dessa terra não perderam o que chamamos de "identidade", mantêm vivo o seu idioma, suas danças, sua indumentária; e seus costumes e crenças foram evoluindo de modo que podem participar das oportunidades da vida moderna sem deixar de ser o que foram e que continuam sendo nesse ambiente multicultural que são a Bolívia e todos os povos andinos. Uma viagem à região da Chiquitania mostra aos visitantes que Beethoven, danças folclóricas, como o Taquirari, ou a silhueta do jaguar e os arpejos de uma cítara podem se entender, coexistir e se metamorfosear. Foi o que fizeram os chiquitanos e por isso devem ser aplaudidos e imitados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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