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Chico no pré-sal

Leio e ouço o que se diz de O Irmão alemão, o novo romance de Chico Buarque - e me lembro de uma história contada por Fernando Sabino.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2014 | 02h06

Ele andava pelos 19 anos quando conheceu Vinicius de Moraes, uma década mais velho e já escritor estabelecido. Solenizado, o mineirinho disse ao poeta que sabia de cor o longo poema Ausência, da fase viniciana dos versos quilométricos, capazes de encher de brotoejas a alma de um concretista: "Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces, / porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto...". Gerações e gerações - a sua também? - se arrepiaram ao ler aquele acolchoado bilhete-azul dirigido a uma namorada. "Ah", comentou Vinicius, para desconcerto de Sabino, "esse eu fiz quando enjoei de tomar a barca no Rio para namorar em Niterói..."

Desculpe se estendo um pouco mais os prolegômenos: pouca ou nenhuma diferença faz aquilo que leva um poeta a poetar; não importa onde ele bebeu, e quanto, se na imaginação, na memória - sua ou alheia - ou na chamada vida real. Até porque, diz um poeta dos bons, meu amigo João Paulo Gonçalves da Costa, às vezes a musa é a falta de musa. Mais prosaico e pragmático não poderia ser o motivo que levou Vinicius a destilar delicadezas em Ausência. E que importância tem o fato de que foi para pagar dívidas que Stendhal escreveu em 53 dias as 600 páginas de A Cartuxa de Parma, obra-primíssima? Ou que Rubem Braga tenha feito algumas de suas melhores crônicas sob a pressão do deadline do jornal ou revista?

Toda essa conversa para dizer que O Irmão alemão, para estar de pé como sólida obra de arte, não depende dos fatos reais em que se inspirou - a história do filho que Sérgio Buarque de Holanda gerou, solteiro ainda, no ano e meio que viveu em Berlim, entre 1929 e 1930; aquele meio-irmão de cuja existência Chico só veio a saber aos 22 anos, e cuja busca, tantas vezes frustrada, haveria de se estender até as portas de seus 70, quando, em 2013, com a ajuda de pesquisadores mobilizados pelo editor Luiz Schwarcz, se pôde finalmente desvendar a figura de Sergio Günther, cantor e homem de TV da Alemanha comunista, falecido em 1981.

Não faz falta ao leitor, insisto, saber o que há de factual e de imaginação neste romance, e em que dosagens - razão pela qual me parece um tanto ocioso o esforço de quem tenta separar cirurgicamente uma coisa da outra, com o risco de negligenciar o fato muito mais relevante de que, em O Irmão alemão, realidade e ficção foram combinadas com talento e mão precisa. Em outras palavras: o romance não é bom porque é boa a história de Sergio Günther: na pena de mau romancista, ela nunca chegaria a tanto.

Isso posto, me parece auspicioso o fato de que Chico tenha se servido, como nunca, de um baú pessoal que a meu ver ainda não explorara tão decididamente. Explico. Seus romances anteriores me dão por vezes a impressão de busca de uma ficção absoluta, feita de pura imaginação, como se isto existisse. A partir de Leite derramado, porém, e muito mais agora, em O Irmão alemão, sinto o escritor instalado num pré-sal rico em materiais de sua vida. Nunca vi tanto Chico num romance de Chico Buarque.

Assim municiado, ele acertou a mão - e mão de ourives. O que mais me encanta neste livro não é bem a história, convincente e bem levada, mas a maneira como Chico a conta. Não sei se me farei entender: mais do que contar uma história, articulando enredo e personagens, ele me parece comprazer-se na aventura de estar escrevendo, embarcado, para além da preocupação com gêneros literários, numa viagem pelo reino das palavras, cada uma delas meticulosamente garimpada e encastoada no texto.

Empenho igual se nota no refino de ritmos e sonoridades. Posso estar vendo mais do que o autor pretendeu fazer, mas ao longo da leitura fui topando com fartura de versos no interior de frases - dezenas de irretocáveis alexandrinos ("vestindo feito luvas suas mãos nas minhas"; "armadilha de mãe é a coisa mais atroz"; "nunca morri de amores por aquele irmão") e decassílabos ("cai um silêncio infame sobre a mesa"; "a multidão de corpos estendidos"; "poeta russo declamando ao vento"). Maluquice de leitor eventualmente dado a ver coisa onde não tem? Sugiro que você corra ao livro, e depois falamos.

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