Chico Buarque veta uso de música em filme do governo FHC

O cantor e compositor Chico Buarque vetou o uso de um trecho da sua música "O Que Será?" no filme e na videoinstalação "Pessoas do Brasil", de Tadeu Jungle e Carlos Rennó, produzidos especialmente para serem exibidos na mostra Expo 2000, de Hannover, Alemanha. A exposição será aberta no dia 1º e os produtores tiveram de reeditar o filme às pressas para enviá-lo àquele país.Chico Buarque avisou que não permitiria o uso, em telefonema a Carlos Rennó, co-diretor do filme e autor do roteiro e da trilha sonora (esta em parceria com Ruriá Duprat). Segundo Rennó, Chico disse que não está satisfeito com o governo do Fernando Henrique Cardoso e que não deixaria que sua obra fosse associada à atual gestão."Eu digo sim ao não do Chico", afirmou Rennó, concordando com o protesto. "Ele não quer fazer algo que tenha a participação do governo e que vá contar com a presença do presidente e do filho do presidente", afirmou o diretor. A alusão ao "filho do presidente" é elucidativa: Paulo Henrique Cardoso foi acusado recentemente de ter sido beneficiado pelo pai com verbas generosas para o pavilhão do Brasil em Hannover."O Chico alega que não é bem tratado pelo governo, o que é verdade: o presidente declarou que não gosta mais de Chico Buarque porque acha que ele está se repetindo artisticamente", ponderou. "Seria um contrasenso se o governo resolvesse usar algo que considera ter redundância artística", teria dito Chico Buarque. "Se o compositor prefere assim, eu fico feliz em retirar a participação dele", afirmou Rennó.A reportagem entrou em contato com a assessoria deimprensa de Chico Buarque, mas o compositor não comentou o caso. A cena que tem como base a música de Chico Buarque mostra dois casais cantando os versos "O que não tem governo nem nunca terá/o que não tem vergonha nem nunca terá/o que não tem juízo". Na nova edição do vídeo, o som foi suprimido e mostra apenas os casais com as bocas se mexendo, cobertas com tarjas. Na videoinstalação, a cena toda foi cortada."Pensamos em usar outra música, mas nada cabe: ou é o Chico ou ninguém", diz Tadeu Jungle. Segundo Jungle, Chico "é Deus e está coberto de razão". Segundo ele, a idéia era homenagear o cantor, incluindo-o numa galeria que tem ainda nomes como Mário de Andrade e Machado de Assis. "Mas não vai ser possível, então paciência", afirmou.

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