China atual ainda fala a linguagem do silêncio

Escritores dizem que é impossível atuar com liberdade na superpotência asiática

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

20 de junho de 2009 | 19h57

Os três escritores chineses entrevistados pelo Estado sobre os 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial guardam em comum o fato de suas famílias terem sido perseguidas durante a Revolução Cultural maoísta (1966-1976), o que deixou profundas marcas no trio. Ma Jian conta que seus parentes começaram a ser presos muito antes, em 1949, logo que os comunistas tomaram o poder no país. O escritor, que completou 56 anos, nem havia nascido e o avô já definhava na cadeia, acusado de ser um "rico camponês". "Vovô morreu de sede entre as grades e minha família nunca comentou sua morte; meu pai passou o resto da vida com medo e meus irmãos foram impedidos de entrar na universidade", relata o autor de Pequim em Coma, que voltou ao país natal no ano passado para descobrir, na aldeia do avô, que ele havia sido um líder local, que construiu um teatro e formou uma trupe famosa na região.

 

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Como qualquer adolescente rebelde, Ma Jian não deu ouvidos às queixas dos pais contra o regime. Foi para as ruas gritar slogans maoistas. "Só aos 20 anos, quando comecei a trabalhar como fotojornalista em Pequim, comecei a questionar o sistema político vigente", diz o escritor, definindo o regime comunista chinês como uma "máquina", uma "armadilha" que faz a "individualidade desaparecer". Ma Jian abandonou o emprego e vagou pela China por três anos, numa peregrinação ilegal até o Tibete, onde abraçou o budismo. "Acho que foi meu primeiro gesto de revolta", lembra. O segundo foi a publicação de Mostre a Língua (Stick Out Your Tongue, 1987), imediatamente retirado de circulação por "incitar a poluição espiritual", segundo sentenciou o governo. Todas as cópias foram destruídas. Há 22 anos seus livros estão proibidos na China.

 

"Escritores do Ocidente podem se dar ao luxo de ignorar a política, mas na China, onde ela permeia quase todos os aspectos da vida, é impossível abraçar a neutralidade", conclui Ma Jian, argumentando que o Estado chinês, ao proibir os escritores de revelar a verdade, reprime qualquer tentativa de se criar uma literatura que faça sentido, "transformando-a inevitavelmente num ato político." Morar em Londres, segundo ele, deve-se a essa lógica. "Poderia escrever em Pequim, mas não quero ser surpreendido com a polícia batendo à porta."

 

Diane Wei Liang não arriscaria igualmente escrever em Pequim, onde seu pai viúvo ainda mora. Revela ter hoje certa dificuldade para se comunicar com parentes e velhos amigos chineses, mais ocupados em administrar negócios do que com a política. "Agora eles podem viajar com maior liberdade; também diminuiu a paranoia de discutir assuntos políticos e ser denunciado pelos vizinhos, mas a China ainda está distante de ser uma democracia." Também por isso a autora de Lago Sem Nome faz questão de não ensinar mandarim aos filhos, um menino e uma garota, ambos nascidos na Inglaterra. "Ele são filhos de mãe chinesa e pai alemão, ou seja, são frutos do mundo globalizado; não precisam saber que a mãe foi perseguida com pedras na infância", justifica a escritora, que também é economista.

 

Histórias de sofrimento e trauma, provocadas pelo autoritarismo, estão presentes tanto no romance de Diane Wei Liang como no livro-reportagem de Xinran, que complementa o balanço ficcional que a autora de Lago Sem Nome e Ma Jian fizeram de um episódio real, os 20 anos do massacre de Tiananmen. Xinran admite ser um trabalho limitado por longos momentos de silêncio de seus interlocutores, que ainda não falam livremente sobre o passado – legado de milênios de totalitarismo imperial e da opressão comunista. "Em chinês, a palavra rebelde estigmatiza toda a família de quem comete um delito e a luta pela sobrevivência faz com que essa tradição silenciosa se perpetue", explica.

 

Isso não impediu que Xinran conseguisse entrevistar Lin Xiangrei, de 89 anos, filho de mártires revolucionários que caiu em desgraça ao se casar com a mulher errada, a durona heroína Chen Lianshi, amargando 30 anos de prisão e deixando seis filhos nas ruas. É uma história comovente, como outras, mas, à pergunta se faria as mesmas escolhas se pudesse viver de novo, Xiangrei responde com o silêncio, mirando o teto. Essa é a China profunda que desafia o barulho da modernidade.

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