Chico traduzido em imagens

Letras como Folhetim e Construção viram episódios de seriado da Globo, que estreia em janeiro

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Aos 66 anos e 45 de carreira, Chico Buarque não precisou de qualquer efeméride para fazer de 2010 seu ano de homenagens. Além dos recentes Prêmio Jabuti de melhor ficção e Prêmio Portugal Telecom, pela obra Leite Derramado, o cantor e compositor foi agraciado com o projeto multimídia Chico Paratodos. Desde que saiu do papel, em dezembro passado, a ideia já rendeu o livro Essa História Está Diferente - Chico por Dez Contos, o longa em produção Olhos nos Olhos, de Karim Aïnouz, e, em janeiro, chega à TV sob forma de minissérie da Globo, Amor em Quatro Atos, gravada em São Paulo e no Guarujá, na Baixada Santista.

Com direção de núcleo do expert em programas musicais Roberto Talma, a série de quatro capítulos é inspirada em cinco canções de Chico: Ela Faz Cinema e Construção - que viraram um só episódio dirigido por Talma, com roteiro de Antônia Pellegrino -; Mil Perdões, com texto de Estela Renner e Tadeu Jungle e direção de Jungle; Folhetim e As Vitrines, capítulos roteirizados por Márcio Alemão e dirigidos por Bruno Barreto - que, aliás, faz sua estreia na TV.

Criador do projeto, Rodrigo Teixeira, sócio da RT Features (produtora de O Cheiro do Ralo e coprodutora da minissérie juntamente com a Globo) explica que, apesar de já ter trabalhado com Barreto em dois longas, a escolha do diretor não foi sua. "O Tadeu Jungle foi convite meu e, quando conheci o Talma, ele disse que seriam ele o Bruno os diretores dos outros episódios", explica Teixeira. "E sabe que nunca vi o Bruno tão feliz? Ele está trazendo para a TV uma linguagem de cinema."

Linguagem e minúcia. Na última terça feira, o Estado acompanhou o trabalho do diretor, que gravava cenas externas na Avenida Paulista e no Parque Trianon, em plena hora do rush. Para uma cena de cerca de 30 segundos com Vladimir Brichta, o protagonista Ari, de Folhetim e As Vitrines, foram necessárias três horas de filmagem, das 19h30 às 22h30.

"(Gravar) numa esquina da Paulista nesse horário, é coragem, hein?", dizia uma senhora ao tentar atravessar o bolo de figurantes, câmeras e equipe de produção que se aglomerava na Rua Peixoto Gomide. Um pedestre de terno, confundido pela produção com um figurante, quase foi "puxado" para a cena,

Como a ideia inicial era gravar o cair da noite, com as luzes da avenida se acendendo, a equipe de produção calculou que a gravação iria até as 20h30, e a cada grito de "corta", perguntavam: "Esse deve ser o definitivo, né?"

Em cena no parque, com os atores Gustavo Machado e Alice Assef, Barreto não gostou quando a equipe, preocupada em perder a pouca luz do dia para a cena de Brichta, o apressou. "Não trabalho assim. Vou terminar esse "insert" aqui." Marcado por personagens de humor na TV, Brichta diz que, além do fato de poder mostrar sua faceta dramática, o que o atraiu para o projeto foi justamente esse cuidado e rigor emprestados do cinema. "Realmente (o trabalho) é cansativo. Mas é só imaginar que é um longa, que geralmente é rodado em dois, três meses, feito em três semanas e meia." O ator fará par com Camila Morgado e Alinne Moraes, esta última a prostituta Vera, "dessas mulheres que só dizem sim", eternizada na letra de Folhetim.

Para Mil Perdões foram escalados Dalton Vigh, Carolina Ferraz, Gisele Fróes e Cacá Rosset. Em Ela Faz Cinema/ Construção, o elenco principal fica por conta de Marjorie Estiano, Malvino Salvador e Gero Camilo.

Dinheiro privado. Apesar de fazer parte do projeto que originou o livro de contos inspirado em dez canções de Chico, a série é uma segunda obra de ficção. "Das dez músicas que viraram conto, escolhi a que seria filme e apresentei outras nove para a Globo decidir", conta Teixeira.

Feito nos mesmo moldes dos projetos da RT Features Camisa 13 e Amores Expressos - para os quais foram chamados autores que escrevessem livros sobre futebol e amor, que seriam transformados em filme -, a ideia agora é transformar a série de TV em DVD e, depois, promover um evento musical.

E, como em 2007, o anúncio de Amores Expressos gerou polêmica porque usaria dinheiro da Lei Rouanet para custear a viagem dos autores pelo mundo, Teixeira se apressa em dizer que, dessa vez, o projeto orçado em R$ 12,5 milhões não conta com verba de incentivos. "Nosso patrocinador é a Caixa Econômica Federal, e esse dinheiro é verba de marketing ", diz. "A única coisa é que a Caixa é um banco público, não privado."

Quanto a Chico, que, para a surpresa de Teixeira topou o projeto na hora e logo dispôs 400 canções para a escolha do repertório, a reação não poderia ter sido melhor. "Ele está extremamente feliz. Do livro, elegeu seu conto predileto: Construção, do mexicano Mario Bellatin. Sobre a série: ele é amigo do Talma e, para Dona Flor e seus Dois Maridos, do Bruno, compôs O Que Será. Poderia haver, agora, homenagem melhor?"

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