Acervo pessoal
Acervo pessoal

Chico da banda ao século 21

Livro reúne registros das primeiras impressões sobre suas composições

ROBERTA PENNAFORT, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h08

"Minha adolescência foi um circo de influências e tentativas. Quis ser palhaço, bombeiro, intelectual, jogador de futebol, padre, deputado, ladrão de automóveis, galã e arquiteto. Nada deu certo, e acabei mesmo tocando violão."

A galhofa é de autoria de um Chico Buarque de 23 anos, em 1967 - já no terceiro CD e tratado como "gênio", "o novo Noel Rosa", "expoente da moderna música brasileira", ou simplesmente "o tímido criativo", "o bom moço com quem toda mãe queria casar a filha".

Aqueles eram dias em que o quarto dos sete filhos do eminente historiador Sérgio Buarque de Holanda - que um dia teve de responder que não, não era ele o verdadeiro autor das letras surpreendentes creditadas ao filho, e noutro orgulhosamente passava a se autodeclarar "apenas o pai de Chico" - só queria "cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinicius de Moraes".

Como hoje se sabe bem, aquele jovem, fã entusiasmado de Ismael Silva, Ataulfo Alves, Dorival Caymmi, Mário Reis e, naturalmente, da bossa nova, já despontava como um artista de caminho bem próprio, que, trilhado ao longo de 45 anos de carreira discográfica e literária, iria levá-lo à quase unanimidade.

Acompanhados por gerações de brasileiros, os highlights dessa história, em fotos, reportagens, críticas, cartas e relatos, estão em Para Seguir Minha Jornada, livro da jornalista Regina Zappa que a Nova Fronteira está lançando. Não se trata de uma biografia - isso ela já fez -, mas um almanaque, um recorte do acervo caprichado que uma tia de Chico, Cecília, irmã de seu pai, falecida há 12 anos, amealhou durante os anos 60, 70 e 80 em altas pilhas.

Regina avança até o século 21 e os últimos CD e livro, mas a delícia reside nas primeiras entrevistas, nos registros de uma época ainda inocente, sem paparazzi no Leblon e grande resistência a jornalistas. "Ele dava muita entrevista; aos poucos foi diminuindo. Eu quis resgatar coisas que ficaram esquecidas, como o livro A Bordo do Rui Barbosa, dos anos 60", conta a autora, que observou coerência e maturidade no discurso do compositor em todo o período. Chico, que não tem o espírito colecionador da tia, e pouco guardou, leu tudo e fez apenas correções em datas.

Parte do conteúdo foi digitalizada pelo Instituto Antonio Carlos Jobim e está no site www.jobim.org/chico. A leitura do livro, no entanto, não é só mais agradável do que o passeio digital, mas também mais informativa e contextualizada historicamente.

Regina selecionou reportagens curiosas das revistas Manchete, Fatos & Fotos, Contigo e Realidade sobre o jovem estudante de arquitetura que se tornara fenômeno nacional com A Banda, e a sequência de sucesso com Olê, Olá, Pedro Pedreiro, Quem Te Viu, Quem Te Vê. Tudo que ele fazia era digno de intenso registro.

Em 1967, uma visita a Curitiba se mostrou uma insanidade. A foto em preto e branco mostra Chico num palanque, como um político, 50 mil pessoas à sua volta a berrar. Outra matéria conta que Chico apareceu só de short para receber um repórter em casa, que o esperara acordar.

Há entrevistas em que ele confessa ter tentado tocar como João, compor à Ataulfo - como em Quem Te Viu, Quem Te Vê - ou chegar ao ritmo da música de Jorge Ben - em Pedro Pedreiro.

Em 1968, entrevistado por Clarice Lispector para a Manchete, lhe fez uns versinhos: "Como Clarice pedisse/ um versinho que eu não disse/ me dei mal/ ficou lá dentro esperando/ mas deixou seu olho olhando/com cara de juízo final".

Um texto de 2000, quando ganhou um prêmio em Roma, onde morou criança e em seu autoexílio, em 1970, mostra a relação íntima com a cidade: "Disse a Roma que no Rio não me queriam, disse-lhe que não podia viver assim no ar, sem uma cidade".

O fã vai se regalar com manuscritos de Apesar de Você, Valsinha e Morena dos Olhos D'Água; as suas tiradas bem-humoradas; os lances da rivalidade com os então também jovens Roberto Carlos e Caetano Veloso; as cartas de Vinicius, Glauber e Boal; o cartão de Natal ameaçador do Comando de Caça aos Comunistas, do qual nunca se desfez.

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